Ex-ministro grego afirma que memorando com Teerã simboliza vitória iraniana.
247 – O economista Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia e fundador do movimento DiEM25, afirmou que o memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã representa uma “declaração de vitória inequívoca” para Teerã e uma “rendição temporária” da administração Donald Trump no plano diplomático. As declarações foram dadas em entrevista concedida ao professor Glenn Diesen. Na conversa, Varoufakis analisou os efeitos geopolíticos do acordo, seus obstáculos internos nos Estados Unidos e as possíveis consequências para Israel, os países do Golfo, a Europa e a guerra na Ucrânia.
“É uma declaração de uma vitória inequívoca para o Irã e uma rendição temporária, no nível diplomático, pela administração Trump”, afirmou Varoufakis, ao comentar o memorando. Segundo ele, mesmo que o documento esteja longe de se transformar automaticamente em um tratado efetivo, sua importância simbólica é “enorme” para o equilíbrio de forças no Oriente Médio, região que ele prefere chamar de Ásia Ocidental.
Para o ex-ministro grego, o memorando tem um caráter paradoxal. Ele comparou o acordo ao Tratado de Versalhes, mas em sentido invertido: em vez de o vencedor impor reparações ao derrotado, os Estados Unidos, que se apresentariam como vencedores, aceitariam colocar recursos para reconstruir o país atacado. “É como uma inversão dialética do Tratado de Versalhes original”, disse.
Varoufakis advertiu, porém, que o memorando não deve ser confundido com um acordo plenamente implementado. Segundo ele, há “muitos obstáculos” para que qualquer valor chegue de fato a contas iranianas. “Estamos a anos-luz de qualquer conta bancária iraniana ver um único dólar dos americanos”, afirmou.
Acordo abala a estratégia dos EUA e de Israel
Um dos pontos centrais da análise de Varoufakis é que o memorando altera profundamente a arquitetura regional construída pelos Estados Unidos nos últimos anos. Para ele, a lógica dos Acordos de Abraão, impulsionados por Donald Trump em seu primeiro mandato, ficou esvaziada.
Segundo Varoufakis, a estratégia americana consistia em cooptar Estados árabes para um desenho regional no qual Israel teria papel central. “Isso acabou. Os Acordos de Abraão estão mortos na água, no que diz respeito ao desenho original”, afirmou.
Ele também destacou que a Europa foi marginalizada no processo. “Nunca a Europa foi tão irrelevante em desenvolvimentos momentosos ao redor do mundo”, disse. Para Varoufakis, os governos europeus se limitaram a apoiar a posição dos Estados Unidos mesmo sem conhecer plenamente os termos do memorando.
O ex-ministro avaliou ainda que o episódio pode marcar a primeira ruptura séria na relação oficial entre Estados Unidos e Israel. Segundo ele, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu teria capacidade de tentar sabotar o acordo, mas justamente essa tentativa estaria aprofundando tensões entre o establishment israelense e setores do Partido Republicano.
Divisão dentro do trumpismo
Varoufakis também analisou a disputa interna no movimento MAGA, base política de Donald Trump. Segundo ele, há duas correntes em choque: uma ligada à família Trump e aos interesses empresariais conectados a Israel, e outra mais cética em relação à influência israelense sobre a política externa de Washington.
Ele citou a linguagem utilizada por JD Vance como sinal de que a ala mais crítica a Israel estaria ganhando força. Para Varoufakis, esse grupo teria defendido que uma subordinação excessiva a Netanyahu levaria os Estados Unidos a um beco sem saída.
“Se você está totalmente no bolso de Netanyahu, Netanyahu vai levá-lo a um beco sem saída”, afirmou, ao resumir a posição dessa ala. Segundo ele, Trump teria sido pressionado por sua própria base social, especialmente trabalhadores afetados pelo aumento do preço da gasolina nos Estados Unidos.
Varoufakis argumentou que a sobrevivência política de Trump, inclusive em relação às eleições de meio de mandato, o empurraria a se afastar de setores mais alinhados a Israel, à CIA e a figuras como Marco Rubio. Para ele, o preço dos combustíveis e a insatisfação econômica de eleitores da classe trabalhadora tiveram peso decisivo nesse movimento.
O dinheiro é o ponto mais difícil
Ao avaliar os pontos do memorando, Varoufakis afirmou que a transferência de recursos para contas iranianas será o item mais difícil de implementar. Segundo ele, o Congresso dos Estados Unidos, com apoio de democratas, neoconservadores e republicanos pró-Israel, tende a bloquear qualquer liberação substancial.
O ex-ministro ressaltou que não se trata necessariamente de os Estados Unidos “darem” dinheiro ao Irã, mas de liberar ativos iranianos congelados há décadas. Ainda assim, ele lembrou que Trump atacou duramente Barack Obama em 2015 justamente por permitir que Teerã recuperasse recursos próprios no contexto do acordo nuclear.
“Posso imaginar anúncios de campanha sendo preparados pelos democratas e também pelos adversários republicanos de Trump dentro do próprio partido, expondo-o como uma fraude”, disse Varoufakis.
Para ele, a dificuldade em liberar dinheiro não anula a vitória diplomática iraniana. O simples fato de a devolução de ativos estar inscrita no memorando já daria legitimidade regional e interna ao governo do Irã.
Líbano, Hezbollah e a nova correlação de forças
Varoufakis destacou ainda que o Irã obteve uma vitória diplomática importante ao incluir o Líbano no primeiro item do memorando. Segundo ele, o cessar-fogo, o fim das hostilidades e a retirada de tropas israelenses do sul do Líbano aparecem como parte substancial do acordo.
Para o ex-ministro, isso fortalece o Hezbollah, apresentado por ele como resultado histórico das invasões israelenses ao Líbano. Varoufakis afirmou que o grupo surgiu após a invasão israelense de 1982 e que o Irã se aproveitou da emergência de um movimento de resistência entre a população xiita libanesa.
“Esse aliado, que até um ou dois anos atrás se supunha ter sido eliminado por Israel, está de volta”, afirmou. Segundo ele, o Hezbollah passa a aparecer como garantidor da paz e do fim das hostilidades no Líbano, com respaldo da intervenção iraniana junto aos Estados Unidos.
Países do Golfo enfrentam novo dilema estratégico
Na avaliação de Varoufakis, os países do Golfo saem do episódio com “alívio tingido de pavor existencial”. Eles não desejavam a guerra, mas foram colocados no fogo cruzado por terem apostado sua segurança no guarda-chuva militar americano.
Segundo ele, o memorando não resolve a situação desses países, apenas torna mais evidente a permanência de seus problemas. O Irã, afirmou, sai fortalecido e demonstra capacidade de ameaçar o Estreito de Ormuz, ponto vital para o comércio global de petróleo.
Varoufakis disse ter recebido informação de que cerca de 30 embarcações que cruzaram o Estreito de Ormuz teriam sido cobradas por um custo chamado pelos iranianos de “seguro”, dentro dos limites do memorando. Para ele, os países do Golfo perceberam que essa nova realidade pode se tornar permanente.
O economista também chamou atenção para o custo assimétrico da guerra. Segundo ele, drones e mísseis iranianos são baratos e podem ser produzidos em grande escala, enquanto os sistemas americanos e israelenses usados para abatê-los são muito mais caros e não podem ser fornecidos no mesmo volume.
Arábia Saudita, Emirados e China
Varoufakis rejeitou tratar os países do Golfo como bloco homogêneo. Segundo ele, Qatar e Omã tendem à desescalada com o Irã, enquanto os Emirados Árabes Unidos mantêm postura mais confrontacional e próxima de Israel.
A Arábia Saudita, por sua vez, teria mudado de postura desde 2019, quando ataques atribuídos ao Irã e a seus aliados houthis atingiram instalações petrolíferas sauditas. Desde então, Riad teria buscado algum tipo de acomodação com Teerã, com a China desempenhando papel de intermediária.
“Minha visão é que haverá uma divisão”, disse Varoufakis. Segundo ele, os Emirados devem permanecer mais próximos dos Estados Unidos e de Israel, enquanto Omã, Qatar, Bahrein e Arábia Saudita devem buscar, com ajuda de Pequim, uma reaproximação com o Irã.
Para o ex-ministro, o modelo de negócios do Golfo foi abalado. Não se trata apenas do petróleo, mas também de setores como turismo, finanças e investimentos em tecnologia. Ele citou Dubai, que teria cerca de 30% do PIB ligado ao turismo, como exemplo de vulnerabilidade diante da capacidade iraniana de paralisar fluxos regionais.
Petrodólar e inteligência artificial
Varoufakis também relacionou a crise à sustentação do chamado “império do dólar”. Segundo ele, desde o fim do sistema de Bretton Woods, no início dos anos 1970, a hegemonia americana depende da capacidade dos Estados Unidos de financiar déficits comerciais e orçamentários com recursos reciclados por outros países, inclusive os do Golfo.
Ele afirmou que os Estados do Golfo funcionam, nesse sentido, como vassalos do império do dólar, reciclando seus excedentes financeiros para os mercados americanos. O problema, segundo Varoufakis, é que a guerra interrompeu temporariamente o fluxo previsto de trilhões de dólares desses países para os Estados Unidos.
Varoufakis mencionou acordos estimados em US$ 3,5 trilhões a US$ 3,7 trilhões entre a administração Trump e países do Golfo, incluindo investimentos em inteligência artificial e compras de armamentos. Segundo ele, a guerra no Irã secou esse fluxo no momento em que os mercados americanos dependiam dele para sustentar a bolha da IA.
Nesse contexto, ele interpretou a oferta de uma linha de swap pelo secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, não como ajuda aos países do Golfo, mas como sinal aos mercados financeiros de que Washington estaria disposto a sustentar a liquidez do sistema.
Europa sem estratégia e presa ao atlantismo
Para Varoufakis, a Europa aparece como grande ausente da crise. Ele afirmou que o continente já enfrenta estagnação e crise de custo de vida, e que os acontecimentos no Irã funcionam como dano colateral adicional.
O ex-ministro criticou a dependência europeia em relação aos Estados Unidos. Segundo ele, a Europa trocou a dependência do gás russo barato pela dependência do gás natural liquefeito americano, muito mais caro, extraído por fraturamento hidráulico no Novo México e no Texas.
“Não temos plano energético. Não temos união energética. Não temos resposta europeia para a pergunta: o que vamos fazer?”, afirmou.
Varoufakis disse ainda que a liderança europeia é incapaz de abandonar a mentalidade atlantista, que, em sua avaliação, já não serve nem mesmo a uma perspectiva conservadora de direita. Ele comparou a Europa a “uma galinha que perdeu a cabeça e corre sangrando sem saber o que está acontecendo”.
Ucrânia e a busca de Trump por uma vitória
Na parte final da entrevista, Varoufakis analisou os possíveis impactos da derrota americana no Irã sobre a guerra na Ucrânia. Ele afirmou não fazer previsões, mas levantou a hipótese de Trump, em algum momento, tentar apresentar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia para salvar sua imagem.
Segundo Varoufakis, os Estados Unidos podem continuar conduzindo a guerra, mas não necessariamente pagando por ela. Já a Europa, disse ele, não teria capacidade financeira, militar nem de inteligência para assumir o conflito sozinha.
“O máximo que os europeus podem fazer é comprar armas americanas e enviá-las à Ucrânia”, afirmou. Mas, segundo ele, até isso encontra limites, pois os governos europeus estão ficando sem dinheiro.
Varoufakis avaliou que, se Trump decidir impor uma proposta, poderá dizer aos europeus e aos ucranianos: aceitem ou fiquem sem apoio americano. Isso incluiria, segundo sua hipótese, o desligamento de briefings, dados de inteligência e informações compartilhadas com Kiev.
A guerra como modelo de crescimento europeu
Ao comentar por que França e Alemanha resistiriam a uma negociação com Moscou, Varoufakis apontou dois motivos. O primeiro seria econômico: segundo ele, depois do fracasso do Green Deal como motor de crescimento europeu, a indústria de armamentos tornou-se o único modelo de expansão disponível para Paris e Berlim.
Ele afirmou que governos fragilizados, como os de Emmanuel Macron e Friedrich Merz, precisam justificar a transferência de recursos escassos de áreas sociais para fabricantes de armas. Para isso, disse, precisam manter a percepção de que há uma guerra permanente “no quintal” da Europa.
O segundo motivo seria político. Mesmo que França e Alemanha quisessem propor um acordo de paz, Varoufakis acredita que países bálticos, Finlândia, talvez Polônia e Suécia poderiam bloquear a iniciativa. Segundo ele, esses governos aprenderam a ganhar peso dentro da União Europeia mantendo a tensão entre a Otan e a Rússia.
Ao final, Varoufakis rejeitou a ideia de que o establishment alemão aprenda com a história. Questionado sobre se a Alemanha não deveria tirar lições de seu passado ao adotar o militarismo como modelo de crescimento, ele respondeu: “Você tem alguma evidência de que o establishment alemão aprende com a história? Porque eu não vi nenhuma.”
Foto: Reprodução Youtube
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/yanis-varoufakis-ve-rendicao-diplomatica-dos-eua-ao-ira-e-crise-no-dominio-americano-no-golfo