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250 anos dos Estados Unidos: a nação que moldou o mundo tenta reencontrar sua grandeza

250 anos dos Estados Unidos: a nação que moldou o mundo tenta reencontrar sua grandeza.

247 – Neste 4 de julho, os Estados Unidos celebrarão os 250 anos da Declaração de Independência, aprovada em 1776 na Filadélfia, documento fundador de uma república que nasceu como rebelião contra o Império Britânico e acabou se transformando na maior potência econômica, militar, tecnológica e cultural da era contemporânea. Poucas nações exerceram influência tão profunda sobre a história mundial. Dos ideais iluministas de liberdade e representação política à construção da ordem internacional do pós-guerra, do dólar como moeda global à indústria cultural de Hollywood, da chegada à Lua à revolução digital do Vale do Silício, os Estados Unidos moldaram instituições, mercados, comportamentos, sonhos e conflitos em escala planetária. Mas o aniversário de dois séculos e meio encontra o país em um momento de tensão rara: dividido internamente, descrente de suas instituições, governado por Donald Trump em meio a forte contestação política, assustado com a ascensão da China e obrigado a encarar uma questão incômoda: a América ainda pode restaurar sua grandeza ou o próprio slogan trumpista revela, no fundo, que a era de sua hegemonia incontestável chegou ao fim?

A história americana é, ao mesmo tempo, uma narrativa de glória e contradição. A república que proclamou que todos os homens nascem iguais conviveu por quase um século com a escravidão; o país que se apresentou como farol da liberdade expandiu seu território por guerras, anexações e remoções de povos indígenas; a potência que derrotou o nazismo e ajudou a reconstruir a Europa também apoiou golpes, ditaduras e intervenções militares ao redor do mundo. Ainda assim, sua capacidade de reinvenção foi extraordinária. Depois da Guerra Civil, tornou-se potência industrial. Depois da Grande Depressão, construiu o New Deal. Depois da Segunda Guerra Mundial, assumiu a liderança do Ocidente. Depois da Guerra Fria, viveu o chamado momento unipolar, quando parecia não haver rival capaz de desafiar sua supremacia. A força americana sempre esteve menos na ausência de crises do que na capacidade de atravessá-las e convertê-las em novos ciclos de poder. A dúvida, agora, é se esse mecanismo histórico ainda funciona em uma sociedade fragmentada pela polarização, pelo ressentimento social, pela desigualdade e pela perda de confiança nas instituições.

O fim da União Soviética e a ascensção chinesa

O auge do poder americano ocorreu entre o fim da União Soviética, em 1991, e o início do século XXI. Naquele período, Washington parecia comandar uma ordem sem alternativa. O dólar reinava sem rivais, Wall Street organizava as finanças globais, a OTAN avançava, a internet nascia sob domínio americano, as universidades dos Estados Unidos atraíam os melhores talentos do planeta e empresas como Microsoft, Apple, Google, Amazon e, mais tarde, Meta, Tesla e Nvidia passariam a definir os rumos da economia digital. Foi o tempo em que analistas falaram no “fim da História” e na vitória definitiva da democracia liberal. Mas a arrogância do momento unipolar cobrou seu preço. As guerras no Afeganistão e no Iraque consumiram trilhões de dólares, produziram instabilidade, mancharam a imagem internacional dos Estados Unidos e revelaram os limites do poder militar. Enquanto Washington se atolava em conflitos intermináveis no Oriente Médio, a China acelerava sua transformação econômica, industrial e tecnológica, tornando-se a fábrica do mundo e, depois, uma candidata real à liderança em setores estratégicos do século XXI.

A ascensão chinesa é o maior desafio enfrentado pelos Estados Unidos desde a Guerra Fria, mas sua natureza é distinta. A União Soviética competia sobretudo no plano militar e ideológico; a China disputa infraestrutura, comércio, tecnologia, financiamento, produção industrial, energia limpa, inteligência artificial, veículos elétricos, semicondutores e cadeias globais de valor. Pequim tornou-se o principal parceiro comercial de dezenas de países, ampliou sua influência no Sul Global, fortaleceu os BRICS, projetou investimentos em infraestrutura e passou a disputar a fronteira científica e tecnológica. Para os Estados Unidos, isso representa um choque histórico. Pela primeira vez em muitas décadas, a maior potência do sistema internacional enfrenta um competidor com escala econômica, capacidade produtiva, projeto nacional de longo prazo e ambição geopolítica suficientes para questionar sua primazia. A reação americana combina sanções, tarifas, restrições tecnológicas, contenção militar no Indo-Pacífico e discurso cada vez mais agressivo contra Pequim, mas nenhuma dessas iniciativas conseguiu até agora reverter a tendência estrutural de um mundo mais multipolar.

É nesse contexto que Donald Trump retorna ao centro da política americana como expressão de uma nação ressentida com seu próprio declínio relativo. Seu slogan, “Make America Great Again”, só faz sentido porque admite implicitamente que a grandeza americana se perdeu ou foi ameaçada. Trump fala a uma América branca, industrial, conservadora e interiorana que se sente traída pela globalização, pelo fechamento de fábricas, pela imigração, pelas elites financeiras, pelas guerras externas e pela transformação cultural do país. Sua promessa é restaurar um passado de prosperidade, ordem e supremacia, mas sua prática política aprofunda a divisão nacional. Em vez de reconstruir consensos, ele governa pela confrontação permanente. Em vez de pacificar instituições, tensiona seus limites. Em vez de oferecer uma estratégia sofisticada para um mundo multipolar, aposta em gestos de força, nacionalismo econômico e retórica imperial. O resultado é uma América em disputa consigo mesma, incapaz de formular um projeto comum de futuro justamente no momento em que seu poder relativo é mais contestado desde 1945.

A polarização interna talvez seja hoje o maior obstáculo à restauração de qualquer grandeza americana. Democratas e republicanos já não divergem apenas sobre impostos, política externa ou programas sociais; vivem em ecossistemas informacionais distintos, cultivam medos opostos e enxergam uns aos outros como ameaça existencial. A invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 simbolizou essa ruptura diante do mundo. Desde então, a democracia americana passou a ser observada não apenas como modelo, mas também como advertência. A desigualdade corrói o contrato social, a violência política cresce, a Suprema Corte se transforma em campo de batalha ideológico, o Congresso funciona sob bloqueio permanente e milhões de cidadãos acreditam que o sistema foi capturado por elites hostis aos seus valores. Nenhum império se sustenta apenas com porta-aviões, reservas em dólar e empresas de tecnologia; ele precisa também de legitimidade interna, confiança coletiva e capacidade de produzir um horizonte compartilhado. É exatamente isso que falta aos Estados Unidos neste aniversário de 250 anos.

Apesar disso, seria precipitado decretar o fim da América. O país ainda possui vantagens formidáveis. Suas universidades seguem entre as melhores do mundo, sua capacidade de atrair talentos permanece incomparável, seu mercado financeiro continua sendo o coração do capitalismo global, suas empresas lideram áreas cruciais como inteligência artificial, computação em nuvem, biotecnologia, software avançado e indústria aeroespacial, suas Forças Armadas mantêm presença planetária e o dólar segue como a principal moeda de reserva internacional. A cultura americana continua exercendo influência imensa, da música ao cinema, das plataformas digitais ao imaginário político. A própria história dos Estados Unidos mostra que o país já atravessou crises profundas e encontrou formas de superá-las. A grande questão, portanto, não é saber se os Estados Unidos desaparecerão como potência — isso não está no horizonte imediato —, mas se conseguirão converter seu poder remanescente em liderança legítima num mundo em que já não podem mandar sozinhos.

Grandeza sem dominação unilateral

Restaurar a grandeza americana, 250 anos depois, talvez não signifique retornar à hegemonia absoluta do século XX, mas aceitar que o futuro será compartilhado com outras potências. A América só poderá se reinventar se compreender que grandeza não é sinônimo de dominação unilateral, guerras preventivas, sanções permanentes ou imposição de modelos políticos ao resto do mundo. Grandeza, no século XXI, pode significar reconstruir sua democracia, reduzir desigualdades, recuperar infraestrutura, investir em educação, respeitar a soberania de outros países, competir com a China sem transformar a rivalidade em guerra fria permanente e aceitar que a ordem internacional caminha para um equilíbrio mais plural. Se insistir em restaurar um império que já não cabe na realidade, Washington poderá acelerar seu próprio declínio. Se, ao contrário, aceitar a transição para um mundo multipolar e reencontrar dentro de si uma vocação democrática mais generosa, talvez ainda tenha papel decisivo a desempenhar nos próximos 250 anos.

O quarto de milênio dos Estados Unidos, portanto, não é apenas uma comemoração nacional. É um marco de transição histórica. A nação que nasceu prometendo liberdade e autogoverno, que se expandiu como potência continental, que liderou o Ocidente e que moldou a globalização chega a 2026 diante de um espelho incômodo. Nele aparecem, ao mesmo tempo, as glórias do passado e as fraturas do presente: Jefferson e Lincoln, Roosevelt e Martin Luther King, Hiroshima e Vietnã, Hollywood e Wall Street, a Lua e o Iraque, o Vale do Silício e o Capitólio invadido, o sonho americano e os cinturões industriais abandonados. A pergunta que fica, 250 anos depois, não é apenas se será possível “fazer a América grande novamente”, mas que tipo de grandeza ainda é possível para um país que já não consegue dominar sozinho o destino do mundo e que talvez precise, pela primeira vez em sua história moderna, aprender a liderar sem mandar.

FOTO: Brasil 247 / Dall-E

FONTE: https://www.brasil247.com/historia/250-anos-dos-estados-unidos-a-nacao-que-moldou-o-mundo-tenta-reencontrar-sua-grandeza/