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A aposta econômica da OCS: a Eurásia pode transformar comércio em crescimento compartilhado?

Entre recordes de trocas comerciais e divergências regulatórias, o bloco eurasiano tenta converter o avanço nos fluxos financeiros em integração produtiva de longo prazo.

Durante grande parte de sua história, a Organização para Cooperação de Xangai (OCS) foi definida pela segurança. No entanto, 25 anos após sua fundação, sua agenda econômica está se tornando cada vez mais difícil de ser tratada como secundária.

Em 2025, o comércio da China com outros Estados-membros da OCS atingiu US$ 523,5 bilhões, ante US$ 12,1 bilhões em 2001, de acordo com o Ministério do Comércio da China. A cifra representou cerca de 8% do comércio exterior total do país. O investimento direto chinês em outros membros do bloco alcançou US$ 3,3 bilhões, com mais de 30 zonas de cooperação econômica e comercial construídas nos países da OCS.

Os números são expressivos. Mas não representam, por si só, uma integração regional.

A questão central é se a OCS pode transformar esse volume crescente de comércio e investimentos em uma rede econômica regional capaz de criar capacidade produtiva, e não apenas mero fluxo comercial.

Do comércio à produção

A relação já caminha nessa direção.

O comércio da China com os parceiros da OCS abrange desde produtos energéticos e agrícolas até veículos elétricos, baterias de íons de lítio, produtos fotovoltaicos e comércio eletrônico transfronteiriço. Os investimentos do país cobrem os setores de energia, mineração, infraestrutura, novas energias, automotivo e químico, segundo dados do Ministério do Comércio chinês.

A importância reside menos no valor bruto dos investimentos do que no seu potencial de transbordamento: fábricas podem criar fornecedores locais e empregos, enquanto parques industriais podem conectar produtores domésticos a mercados mais amplos.

Contudo, grande parte da cooperação econômica prática da OCS ainda é impulsionada por países individuais e projetos bilaterais, muito embora a organização tenha desenvolvido mecanismos multilaterais que cobrem comércio, investimento, finanças, transporte, energia, indústria e padronização.

Isso reflete a própria diversidade do grupo.

A China aporta capacidade industrial e um mercado consumidor gigantesco. A Rússia é uma grande exportadora de energia. As economias da Ásia Central buscam investimentos, infraestrutura e rotas diversificadas de escoamento. A Índia tem enfatizado a diversificação das exportações, redes de suprimento resilientes e um sistema multilateral de comércio aberto focado na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Esses interesses se sobrepõem, mas nem sempre coincidem. A complementariedade gera oportunidades, mas não garante consenso de forma automática.

A conectividade precisa entregar mais

Para a Eurásia, a integração econômica depende fundamentalmente da eficiência com que mercadorias, energia e capital conseguem cruzar as fronteiras.

A ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão é um exemplo dos esforços para expandir as conexões de transporte na Ásia Central. A rede logística ampla também está em expansão. O Ministério do Comércio da China informou que o serviço ferroviário de carga China-Europa operou 13.000 trens nos primeiros sete meses de 2026, um avanço de 17,6% em relação ao ano anterior.

No entanto, uma ferrovia pode encurtar distâncias sem necessariamente eliminar procedimentos alfandegários, divergências técnicas ou barreiras regulatórias.

É por isso que o trabalho institucional da OCS se faz necessário.

Em 2025, a organização estabeleceu seu primeiro mecanismo de cooperação para normatização, fornecendo uma estrutura institucional para a harmonização entre os Estados-membros. A iniciativa abrange áreas como inteligência artificial e a chamada economia de baixa altitude, visando facilitar o alinhamento de padrões técnicas.

O bloco também atua na cooperação aduaneira. Em julho de 2025, seu grupo de trabalho sobre alfândegas discutiu a certificação eletrônica de origem de mercadorias e a adoção de sistemas de “Janela Única” (Single Window).

Para as empresas, esses pontos não são meros detalhes técnicos. Padrões divergentes e burocracia aduaneira podem gerar custos adicionais mesmo quando a infraestrutura física já está consolidada.

Se a infraestrutura representa o hardware da integração regional, as normas e regras constituem o seu software.

O financiamento é o teste mais complexo

A área financeira pode evidenciar os limites institucionais da OCS com maior clareza.

Na cúpula de Tianjin, em 2025, os Estados-membros interessados decidiram criar o Banco de Desenvolvimento da OCS e intensificar as consultas sobre o seu funcionamento. No entanto, a instituição ainda não entrou em operação.

Em junho de 2026, representantes dos Estados-membros, países observadores e do Secretariado da OCS realizaram a quarta rodada de negociações em Shenzhen para discutir as diretrizes centrais do banco e os passos seguintes.

Essa etapa é fundamental porque um banco regional de desenvolvimento exige mais do que consenso político. Os governos precisam definir, em última análise, como a instituição operará, como será capitalizada e de que forma os riscos serão geridos.

A mesma tensão permeia a agenda econômica mais ampla: o alinhamento político pode abrir portas, mas são as instituições que determinam se os projetos conseguirão atravessá-las.

Um modelo distinto de integração

Dificilmente a OCS seguirá os moldes da União Europeia (UE).

A UE construiu um mercado único amparado por instituições supranacionais profundas. Já a União Econômica Euroasiática buscou a integração via união aduaneira e mercado comum entre um grupo mais restrito de países.

A OCS optou por um modelo mais flexível, estruturado na cooperação multissetorial, mas preservando as prioridades econômicas nacionais. Sua arquitetura econômica atual inclui mecanismos formais para comércio, investimentos, finanças, transportes, energia, manufatura e padronização.

Essa flexibilidade atua tanto como força quanto como limitação.

Os Estados-membros podem cooperar onde há convergência sem a necessidade de concordar em todos os pontos. Por outro lado, o avanço pode ser desproporcional: investimentos bilaterais podem se aprofundar enquanto a regulamentação para todo o bloco avança em ritmo mais lento.

Portanto, a questão não é se a OCS pode se transformar em uma nova UE, mas se seu modelo flexível é capaz de gerar resultados práticos suficientes para causar impacto em escala regional.

O que significa “crescimento compartilhado”? Um volume maior de comércio não se traduz, necessariamente, em crescimento compartilhado.

Para as economias da Ásia Central, laços mais profundos com a OCS podem significar novas rotas de exportação, atração de capital e oportunidades industriais. Para a China, representam mercados e cadeias de suprimento mais diversificados. Para a Rússia, abrem canais adicionais de comércio e investimento.

Entretanto, esses diferentes interesses também podem gerar assimetrias.

Dessa forma, a métrica real de sucesso precisa ser mais exigente do que o mero saldo comercial:

  • As indústrias locais estão se tornando mais competitivas?
  • Novos fornecedores regionais estão sendo formados?
  • Os projetos de infraestrutura estão gerando empregos e investimentos locais?
  • A tecnologia e a qualificação profissional estão chegando às economias receptoras?

Em outras palavras, a pergunta central não é apenas qual o volume de mercadorias que cruza as fronteiras, mas sim qual capacidade produtiva permanece nos países após essa circulação.

A etapa mais complexa começa agora

A OCS construiu uma base econômica significativa; o desafio atual é otimizar seu funcionamento.

A facilitação do comércio exige coordenação regulatória. A normatização demanda maior alinhamento técnico. A infraestrutura transfronteiriça precisa de fluxo de carga comercialmente viável e financiamento sustentável. Um banco de desenvolvimento requer consenso sobre suas regras operacionais e arranjos financeiros.

Nenhum desses fatores inviabiliza uma cooperação mais profunda, mas torna a dinâmica econômica consideravelmente mais complexa do que sugerem os dados brutos do comércio exterior.

A OCS não precisa se transformar em um mercado único para ter relevância econômica. O caminho mais provável é a consolidação de uma rede de economias complementares — conectando recursos à manufatura, infraestrutura aos mercados e investimentos ao desenvolvimento local.

O sucesso econômico do bloco deve, ao fim, ser medido por um critério simples: se essa cooperação torna seus membros mais produtivos, mais conectados e mais resilientes — juntos.

Essa é a verdadeira aposta econômica.

FOTO: VCG via Global Times

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-aposta-economica-da-ocs-a-eurasia-pode-transformar-comercio-em-crescimento-compartilhado/