Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

A OPEP virou figurante

Vinte e um países precisam concordar para mover o preço do barril. A China move sozinha, com uma ordem só, e não produz quase nada.

Aconteceu uma coisa nos últimos meses que muda o tabuleiro da energia mundial, e ela passou quase sem comentário por aqui.

O preço do petróleo deixou de ser votado.

Durante quarenta anos, quem mandava no barril era um cartel de produtores. A OPEP e seus aliados sentavam, discutiam cota, brigavam, e saíam de lá com um número. Vinte e um países precisando concordar. É lento, é político, e às vezes não sai acordo nenhum, ainda mais agora, com os Emirados Árabes tendo saído do grupo e os sócios do Golfo já operando no limite da capacidade.

Aí veio a guerra do Irã, o Estreito de Ormuz fechou, e o mundo ficou esperando o barril ir a 150 dólares.

Não foi.

Quem segurou o preço foi quem compra, não quem vende

A Economist publicou no fim de semana passado um levantamento sobre isso, e o número central é impressionante. Entre fevereiro e junho, a China cortou pela metade a importação de petróleo bruto. Cinco milhões e meio de barris por dia a menos. Os analistas ouvidos pela revista calculam que isso sozinho tirou trinta dólares ou mais do Brent.

Para você ter noção do tamanho: é mais da metade da queda que o mundo inteiro teve na pandemia, quando a demanda global despencou nove milhões de barris por dia.



Só que na pandemia o mundo estava em recessão. Aqui não. O PIB chinês cresceu 4,3% no segundo trimestre. A China não parou de comprar petróleo porque a economia dela travou. Ela parou porque decidiu parar.

E é aí que a coisa fica interessante para quem estuda desenvolvimento.

A teoria dizia que isso era impossível

Tem uma coisa que se aprende em qualquer curso de economia da energia: produtor consegue cartelizar, comprador não consegue. O vendedor é concentrado, então dá para combinar cota. O comprador é pulverizado em milhões de motoristas, caminhoneiros, fábricas e companhias aéreas, e ninguém coordena isso. Demanda não se liga e desliga por decreto.

Pois é. A China ligou e desligou.

Ela puxou três alavancas ao mesmo tempo.

Primeiro, o estoque: tinha comprado barato quando o mercado estava sobrando, sentou em cima de uma reserva enorme e simplesmente parou de repor. E olha o detalhe que quase ninguém nota: a reserva estratégica, aquela que existe para o caso de guerra, quase não foi tocada. O que a China consumiu foi o estoque comercial. Ela apertou o cinto com a poupança ainda intacta.



Segundo, a exportação: em março o governo mandou as refinarias pararem de assinar contrato novo de venda para fora, e a exportação de derivados caiu quase pela metade, o que liberou combustível para o consumo interno.

E repara no que isso custou. Vender lá fora estava rendendo muito mais do que vender dentro da China, e mesmo assim as refinarias foram obrigadas a abastecer o mercado interno. A margem de exportação disparou enquanto a margem doméstica de refino virou negativa, quer dizer, elas passaram a perder dinheiro em cada barril processado para consumo interno.

Nenhuma empresa privada faz isso. Empresa privada, nessa situação, exporta, e está certa em exportar. Estatal com missão de Estado abastece o mercado interno no vermelho, e o Partido engole a conta.


 


Terceiro, a demanda: deixou o preço subir na bomba e a cidade se virou.

E a cidade se virou porque tinha como.

O detalhe que ninguém comenta

Repara no que a China usou para aguentar quatro meses de aperto sem quebrar.

Metrô. Trem. Bicicleta. Táxi elétrico. Segundo a Economist, no feriado de maio a recarga de carro elétrico nas estradas subiu quase 55% em relação ao ano anterior, e o consumo de gasolina caiu 14% em junho, com diesel e querosene caindo 21% cada. As pessoas não pararam de se locomover. Elas se locomoveram de outro jeito, porque o outro jeito existia.

Aqui está o ponto que eu faço, e é o ponto de sempre.

Nada disso foi construído para segurar preço de petróleo em guerra. Foi construído ao longo de quinze anos como política industrial e como política energética, com dinheiro público, com meta, com empresa estatal, e sob críticas constantes de que era subsídio irracional, que era sobrecapacidade, que era o Estado torrando recurso em setor que o mercado resolveria melhor.

O nome que deram para isso no Ocidente foi involução. Excesso de fábrica, excesso de painel solar, excesso de bateria, excesso de trem. Desperdício.

Esse desperdício virou o colchão que segurou o preço do petróleo do planeta inteiro numa guerra.

O que isso ensina sobre poder

Política industrial produz capacidade, e capacidade tem um comportamento que planilha de retorno não captura: ela serve para coisas que ninguém previu quando o projeto foi aprovado.

Ninguém aprovou linha de metrô em Xangai dizendo que aquilo era instrumento de política externa. Ninguém defendeu subsídio a carro elétrico argumentando que ele daria à China poder de barganha sobre o Golfo Pérsico. E no entanto foi exatamente isso que aconteceu, porque quem tem alternativa tem escolha, e quem tem escolha tem poder.

É a mecânica do desenvolvimento operando, e ela vale para todo mundo.

Compara com a nossa posição.

O Brasil é grande produtor de petróleo, exporta cru e importa derivado. Tem a jazida e não tem o parque. Tem o recurso e não tem a capacidade de decidir nada com ele. Quando o preço internacional sobe, a gente não ganha poder de barganha, a gente ganha uma discussão sobre política de preço da Petrobras.

Ter a coisa embaixo do chão não é poder. Poder é ter como girar a torneira e sobreviver com ela fechada.

O que sobra disso

Um cartel de vinte e um países produtores acabou de ser desbancado, no meio de uma guerra, por um país que quase não produz petróleo. E foi desbancado não por descoberta geológica, não por tecnologia de perfuração, não por sorte. Foi por planejamento acumulado e por capacidade de executar decisão sem pedir licença a ninguém.

O cartel precisa de reunião. A China precisa de uma ordem.

E a lição para o Brasil não passa por copiar o regime político deles, que é outra conversa. Passa por entender o que eles acumularam: margem de manobra. Um país que só tem uma opção não decide nada. Ele só descobre, todo mês, o que decidiram por ele.

Por Paulo Gala

Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10.000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3.000.000.000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

FONTE: https://paulogala.substack.com/p/a-opep-virou-figurante?r=2j6s12&utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web