IBC-Br recua 0,64% em junho, pior que o esperado, e fecha um segundo trimestre de crescimento próximo de zero. A indústria é o elo mais fraco — e, no acumulado da década, praticamente não saiu do lugar.
O Banco Central divulgou nesta segunda-feira o IBC-Br de junho, e o número foi ruim: queda de 0,64% na série com ajuste sazonal, bem abaixo da mediana do mercado, que projetava recuo de 0,5%. Em maio, o índice havia praticamente estagnado, com alta revisada de apenas 0,03%. Vale lembrar o que é o IBC-Br: uma proxy mensal de atividade econômica calculada pelo BC, a melhor aproximação que temos do PIB antes de o IBGE fechar as contas trimestrais.
O ponto mais relevante não é o mês isolado, mas o trimestre. No trimestre móvel encerrado em junho, a atividade avançou apenas 0,2% sobre os três meses anteriores — o pior resultado desde o terceiro trimestre de 2025 e uma desaceleração brutal em relação ao trimestre anterior, que havia crescido 1,3%. Como os dados fechados de junho já estão todos na mesa, temos praticamente o panorama completo: o PIB do segundo trimestre deve vir na casa de 0,2% a 0,3%. Por essa leitura, a economia está quase parando.
Indústria mergulhando, varejo em queda, serviços segurando
A abertura setorial do próprio IBC-Br mostra onde está o problema. A agropecuária foi o único destaque positivo, com alta de 0,96% no mês. A indústria recuou 1,35%, os serviços caíram 0,52% e os impostos, 1,04%. Excluindo o agro, o índice cai 0,91% — ou seja, sem a safra, o quadro é ainda pior.
A Pesquisa Industrial Mensal do IBGE conta a mesma história com mais força: a produção industrial caiu 1,8% em junho, segunda queda consecutiva depois de um recuo de 0,9% em maio. Em dois meses, a indústria perdeu 2,7% e devolveu boa parte do ganho de 4,4% acumulado nos quatro primeiros meses do ano. E há um detalhe que diz muito sobre expectativas: no primeiro semestre, bens de capital — a máquina que a empresa compra quando acredita no futuro — recuaram 5,4%, a única categoria negativa do período.
No comércio, o varejo ampliado vem de quatro meses seguidos de queda, com recuo de 1% na última leitura, puxado justamente por veículos e material de construção, os dois segmentos mais sensíveis ao crédito e aos juros altos. O varejo restrito avançou 0,5% em junho, o que é uma boa notícia isolada, mas não muda o desenho. E os serviços ficaram basicamente no zero a zero. É isso, na prática, que está segurando o PIB: serviços representam cerca de 70% do produto e metade do que a PMS mede — quando eles param, o resto não tem para onde correr.
O mercado já olha para os juros
Diante disso, o Focus já trabalha com a possibilidade de corte de juros, com a projeção de crescimento para 2026 rodando perto de 1,98%. A atividade realmente está enfraquecendo, e essa é a leitura que o Copom terá na mão.
Cabe aqui uma ressalva metodológica que raramente aparece nas manchetes: medir a atividade econômica em tempo real é difícil. Só conseguimos ver o que aconteceu muito tempo depois de ter acontecido, com revisões pelo caminho. É honestamente difícil afirmar, hoje, se a economia está se expandindo ou contraindo. Mas os últimos dados são consistentemente ruins e reforçam a ideia de que a atividade está mais fraca do que se supunha.
O problema estrutural por trás do dado conjuntural
Há uma camada mais profunda nesses números, e ela não tem nada a ver com o mês de junho. Se olharmos o acumulado desde 2020, a divergência entre setores é escandalosa: os serviços acumulam alta de cerca de 20%, o varejo restrito, 11,8%, o varejo ampliado, 5,5% — e a indústria, apenas 1,8%. Em cinco, seis anos, a produção industrial brasileira praticamente não avançou.
É o mesmo diagnóstico de sempre, aparecendo agora com roupa de dado conjuntural: uma economia que cresce pela via do consumo e dos serviços de baixa complexidade, enquanto a base produtiva capaz de acumular capacidades tecnológicas fica estacionada. A desaceleração atinge os setores de maneira muito diferente, e a indústria entra nesse aperto de juros já vindo de um ponto de partida deprimido — sem ter recuperado o terreno perdido no ciclo anterior.
Não é preciso falar das notícias de recuperação judicial que se multiplicam no noticiário corporativo. O fato é que os indicadores macro de atividade estão piorando, e o quadro de desaceleração é bastante claro.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-economia-brasileira-esta-desacelerando/