Christopher Clayton, Matteo Maggiori e Jesse Schreger publicaram na edição de junho da Finance & Development um texto que sintetiza uma agenda de pesquisa que vem ganhando corpo nos últimos anos e que merece atenção de quem pensa desenvolvimento no Brasil. O tema é a geoeconomia, isto é, o uso de relações comerciais e financeiras para alcançar objetivos geopolíticos. Nada de novo sob o sol, dizem os autores: os Medici moldaram a política do Renascimento com poder financeiro e o império britânico amarrou suas colônias pelo comércio. O que mudou é que os economistas voltaram a se interessar pelo assunto depois de décadas de desinteresse, e trazem para ele instrumentos que antes não existiam — análise de redes, teoria dos jogos, modelos macro e de comércio com estrutura de insumo-produto.
Vale lembrar a genealogia. O marco fundador é Albert Hirschman, que em 1945 publicou National Power and the Structure of Foreign Trade, estudando como a Alemanha nazista desenhou deliberadamente suas relações comerciais para maximizar poder sobre os vizinhos nos anos 1930. A tese de Hirschman é simples e devastadora: o comércio pode ser voluntário, mutuamente vantajoso e, ainda assim, profundamente assimétrico. E é da assimetria que nasce o poder. Curiosamente, quase todo estudante de economia aprende o índice Herfindahl-Hirschman como medida de concentração de mercado sem saber que ele foi criado para medir o poder econômico de nações, não de empresas. O mundo do pós-guerra parecia ter tornado essas preocupações obsoletas. Não tornou.
O mecanismo básico descrito pelos autores é direto. Se o país A fornece insumos essenciais ao país B, pode ameaçar cortá-los caso B não faça o que A quer. Se o insumo for importante o bastante e difícil de substituir, B cede. A ameaça fica muito mais poderosa quando o país que a faz controla vários canais ao mesmo tempo — bens intermediários, capital, tecnologia, pagamentos. É isso que caracteriza um hegemon: não um insumo, mas um feixe deles. Os autores usam a Nova Rota da Seda como ilustração. Pequim oferece pacotes que combinam empréstimo, infraestrutura e acesso a bens manufaturados; quem der calote arrisca perder tudo de uma vez. O empacotamento é a fonte do poder, e a moeda de troca costuma ser concessão política.
Mas o ponto mais interessante do artigo, e o que me parece mais relevante para países como o Brasil, é o que os autores chamam de não linearidade do poder. A relação entre participação de mercado e capacidade de coerção não é proporcional. A diferença entre controlar 95% e 85% de um insumo é desproporcionalmente grande: com 95%, o alvo praticamente não tem alternativa e aceita o que for imposto; com 85%, ele já tem opções reais e a alavancagem do hegemon evapora rapidamente. A consequência prática disso é que os formuladores de política americanos se enganam quando se tranquilizam com o fato de que as alternativas chinesas ao sistema financeiro ocidental ainda são marginais. Confundem relevância macroeconômica com relevância geoeconômica. Para uma economia de porte médio, um fornecedor alternativo com 10% de participação já basta para resistir a boa parte da coerção. A maior perda de poder americano vem justamente do trecho em que a alternativa chinesa sai de 1% para 10%; daí em diante, cada ponto adicional dilui cada vez menos.
A experiência russa confirma o argumento. Depois da anexação da Crimeia em 2014, a Rússia passou a desenvolver seu sistema doméstico de pagamentos e a se conectar a sistemas chineses. Quando vieram as sanções financeiras abrangentes de 2022, o efeito foi mais modesto do que se esperava: o país já havia construído alternativa suficiente para embotar a arma. China e Índia seguem o mesmo caminho, e mesmo a zona do euro avança com sua moeda digital pensando em soberania monetária. A pergunta não é se algum desses sistemas vai substituir o dólar em todos os seus usos — não vai. É se serão viáveis o bastante para reduzir a influência americana na margem. E serão.
Aqui aparece o trade-off central, e ele fala diretamente à teoria da complexidade econômica. Os mesmos mecanismos que fundamentam os ganhos de comércio — economias de escala e especialização — são os que geram dependência. As alternativas domésticas que os países deixaram de construir são substitutos ruins para insumos globalmente dominantes, seja a manufatura chinesa, sejam os serviços financeiros e a tecnologia americanos. Não existe almoço grátis: quem se especializa fica exposto, quem se protege abre mão de eficiência. E como a economia global depende cada vez mais de bens e serviços com forte complementaridade estratégica e escala — pagamentos, tecnologia da informação, inteligência artificial —, a tendência é que o problema se agrave.
O risco coletivo é o que os autores chamam de fragmentação excessiva. Cada país que reduz sua dependência do sistema global torna o sistema menos atraente para os demais, porque o valor de uma rede depende do número e do tamanho de seus participantes. Isso desloca o cálculo dos outros em favor do desacoplamento, o que provoca novas saídas. Políticas individualmente racionais produzem um resultado agregado em que todos perdem, inclusive o hegemon.
Daí decorre a conclusão mais elegante do texto. Uma potência hegemônica pode aumentar seu próprio bem-estar ao se comprometer de forma crível a limitar o uso da coerção. Ao se submeter às regras de organizações internacionais, ela abre mão de flexibilidade, mas preserva o tamanho e a atratividade de sua rede econômica — que é a verdadeira fonte de seu poder. Nessa leitura, a ordem liberal do pós-guerra, com FMI, Banco Mundial e OMC, não é o oposto do poder hegemônico e sim uma de suas expressões mais sofisticadas: um mecanismo de compromisso. Quando essas amarras se afrouxam e o hegemon passa a exercer poder de forma imprevisível, os outros países racionalmente aceleram sua saída da rede. É exatamente o que estamos assistindo.
Os autores também discutem o problema de medição, que é elegante à sua maneira: as ameaças geoeconômicas mais poderosas nunca se materializam, porque o alvo cede antes. Como medir o que não aconteceu? A solução que propõem é usar modelos de linguagem para ler earnings calls e relatórios de analistas, onde executivos e analistas discutem pressões que foram ameaçadas mas ainda não executadas. Os resultados que reportam são expressivos: empresas chinesas responderam aos controles de exportação de semicondutores aumentando P&D doméstico, empresas ocidentais em geral relataram cumprir as exigências americanas de reduzir vendas de tecnologias específicas à China, e empresas americanas relatam ser prejudicadas pelas tarifas e pretendem repassar preços.
A lição de política econômica é a que mais interessa por aqui. Para países que não são hegemons, a recomendação não é desacoplamento generalizado, que seria caríssimo, mas diversificação seletiva. O desafio é identificar os verdadeiros pontos de estrangulamento — os setores em que a dependência é maior e as alternativas mais escassas — e concentrar ali o esforço, preservando os benefícios da integração no resto. Dada a não linearidade, não é preciso construir autossuficiência: basta chegar àquele patamar em que a alternativa deixa de ser desprezível. Sair de 1% para 10% num setor crítico vale mais do que muita substituição de importações espalhada por toda a estrutura produtiva. Pensar isso com seriedade, mapeando onde estão nossos gargalos reais em pagamentos, semicondutores, fertilizantes, farmoquímicos e software, é uma agenda de política industrial muito mais inteligente do que a alternativa de proteger tudo ou não proteger nada.
O artigo termina com uma nota que é ao mesmo tempo realista e otimista. O mundo dificilmente voltará à globalização anterior à rivalidade entre Estados Unidos e China. Mas fragmentação total não é destino. Países que entenderem a não linearidade do poder e a lógica da diversificação focada navegarão melhor este período, e hegemons que praticarem autocontenção preservarão mais poder do que os que abusarem dele. É um equilíbrio difícil, mas a alternativa — uma economia global fraturada em que todos ficam mais pobres e menos seguros — torna o esforço valioso.
Referência: Christopher Clayton, Matteo Maggiori e Jesse Schreger, “Understanding Geoeconomics in a Volatile World”, Finance & Development, FMI, junho de 2026.
FONTE: https://www.paulogala.com.br/a-economia-redescobre-a-geopolitica/