Controle estatal sobre bancos, energia e infraestrutura ajudou Pequim a construir uma potência industrial e tecnológica sem precedentes; a questão é se essa força desembocará numa nova hegemonia ou numa ordem mundial menos concentrada em um único centro de poder.
A China saiu de quarto país mais pobre do mundo a um projeto de ecocivilização tecnológica. A antiga fábrica do Norte Global hoje produz para si mesma e ameaça a hegemonia ocidental.
Em 1931, James Truslow Adams cunhou o termo “sonho americano”, um “sonho de uma terra em que a vida deveria ser melhor, mais plena e mais rica para todos, com oportunidades para cada um de acordo com sua capacidade ou suas conquistas”. Quase um século depois, esse sonho se desvaneceu para a maioria dos cidadãos estadunidenses.
Uma classe trabalhadora empobrecida e uma classe média em declínio, guerras intermináveis e uma profunda divisão política caracterizam a terra das oportunidades que um dia foram ilimitadas.
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Outros países ocidentais também foram arrastados pelo turbilhão do declínio: Reino Unido, Itália, França e agora também a Alemanha são marcados por uma desindustrialização cada vez maior e um ressentimento político crescente entre amplos setores da população. Enquanto isso, um país que há apenas 50 anos estava entre as quatro nações mais pobres do planeta experimentou uma ascensão espetacular: a China.
Desde a década de 2010, o presidente Xi Jinping vem falando do “sonho chinês”, numa apropriação descarada do mito estadunidense.
No Ocidente, abundam os temores diante de uma China cada vez mais poderosa. A União Europeia classificou o país como “rival sistêmico”, enquanto os Estados Unidos há muito tentam reorientar sua estratégia para a Ásia a fim de conter a ascensão da China, considerada o principal desafio à hegemonia estadunidense.
Superar a pobreza em massa
Do ponto de vista econômico, a evolução dos últimos 40 anos não é apenas impressionante, mas sem precedentes na história da humanidade em termos de escala e velocidade. A China é agora responsável por cerca de um terço da produção industrial mundial. Fabrica mais produtos do que todos os países do G7 juntos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá).
Segundo o Banco Mundial, 800 milhões de pessoas saíram da pobreza absoluta e alcançaram agora um nível modesto de prosperidade: o programa de redução da pobreza mais bem-sucedido da história. A maioria dessas pessoas vive agora nas cidades. Quem viajar hoje pelo país, que um dia foi predominantemente agrícola, ficará impressionado com o número e a magnitude das cidades repletas de arranha-céus que surgiram como cogumelos por toda parte nas últimas décadas.
Ao viajar pela China em trens de alta velocidade — a uma velocidade constante de 350 quilômetros por hora —, mal passam alguns minutos sem que se vislumbrem os contornos de novas cidades de concreto.
Zhengzhou, que um dia foi uma modesta capital provincial com algumas centenas de milhares de habitantes, conta agora com 12 milhões de residentes — aproximadamente o tamanho da região metropolitana de Los Angeles. Uma rede de vias expressas urbanas e estradas de dez faixas serpenteia por distritos de arranha-céus que parecem não ter fim.
Foi aqui, nas fábricas do gigante da eletrônica Foxconn, que era fabricada grande parte dos smartphones da Apple, razão pela qual a cidade é popularmente conhecida como a “Cidade do iPhone”.
Desde então, a Foxconn transferiu parte de sua capacidade de produção para outras instalações. Em seu lugar, a fabricante de automóveis BYD está construindo a maior fábrica de carros do mundo, que ocupa uma área equivalente à de São Francisco. Nela caberiam dez vezes a megafábrica da Tesla no Texas.
Aqui, sai um veículo novo da linha de montagem a cada quatro segundos; dentro de alguns anos, está previsto que saia um carro da fábrica a cada segundo.
Todos os veículos fabricados em Zhengzhou são elétricos. Os modelos mais econômicos podem ser adquiridos na China por cerca de 11 mil dólares e são notavelmente superiores aos modelos ocidentais comparáveis, que custam entre três e quatro vezes mais. Uma carga completa de uma bateria BYD leva agora menos de dez minutos, contra a meia hora que um Volkswagen demora, na melhor das hipóteses.
A indústria automobilística alemã, que há muito tempo não conseguiu acompanhar o ritmo da tendência rumo à mobilidade elétrica, ficou muito para trás e atualmente mergulha em uma profunda crise, com demissões em massa. A União Europeia e os Estados Unidos responderam com tarifas para proteger seus mercados nacionais. Mas isso significa que os carros elétricos continuam excessivamente caros dos dois lados do Atlântico. A inevitável modernização da mobilidade é ainda mais atrasada, e o Ocidente fica cada vez mais para trás.
O árduo caminho da China rumo à modernidade
A ascensão explosiva da China tem uma história longa e acidentada, que começou com um declínio catastrófico. Até os séculos 17 e 18, o Império Chinês era superior à Europa em muitos aspectos. A China mal precisava de produtos do Ocidente; produzia quase tudo por conta própria e com qualidade superior: têxteis, vidro, cerâmica, navios e infraestruturas como os famosos canais de irrigação.
Consequentemente, a balança comercial do Ocidente com a China foi negativa durante séculos — como é novamente hoje. No entanto, os imperadores da dinastia Qing e seu Estado burocrático perderam a oportunidade da industrialização que estava se originando na Europa.
Quando a Grã-Bretanha invadiu a China na Primeira Guerra do Ópio, em 1839, com suas canhoneiras movidas a carvão, o governo de Pequim tinha pouco com que enfrentar os europeus. As consequências dessa invasão e das posteriores mergulharam o país no caos. Obrigada pelos chamados “tratados desiguais” a abrir-se às empresas comerciais ocidentais, aos missionários e às drogas, a China afundou cada vez mais nas guerras civis e na criminalidade.
Infelizmente, na escola aprendemos pouco ou nada sobre esse capítulo da história. Para os chineses, o período compreendido entre a Primeira Guerra do Ópio e a fundação da República Popular, em 1949, está profundamente gravado na memória coletiva como o “Século da Humilhação”.
“Nunca mais”, diz o lema atual, “a China deve se render diante de potências estrangeiras”. Ela deve ser suficientemente forte, tanto econômica quanto militarmente, para resistir a novas invasões. O ressurgimento da China como potência mundial é, portanto, considerado também uma espécie de seguro de vida.
A fundação da República Popular pôs fim às guerras civis, ao saque econômico e à ingerência de Estados estrangeiros. No entanto, o caminho rumo à modernidade foi longo.
Em 1955, Mao proclamou o “Grande Salto Adiante”: por meio da descentralização da produção de ferro, o objetivo era superar a Grã-Bretanha na produção de metais em poucos anos. O resultado, porém, foi um desastre: não apenas o ferro era em grande parte inutilizável, como os camponeses também haviam negligenciado suas plantações durante um período de seca, o que provocou uma fome devastadora.
Em 1963, o primeiro-ministro Zhou Enlai anunciou as “quatro modernizações” na agricultura, na indústria, na defesa e na ciência. Mas a “Revolução Cultural” (1966-1976), posta em marcha por Mao e sua esposa, Jiang Qing, mergulhou novamente o país no caos e o fez retroceder economicamente.
Socialismo com características chinesas
Foi somente quando Deng Xiaoping chegou ao poder, em 1978, que teve início uma política de reforma e abertura de grande alcance, que impulsionaria o país rumo a uma nova era.
Para isso, Deng introduziu o conceito de “socialismo com características chinesas”, que continua sendo fundamental para as estratégias centrais do país até os dias de hoje. Embora todas as terras continuassem sendo propriedade do Estado, a agricultura foi parcialmente privatizada: cada família de agricultores passou a ser responsável por seus próprios lucros e perdas, o que impulsionou significativamente a produtividade.
Ao mesmo tempo, foram criadas as chamadas “zonas econômicas especiais” para atrair investimento estrangeiro direto. Uma delas foi a vila pesqueira de Shenzhen, perto de Hong Kong. Hoje, a cidade tem uma população de 17 milhões de habitantes e é considerada o novo Vale do Silício, que em breve poderá superar seu equivalente californiano.
As reformas de Deng abriram uma caixa de Pandora. Por meio da privatização das empresas estatais, aqueles que tinham bons amigos no governo tornaram-se milionários da noite para o dia, e alguns até bilionários.
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Enquanto isso, os trabalhadores se esforçavam até 16 horas por dia nas zonas econômicas especiais em troca de uma miséria, fabricando calçados, roupas e produtos eletrônicos — em sua maioria para corporações ocidentais como Nike ou Apple, que, desse modo, puderam multiplicar suas margens de lucro.
Embora o Produto Interno Bruto per capita tenha se multiplicado por 48 nas décadas seguintes, a distância entre ricos e pobres também aumentou drasticamente. O “socialismo com características chinesas” assemelhava-se cada vez mais a um capitalismo com verniz socialista. O movimento de protesto liderado por estudantes em 1989, que foi brutalmente reprimido, dirigia-se, entre outras coisas, contra os excessos negativos dessa política.
As condições de trabalho desumanas continuavam generalizadas na década de 2000. A fabricante de iPhones Foxconn, por exemplo — cuja sede não se encontra na República Popular, mas em Taiwan —, provocou um escândalo em 2010 após uma série de suicídios decorrentes de condições de trabalho terríveis.
No entanto, a situação mudou significativamente quando o atual presidente, Xi Jinping, assumiu posições-chave de poder em 2012. Xi proclamou uma política de “prosperidade compartilhada” destinada a fortalecer a classe média.
Segundo o Banco Mundial, o chamado coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na sociedade, diminuiu significativamente nos anos seguintes. Embora a maioria dos chineses continue trabalhando muitas horas e com grande esforço hoje em dia, o marco legal melhorou. A jornada de trabalho de 40 horas semanais aplica-se agora em toda a China.
A primazia do Estado sobre o capital
Em 2019, Jack Ma, o bilionário diretor do Grupo Alibaba — o equivalente chinês da Amazon —, promoveu com veemência o chamado modelo 996: os chineses deveriam trabalhar todos os dias, das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana. Esse programa representou um ataque maciço aos planos do governo.
Por razões ainda não reveladas, Ma retirou-se da vida pública pouco depois. Fontes bem informadas suspeitam que o governo o pressionou a fazê-lo porque havia ultrapassado linhas vermelhas.
O fato de o governo ter contido o poderoso executivo da Alibaba é típico da relação entre o Estado e as grandes empresas na China. Isso ocorre desde muito antes da fundação da República Popular. Mesmo na época das dinastias, os imperadores e seus funcionários procuravam impedir que o poder dos comerciantes crescesse a tal ponto que pudesse minar a autoridade do Estado.
Isso também se reflete na ideologia estatal confuciana, que volta a desempenhar um papel fundamental na China atual.
O fato de a China ter sido capaz de mudar de rumo após os excessos turbocapitalistas da era de Deng, para integrar mais firmemente o bem comum às políticas, só foi possível porque o Estado nunca havia cedido o controle sobre os setores-chave da terra, dos bancos, da energia e das infraestruturas.
Isso permite ao governo realizar um planejamento de longo prazo e aplicar decisões estratégicas — ao contrário do que ocorre no Ocidente, onde, como consequência de uma privatização generalizada, os Estados e as sociedades se tornaram peões dos mercados financeiros.
O projeto de uma civilização ecológica
A industrialização desenfreada da era de Deng também havia mergulhado a China em um desastre ambiental de proporções épicas: rios contaminados, solos envenenados, águas subterrâneas poluídas, elevadas emissões de gases de efeito estufa e uma densa névoa tóxica nas cidades foram um alto preço a pagar pelo rápido desenvolvimento.
No entanto, sob a liderança de Xi — às vezes denominada “socialismo com características chinesas 3.0” —, alcançou-se um ponto de inflexão. A partir de 2012, o projeto de uma “civilização ecológica” foi proclamado como objetivo central do Estado.
“Águas azuis e montanhas verdes são prata e ouro”, teria pronunciado o presidente. Embora, diante das megacidades, dos desertos de concreto, dos gigantescos centros comerciais e das selvas de rodovias, surja a pergunta de como uma civilização assim poderia ser ecológica, há sucessos concretos a destacar.
A China é agora líder mundial em reflorestamento. Um quarto da área reflorestada em todo o mundo nos últimos 20 anos encontra-se na China. O chamado “Muro Verde”, no norte do país, projetado para proteger Pequim do avanço do deserto de Gobi, é o maior projeto de reflorestamento da história da humanidade.
Até o momento, foram plantadas ali cerca de 80 bilhões de árvores, que cobrem uma área do tamanho do Reino Unido. No entanto, os ecologistas apontam que o plantio de álamos e abetos de crescimento rápido também tem consequências negativas para o nível freático e a biodiversidade.
Apesar desses problemas, a desertificação foi efetivamente contida e criou-se um dos maiores sumidouros de carbono do mundo.
O processo de tornar as cidades mais verdes também goza de alta prioridade política. As amplas avenidas de dez, doze ou até 16 faixas, típicas das cidades chinesas modernas, foram ladeadas por várias fileiras de árvores em quase toda parte, o que não apenas melhora significativamente o clima urbano, mas também a estética dessas cidades.
No planejamento urbano, grandes parques públicos são geralmente incorporados como corredores verdes. As áreas verdes também são mantidas com grande investimento. Em Pequim e outras cidades, à noite, caminhões-pipa saem para regar cada uma das árvores.
Enquanto há 20 anos as cidades mais poluídas do mundo estavam na China, o ar de Pequim e de outras grandes cidades está agora, em grande medida, limpo. A Lei de Prevenção e Controle da Poluição Atmosférica estabeleceu limites rigorosos para a indústria e as usinas elétricas.
Os carros elétricos dominam as ruas, facilmente reconhecíveis por suas placas verdes. Quanto aos veículos motorizados de duas rodas, só são permitidos os patinetes elétricos. Isso não apenas limpa o ar, mas também torna as cidades consideravelmente mais silenciosas.
Tanto o governo central quanto as autoridades locais estão promovendo de forma muito eficaz uma rápida transição para a mobilidade elétrica. Por exemplo, em Xangai, uma cidade com 25 milhões de habitantes e cronicamente congestionada, é preciso esperar anos para emplacar um veículo com motor a combustão e pagar cerca de 10 mil euros, enquanto o emplacamento de um carro elétrico é possível imediatamente e sem custo adicional.
A eletricidade na China não é apenas significativamente mais barata que a gasolina — um quilowatt-hora custa um terço do que custa na Alemanha —, mas também provém cada vez mais de fontes de energia renováveis.
Embora a China continue construindo novas usinas termelétricas a carvão, ao mesmo tempo está erguendo enormes parques solares e eólicos, especialmente nas vastas extensões do oeste chinês, pouco povoadas, onde o sol e o vento são abundantes.
Como tanto o setor energético quanto o bancário continuam sendo predominantemente estatais, o financiamento e a implementação podem ser orientados e acelerados politicamente. Isso também se aplica a projetos locais, como a instalação de painéis solares nos telhados.
Enquanto na Europa e nos EUA as tarifas e as diretrizes variam a cada mudança de governo — o que representa riscos consideráveis para os proprietários de imóveis —, na China o Estado assume todo o risco. Quando as instalações solares se tornam rentáveis para as comunidades locais, o governo financia a construção; os usuários não pagam nada, apenas devem injetar parte da eletricidade na rede.
Isso significa que praticamente não há motivos para resistir à mudança. Portanto, não há indícios de guerras culturais em torno da energia como na Europa ou nos EUA.
Em geral, a China dobrou seu investimento em energias renováveis desde 2015, alcançando 625 bilhões de dólares americanos por ano. Isso é três vezes mais do que investem todos os Estados-membros da UE nesse setor. O objetivo: uma economia amplamente eletrificada e baseada na energia solar até 2060.
O governo chinês não está preocupado apenas com as metas ambientais, mas também em reduzir rapidamente sua dependência do petróleo e do gás. A guerra no Irã e o fechamento do estreito de Ormuz demonstraram mais uma vez como essa dependência é perigosa.
Hoje, a China pode produzir tudo de que precisa em todas as indústrias-chave, com exceção dos processadores de alto desempenho mais rápidos, área em que a fabricante estadunidense NVIDIA continua na liderança.
Se o chamado Reino do Meio também alcançar uma independência quase total na produção de energia, ficará ainda mais isolado dos riscos geopolíticos. A União Europeia, por sua vez, continua presa a fornecimentos poluentes, excessivamente caros e muito voláteis de petróleo e gás, provenientes dos EUA e dos Estados do Golfo, devido à sua política energética caótica. Os EUA também continuam viciados nessas fontes de energia finitas.
O preço do progresso
No entanto, em meio a todos esses avanços positivos, a ascensão da China também tem seus aspectos negativos. A China é agora uma meritocracia com uma enorme pressão competitiva.
Em Xangai — a cidade mais cara da China —, um apartamento custa agora oito milhões de yuans, cerca de um milhão de dólares. Mesmo com um salário de cerca de 2 mil dólares por mês — o que é muito bom para os padrões chineses —, isso é inacessível. Se alguém consegue comprá-lo, fica, como se diz em Xangai, como um “escravo dos bancos” por toda a vida.
Quem deseja se casar geralmente precisa comprovar que possui um apartamento e um carro. O resultado é que muitos chineses ficam presos em uma corrida exaustiva apenas para formar e manter uma família — na qual, em geral, tanto o marido quanto a mulher trabalham.
Chegar ao 24º andar de uma fortaleza de concreto depois de um longo e duro dia em uma fábrica sem janelas, após um trajeto de até duas horas, deixa energia apenas para ligar a televisão. O “sonho chinês” pode ter um rosto muito sombrio na realidade. Nesse sentido, não difere do “sonho americano” de outrora, cujo lado obscuro Arthur Miller imortalizou, já em 1949, em sua obra Morte de um caixeiro-viajante.
A alienação social e a solidão são um problema grave na China atual. Em poucas décadas, 75% da população rural — cerca de 600 milhões de pessoas — mudou-se para as cidades para trabalhar na indústria. Embora isso tenha permitido superar a pobreza extrema, ao mesmo tempo destruiu a rede de relações de vizinhança que existia nas aldeias.
Um morador de Xangai comentava, com nostalgia, que na distante Chengdu, na província de Sichuan, ainda é possível ver, de vez em quando, pessoas jogando cartas na rua — um fenômeno que desapareceu em grande parte na costa leste.
O contato social foi substituído pelo consumismo — ou simplesmente pelo sonho de consumi-lo. A famosa rua comercial de Xangai, Nanjing Road, poderia muito bem superar em escala a maioria das que conhecemos no Ocidente, e não lhe falta nada, de Prada a Gucci. No entanto, apenas uma classe relativamente pequena e abastada pode se dar ao luxo de comprar esses produtos e serviços.
A corrida por uma oportunidade de mobilidade social começa já na creche. A pressão aumenta ainda mais na escola, sobretudo quando se aspira a obter um diploma de primeira categoria.
Das aproximadamente 3 mil instituições de ensino superior do país, cerca de cem são consideradas universidades de elite que garantem bons empregos. Nove delas pertencem à prestigiosa Liga C9. Mas o nível de exigência para a admissão é muito alto.
Muitos estudantes do ensino médio dedicam-se aos estudos sete dias por semana, estudando até 12 horas por dia. Quando a jornada escolar habitual, que começa entre sete e oito da manhã, termina às cinco ou seis da tarde, esperam-nos as tarefas de casa, que às vezes se prolongam até a meia-noite. Nos fins de semana, as aulas particulares são regra.
Essa intensa pressão por desempenho costuma se estender à vida profissional, deixando pouco espaço para o lazer, a família e as amizades. Uma das consequências é o aumento dos transtornos de saúde mental. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 54 milhões de pessoas na China sofrem de depressão e 41 milhões, de transtornos de ansiedade. Nos países ocidentais, os números são, em alguns casos, significativamente mais elevados, mas a China também vem avançando nesse aspecto.
Rival sistêmico ou parceiro?
Embora as empresas europeias e estadunidenses tenham se beneficiado durante décadas dos baixos salários na China, e os governos cortejassem o país justamente por esse motivo, a maré mudou.
Cada vez mais, a China é apresentada como uma ameaça. A razão é simples: o país já não produz principalmente para as corporações ocidentais, mas produtos próprios de alta qualidade com os quais muitas empresas ocidentais mal conseguem competir em um mercado livre.
Embora o Ocidente tenha contribuído para facilitar a ascensão da China por meio da transferência de tecnologia, agora enfrenta as consequências. A defesa do livre mercado, que dominou as políticas econômicas dos EUA e da UE durante décadas, deu lugar a um novo protecionismo.
A frustração com o relativo declínio do Ocidente também se manifestou, nos últimos anos, em comentários pouco úteis do ponto de vista diplomático, como quando a ministra das Relações Exteriores alemã, Annalena Baerbock, classificou o presidente Xi de “ditador”, tal como Joe Biden havia feito antes dela.
Sem dúvida, a China não é uma democracia, embora sejam realizadas eleições em nível local e dentro das estruturas partidárias e parlamentares. O sistema pode ser entendido mais como uma “expertocracia” do que como uma ditadura: em todos os níveis, do local ao nacional, as experiências são avaliadas e transmitidas aos órgãos de tomada de decisões do partido e do governo, cujas resoluções, por sua vez, são minuciosamente examinadas pelas comissões da Assembleia Popular.
É isso que torna a China tão adaptável e eficiente em questões práticas.
Ao mesmo tempo, porém, existe um grande temor à abertura no plano ideológico. Na China não existe imprensa livre. A maioria dos meios de comunicação é estatal, e os poucos de propriedade privada conhecem muito bem seus limites. Os jornalistas admitem isso abertamente.
A ideia geral é, antes de tudo, divulgar boas notícias que sirvam à grande narrativa da ascensão do país. Consequentemente, os cerca de 20 canais da rede estatal de televisão CCTV exibem principalmente documentários sobre a natureza, entrevistas com empresários bem-sucedidos e especialistas ligados ao Estado, grandes epopeias heroicas sobre a vitória contra os ocupantes japoneses e, cada vez mais, filmes históricos ambientados na era imperial.
As restrições à liberdade de expressão são, sem dúvida, um dos aspectos menos atraentes da China. Mas isso representa uma ameaça grave para o Ocidente? Só seria assim se a China desenvolvesse a intenção e a capacidade de impor seu sistema ao mundo pela força.
De vez em quando, ouvem-se fantasias desse tipo nos Estados Unidos. No entanto, essa visão costuma ser condicionada por um desconhecimento da história chinesa.
Não há dúvida de que a China deseja recuperar sua antiga grandeza; isso é evidente em toda parte. Quem visita, por exemplo, o Palácio da Imperatriz, reconstruído na antiga capital, Luoyang, depara-se com uma demonstração avassaladora de esplendor e grandeza.
Mas essa grandeza não se baseava, nem se baseia, na dominação mundial, como foi o caso da pretensão ocidental de hegemonia ao longo dos séculos. A China nunca construiu um império colonial, embora tivesse os meios para fazê-lo. Afinal, um dia possuiu, de longe, a maior frota do mundo e teve acesso à pólvora séculos antes dos europeus.
O Reino do Meio baseava-se no poder derivado do comércio, não na conquista militar do mundo. A maioria das guerras foi travada para assegurar as regiões fronteiriças.
Hoje, a principal preocupação dos dirigentes chineses em matéria de segurança é evitar que se repita uma ingerência estrangeira como a vivida durante o “Século da Humilhação”. A China não deve voltar a ser vulnerável à chantagem; tropas estrangeiras não devem voltar a pisar em solo chinês.
Segundo a interpretação chinesa, isso inclui também Taiwan, que desde a década de 1970 é reconhecida como parte da China pelas Nações Unidas, pelos Estados Unidos e por todos os países europeus.
Uma política externa racional faria bem em compreender a história da China e respeitar seus interesses de segurança. Esse é um requisito prévio crucial para uma transição pacífica rumo a uma ordem mundial multipolar.
FONTE: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/china-fabrica-do-mundo