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A linha de 1945 está prestes a ser cruzada: quem vai quebrar o tabu nuclear?

Do Irã à Ucrânia, duas guerras comprimem os limites da dissuasão e aproximam o mundo da linha que nenhuma potência cruza desde 1945.

Enquanto os Estados Unidos descobrem no Irã os limites da superioridade militar, Washington, OTAN e Europa aprofundam a pressão sobre uma Rússia nuclear. De um lado, Teerã aprende o preço de não possuir a bomba; do outro, Moscou é empurrada para o limite em que possuir a bomba pode deixar de ser apenas dissuasão. No centro dessa colisão está a pergunta que pode definir nosso tempo: quem carregará o ônus histórico de usá-la primeiro?

A linha que volta a existir

Durante oitenta anos, a arma nuclear preservou sua máxima utilidade política justamente porque permaneceu fora do campo de batalha. Desde Hiroshima e Nagasaki, nenhuma potência voltou a empregá-la em combate. Esse limite, porém, já não pode ser tratado como uma fronteira imóvel. Do Golfo à Ucrânia, duas guerras aparentemente distintas começam a produzir a mesma pressão histórica: reduzir, passo a passo, a distância entre a coerção convencional e aquilo que até ontem permanecia reservado ao domínio da dissuasão. Não porque a guerra nuclear tenha se tornado inevitável, nem porque exista evidência de uma decisão coordenada para provocá-la, mas porque capacidades, doutrinas e necessidades estratégicas estão aproximando do cálculo operacional uma possibilidade que durante décadas precisou permanecer excepcional.

É nesse ponto que Irã e Ucrânia deixam de ser crises supostamente separadas. No Oriente Médio, os Estados Unidos estão descobrindo que superioridade tecnológica e capacidade de destruição não significam necessariamente capacidade de impor uma solução política: Teerã foi duramente atingida, mas não submetida. Na Europa, Washington, OTAN e potências europeias seguem na direção inversa da mesma contradição, ampliando a pressão convencional sobre uma Rússia que possui armas nucleares e que formalmente incorporou à sua doutrina cenários de ameaça convencional grave. No Irã, portanto, testa-se o limite do poder contra quem não possui a bomba; na Ucrânia, testa-se o limite da pressão contra quem a possui. Entre esses dois movimentos está a linha de 1945. E ela começa a parecer menos uma muralha do que uma fronteira submetida a pressão.

O problema aparece quando se observa o que ocorreu no primeiro desses teatros. Os Estados Unidos demonstraram contra o Irã uma capacidade de destruição que poucas forças militares no mundo poderiam suportar sem danos profundos, mas não conseguiram converter essa superioridade em submissão política. Seis meses de guerra não produziram capitulação, mudança de regime nem solução definitiva para o programa nuclear iraniano. Tampouco devolveram a Washington o controle do principal gargalo energético do planeta. O Estreito de Ormuz permaneceu como instrumento de coerção de Teerã, enquanto a guerra consumiu estoques de interceptadores, munições de precisão e capacidade operacional que não podem ser recompostos na velocidade em que são empregados. O paradoxo é decisivo: a maior máquina militar do mundo demonstrou que ainda pode destruir em escala extraordinária, mas voltou a encontrar dificuldade para transformar destruição em ordem política.

É nesse intervalo entre poder de fogo e resultado político que se mede a dimensão estratégica do impasse. Contar alvos destruídos, aeronaves empregadas ou toneladas de explosivos pode demonstrar superioridade tática, mas não responde à pergunta essencial de uma guerra: quem conseguiu obrigar o adversário a aceitar uma realidade que antes recusava? O Irã sofreu perdas severas e está longe de poder reivindicar uma vitória militar convencional. Mas sobreviveu como Estado, preservou capacidade de resistência, manteve instrumentos para impor custos e não entregou a Washington o resultado político que justificaria a campanha. Ao mesmo tempo, o esforço norte-americano consumiu recursos que pertencem à mesma base industrial e aos mesmos estoques estratégicos exigidos pela defesa da Ucrânia, especialmente sistemas de defesa aérea e munições de precisão. O Golfo e a Europa passam, assim, a disputar materialmente a mesma reserva de poder ocidental.

É justamente aqui que a guerra contra o Irã produz sua consequência mais perigosa. Se um Estado sem armas nucleares pode sofrer uma campanha dessa magnitude e descobrir que tratados, salvaguardas e condição de potência limiar não bastaram para protegê-lo, a conclusão possível em Teerã é inversa àquela pretendida por Washington: talvez o erro estratégico não tenha sido chegar perto demais da bomba, mas permanecer aquém dela. A guerra concebida para impedir a nuclearização passa, então, a aumentar o valor racional da dissuasão nuclear. Não significa que o Irã tenha decidido fabricar uma arma, nem que inevitavelmente o fará. Significa algo anterior e mais importante: a guerra alterou o cálculo de custo e benefício de possuí-la. O instrumento empregado para impedir a proliferação começa a produzir incentivo para proliferar.

Essa é a primeira fissura na linha de 1945. Antes que uma ogiva seja lançada, deteriora-se a lógica política que manteve a bomba excepcional. Se a mensagem recebida pelos Estados for que possuir armas nucleares restringe a liberdade de ação do adversário, enquanto renunciar a elas não oferece garantia equivalente de segurança, o problema deixa de ser exclusivamente iraniano. Torna-se sistêmico. A bomba recupera valor não porque tenha sido utilizada, mas porque a guerra volta a ensinar para que ela serve. E é exatamente quando essa lição emerge no Irã que, no outro extremo da Eurásia, Washington, OTAN e Europa aumentam a pressão sobre um Estado que já possui milhares delas.

Na Ucrânia, a equação se inverte. Não se trata de um Estado sem armas nucleares descobrindo o valor potencial de possuí-las, mas de testar até onde é possível ampliar uma guerra convencional contra uma potência nuclear sem obrigá-la a redefinir a natureza do conflito. Desde 2022, sucessivas restrições políticas e operacionais ao emprego de armamentos ocidentais foram sendo relaxadas. O alcance aumentou, a profundidade dos ataques cresceu e a própria Europa passou a estruturar capacidades de deep precision strike capazes de atingir muito além da linha de frente. França e Alemanha articulam ataque convencional profundo, alerta antecipado, defesa antimíssil e dissuasão nuclear dentro de uma mesma arquitetura de gerenciamento da escalada, enquanto a OTAN afirma buscar maior integração entre forças convencionais, nucleares, espaço, ciber e defesa antimíssil ao longo do espectro do conflito. A justificativa é dissuadir Moscou. O problema é que a dissuasão está sendo fortalecida justamente pela aproximação progressiva entre instrumentos que o adversário precisa distinguir para saber se ainda está diante de uma guerra convencional.

Essa aproximação deixou de ser teórica. Drones ucranianos já atingiram radares Voronezh integrantes do sistema russo de alerta estratégico contra mísseis, e a Operação Spiderweb alcançou bases que abrigavam bombardeiros da aviação nuclear russa. Nenhum desses ataques desencadeou uma resposta nuclear, e esse fato precisa ser levado a sério. Ele demonstra que as chamadas linhas vermelhas de Moscou não funcionam como gatilhos automáticos. Mas produz também uma conclusão perigosamente confortável para quem conduz a escalada: se o passo anterior não provocou a reação anunciada, talvez exista espaço para o próximo. O problema é que nenhuma sequência de recuos revela antecipadamente onde se encontra o limiar verdadeiro. Uma linha vermelha pode parecer vazia muitas vezes, até o momento em que deixa de ser.

É nesse ponto que a mudança da doutrina nuclear russa adquire importância material. Moscou ampliou em 2024 as circunstâncias declaradas nas quais poderia considerar o emprego nuclear, incorporando uma agressão convencional capaz de representar ameaça crítica à soberania ou à integridade territorial e estabelecendo que um ataque realizado por um Estado não nuclear com participação ou apoio de uma potência nuclear pode ser tratado como agressão conjunta. Isso não prova que Vladimir Putin esteja prestes a ordenar um ataque nuclear, muito menos que cada ofensiva ucraniana aproxime mecanicamente esse momento. Significa que Washington, OTAN e Europa estão aumentando capacidades convencionais precisamente dentro do espaço que Moscou decidiu aproximar formalmente de seu cálculo nuclear. A pressão e a resposta doutrinária começam, portanto, a alimentar uma à outra.

Aqui está o mecanismo mais perigoso dessa guerra. Para Moscou, um ataque convencional contra determinados radares, centros de comando, bombardeiros, sistemas de comunicação ou outras capacidades estratégicas pode deixar de ser interpretado apenas pelo dano que causa naquele instante. A pergunta passa a ser se aquele ataque é parte de uma campanha destinada a degradar a capacidade russa de responder ao que poderia vir depois. Quanto maior essa dúvida, menor pode se tornar o tempo disponível para decidir. E quando uma potência nuclear começa a acreditar que esperar significa correr o risco de perder capacidades que talvez precise utilizar, a lógica da dissuasão pode sofrer sua inversão mais perigosa: a arma construída para nunca precisar ser usada começa a adquirir valor justamente porque talvez seja necessário usá-la antes que seja tarde.

É por isso que a discussão não pode ser reduzida à pergunta simplista sobre quem deseja uma guerra nuclear. Washington, Bruxelas, Paris, Londres e Berlim afirmam que suas novas capacidades existem para evitá-la, e não há evidência pública que permita afirmar o contrário como intenção coordenada. A questão estratégica é mais profunda. Uma arquitetura pode fortalecer a dissuasão antes da guerra e, simultaneamente, tornar a escalada mais instável quando a guerra já existe. Quanto mais ataque profundo, sistemas de dupla capacidade, defesa antimíssil, inteligência integrada e infraestrutura estratégica entram na mesma equação, maior é o risco de que intenção e percepção deixem de coincidir. Numa crise nuclear, não basta saber o que se pretende fazer. É preciso considerar o que o adversário acredita que está sendo preparado contra ele.

A questão decisiva, portanto, não é saber se Washington deseja uma detonação russa. Não há evidência pública que sustente essa acusação. A questão é mais incômoda: o que acontece quando Washington, OTAN e Europa conhecem os mecanismos capazes de aproximar Moscou do limiar nuclear, continuam ampliando a pressão dentro desse espaço e, simultaneamente, desenvolvem doutrina e capacidades para administrar a escalada caso esse limiar seja rompido? O planejamento estratégico ocidental não termina diante da primeira explosão. Ele contempla precisamente o problema de como continuar dissuadindo, responder e controlar a guerra depois que a dissuasão inicial falhou.

É aqui que o primeiro uso adquire uma importância muito maior que seu efeito militar imediato. Desde 1945, a primeira potência a empregar novamente uma arma nuclear carregará algo que nenhuma simulação consegue reproduzir: o ônus histórico de romper uma proibição que sobreviveu a Coreia, Vietnã, Afeganistão, crises no Oriente Médio, confrontos entre Índia e Paquistão e aos momentos mais perigosos da Guerra Fria. Quem lançar primeiro não destruirá apenas um alvo. Destruirá a excepcionalidade política que separou, durante oito décadas, a guerra convencional da guerra nuclear.

Isso não significa que a segunda bomba se torne automática, legítima ou inevitável. Significa algo mais preciso. Depois da primeira, todas as decisões passam a ser tomadas em um mundo diferente daquele existente um minuto antes. Uma resposta convencional maciça, uma intervenção direta, uma demonstração nuclear, um ataque contra forças russas ou até uma retaliação nuclear passam a ser avaliados depois que o impensável já aconteceu. A primeira detonação não determina a segunda. Ela modifica o universo político dentro do qual a segunda passa a ser considerada. É essa assimetria que torna tão importante saber quem atravessa primeiro a linha.

Para Moscou, o dilema é brutal. Um emprego nuclear poderia tentar impedir uma derrota convencional ou obrigar o adversário a interromper a escalada, mas poderia também destruir parte da arquitetura diplomática que permite à Rússia resistir ao isolamento ocidental. China, Índia, Brasil e outros atores do Sul Global têm interesses distintos, mas convergem na preservação do não uso. Pequim mantém sua doutrina declarada de não primeiro uso; Nova Délhi historicamente rejeita a normalização nuclear; o Brasil construiu sua posição internacional sobre não proliferação, desarmamento e solução política dos conflitos. A primeira bomba russa poderia produzir aquilo que anos de sanções ocidentais não conseguiram: tornar politicamente insustentável, para parte importante do Sul Global, permanecer equidistante diante da guerra.

Mas é justamente aí que aparece a responsabilidade estratégica do outro lado. Washington, OTAN e Europa não precisam desejar que Moscou utilize uma arma nuclear para compreender que determinadas formas de pressão aumentam esse risco. Conhecem a doutrina russa, conhecem o problema do entanglement, conhecem o perigo de ataques contra capacidades estratégicas e sabem que uma derrota convencional percebida como existencial ocupa lugar particular no pensamento nuclear de Moscou. Continuar avançando apesar disso pode ser defendido como necessidade militar, dissuasão ou direito da Ucrânia de resistir. O que não pode ser feito é tratar como absolutamente imprevisível uma consequência cuja possibilidade está escrita nas doutrinas, nos exercícios e no planejamento estratégico dos próprios adversários.

É aqui que a intenção deixa de ser suficiente para explicar a história. Estados não respondem apenas ao que seus adversários dizem querer; respondem ao que eles demonstram ser capazes de fazer. E quando cada lado aumenta sua capacidade para impedir que o outro atravesse determinada linha, pode acabar diminuindo exatamente o espaço político e o tempo operacional necessários para que ninguém precise atravessá-la. A disputa passa então a envolver algo terrível: não apenas evitar a bomba, mas evitar ser aquele que terá de lançá-la primeiro. Porque, depois disso, o problema já não será mais preservar a linha de 1945. Será descobrir o que ainda resta dela.

É quando os dois teatros são colocados lado a lado que aparece a dimensão real da crise. Irã e Ucrânia não estão conduzindo o mundo ao mesmo ponto pelo mesmo caminho. Estão chegando ao nuclear por movimentos inversos. No Oriente Médio, uma potência não nuclear submetida ao poder militar de Estados nuclearmente armados recebe um incentivo para perguntar se sua vulnerabilidade não decorre precisamente daquilo que ainda não possui. Na Europa, uma potência nuclear submetida a crescente pressão convencional precisa decidir até onde permitirá que essa pressão avance antes que a principal garantia de sua sobrevivência deixe de funcionar como ameaça abstrata. Teerã é empurrada a reconsiderar o valor de adquirir a bomba. Moscou, a reconsiderar o valor de continuar apenas ameaçando utilizá-la.

Essa convergência ocorre no pior momento possível. A arquitetura construída durante décadas para impedir que armas nucleares voltassem ao centro da política internacional está enfraquecida. O New START expirou sem substituto, deixando Estados Unidos e Rússia sem os limites juridicamente vinculantes que durante anos restringiram seus maiores arsenais estratégicos. O regime de não proliferação atravessa sucessivos impasses, enquanto as nove potências nucleares modernizam seus arsenais e sistemas capazes de empregá-los. A tendência histórica que procurava reduzir o papel político da bomba começa a se inverter justamente quando guerras reais voltam a testar sua utilidade. O problema já não é apenas quantas ogivas existem. É para que os Estados começam novamente a acreditar que elas servem.

O Irã torna essa pergunta impossível de evitar. Se Teerã concluir que permanecer abaixo do limiar nuclear não impediu ataques contra seu território e suas instalações, a mensagem ultrapassa suas fronteiras. Outros Estados observarão que possuir a bomba impõe limites extraordinários à liberdade militar dos adversários, enquanto renunciar a ela não produz necessariamente proteção equivalente. A não proliferação depende de uma premissa silenciosa: a de que permanecer não nuclear não pode ser sistematicamente mais perigoso do que nuclearizar-se. Quando essa relação se inverte, tratados continuam existindo no papel, mas o incentivo material que os sustenta começa a desaparecer.

A Ucrânia oferece a imagem complementar. A Rússia demonstra há quatro anos que seu arsenal não impede uma guerra convencional extensa, ataques dentro de seu território ou perdas de ativos estratégicos. Mas também demonstra que a existência desse arsenal estabelece um limite à intervenção direta da OTAN que nenhuma capital ocidental decidiu testar integralmente. Essa combinação envia outra mensagem ao sistema: a bomba pode não impedir todas as guerras, mas continua capaz de determinar quais guerras os adversários aceitam travar contra você. É exatamente esse valor político que a escalada atual está colocando sob tensão.

Por isso, a Caixa de Pandora não começa necessariamente com uma explosão. Ela começa quando possuir, não possuir e utilizar armas nucleares voltam simultaneamente a produzir incentivos estratégicos concretos. Se o Irã aprende que talvez devesse ter a bomba, se a Rússia precisa convencer seus adversários de que a sua não perdeu utilidade e se Estados Unidos, OTAN e Europa desenvolvem capacidades para continuar operando caso a dissuasão fracasse, o sistema inteiro começa a se reorganizar em torno de uma possibilidade que deveria permanecer excepcional. A arma que manteve parte de seu poder porque ninguém a utilizava começa novamente a adquirir poder porque alguém pode utilizá-la.

É nesse ponto que Irã e Ucrânia se tornam o mesmo problema histórico. Não porque exista um comando único conduzindo as duas guerras, nem porque uma detonação em um teatro produza automaticamente outra no seguinte. Elas se encontram porque estão corroendo, por extremos opostos, a mesma arquitetura de contenção. O Irã ensina o preço de não possuir a bomba; a Ucrânia testa o limite de pressionar quem a possui. Entre ambos está sendo comprimido o espaço político que manteve o primeiro uso fora da guerra por oitenta anos. Se esse espaço desaparecer, não terá fracassado apenas a dissuasão em um campo de batalha. Terá começado a mudar a própria racionalidade nuclear do sistema internacional.

O perigo, portanto, não está em saber se alguém decidiu lançar a primeira bomba. Está em perceber que as condições que durante oitenta anos tornaram essa decisão politicamente excepcional estão sendo corroídas diante de nós. No Irã, a incapacidade norte-americana de transformar poder de destruição em vitória política reforça a lógica de que a dissuasão nuclear pode ser a última garantia de soberania. Na Ucrânia, Washington, OTAN e Europa continuam comprimindo o espaço entre pressão convencional e resposta estratégica russa, enquanto todos os lados constroem capacidades para administrar uma escalada que oficialmente afirmam querer impedir.

Não é necessário imaginar uma conspiração para reconhecer uma dinâmica histórica. Quando governos conhecem os riscos, conhecem as doutrinas adversárias, observam a aproximação dos limiares e ainda assim continuam elevando a pressão, a possibilidade de catástrofe deixa de pertencer exclusivamente ao domínio do acidente. A ausência de intenção não elimina a responsabilidade pelas condições produzidas. E talvez seja essa a característica mais inquietante do momento atual: cada ator pode acreditar racionalmente que está aumentando sua própria segurança enquanto, pela soma dessas racionalidades, o sistema inteiro se torna menos seguro.

A linha de 1945 nunca foi uma barreira física. Foi uma construção política sustentada pelo medo, pela dissuasão e, sobretudo, pela convicção de que ser o primeiro a rompê-la imporia um custo histórico incomensurável. É por isso que a disputa mais perigosa do presente pode não ser simplesmente pela vitória em Teerã ou na Ucrânia, mas por quem será obrigado a assumir o ônus de atravessar primeiro essa fronteira. Porque a primeira explosão não produzirá apenas mortos, destruição e retaliação. Produzirá um precedente.

E precedentes reorganizam o possível.

A Caixa de Pandora nuclear não será aberta pela segunda bomba. Será aberta pela primeira. Depois dela, a humanidade já estará discutindo outra coisa: não mais se armas nucleares podem voltar a ser usadas em uma guerra, mas quando, onde e por quem serão usadas novamente.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

FOTO: Photo courtesy of National Nuclear Security Administration / Nevada Site Office

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-linha-de-1945-esta-prestes-a-ser-cruzada-quem-vai-quebrar-o-tabu-nuclear/