No século XX, a estatística precisava acompanhar a sociedade industrial. No século XXI, precisa acompanhar a sociedade de serviços hiperconectada.
A economia digital deixou de ser um segmento particular da economia para se transformar na infraestrutura da vida social. Dados, conectividade, plataformas, algoritmos, inteligência artificial, pagamentos eletrônicos e redes sociais passaram a organizar não apenas a produção, mas também o consumo, o trabalho, a circulação de mercadorias e a formação de renda.
De fato, ocorre uma transição acelerada para uma nova sociedade de serviços hiperconectada, na qual o celular pode ser, simultaneamente, loja, escritório, carteira, meio de transporte, agência de publicidade, estúdio de produção e plataforma de trabalho. Essa transformação produz uma mudança fundamental, na qual o trabalho começa a se deslocar do emprego para a atividade.
Na sociedade industrial, a referência era, em geral, o trabalhador empregado por uma empresa, em determinado local e jornada. Na sociedade digital, cresce o trabalho por tarefa, projeto, aplicativo, plataforma, comissão, contrato remoto ou múltiplas fontes de rendimento.
Isso não implica, necessariamente, o desaparecimento do emprego, pois ele deixa de ser a única forma de organizar a vida econômica.
A dimensão mundial dessa transformação é impressionante. A OIT, por exemplo, identificou o crescimento das plataformas digitais de trabalho de pelo menos 142, em 2010, para mais de 777, em 2020, mais de cinco vezes em uma década. Na União Europeia, estimava-se que 28,3 milhões de pessoas trabalhavam por plataformas em 2022, número projetado para alcançar 43 milhões em 2025, crescimento de 52%. O contingente já se aproximava dos 29 milhões de trabalhadores da indústria manufatureira europeia.
Não é pouca coisa, pois o trabalho por plataformas deixou de ser uma atividade marginal e passou a constituir componente relevante da sociedade de serviços. Nos Estados Unidos, na China, na Europa e nas economias asiáticas altamente digitalizadas, as trajetórias não são homogêneas, mas convergem em relação à fronteira entre comércio, serviço, entretenimento e trabalho, cada vez mais digital.
O comércio eletrônico, em especial, permite que uma empresa alcance consumidores sem multiplicar lojas físicas. Plataformas de transporte transformam veículos particulares em unidades de prestação de serviços. Aplicativos de entrega conectam restaurantes, consumidores e trabalhadores. O trabalho remoto permite que empresas contratem profissionais independentemente da localização. Redes sociais transformam audiência em ativo econômico.
A China avançou particularmente na integração entre comércio eletrônico, pagamentos móveis, redes sociais e live commerce. Nos Estados Unidos, plataformas globais reorganizaram comércio, publicidade, computação e prestação de serviços. Na Europa, a expansão da economia de plataformas produziu uma resposta institucional, uma vez que, na União Europeia, houve a aprovação da Diretiva 2024/2831, que estabelece regras para melhorar as condições de trabalho e enfrentar a gestão algorítmica.
A questão tornou-se evidente, com a posição de chefe podendo desaparecer fisicamente, substituída pelo algoritmo, que pode assumir parte das funções. Com isso, preços, distribuição de tarefas, avaliação, reputação, incentivos e acesso ao trabalho podem ser determinados por sistemas que o trabalhador não controla.
A autonomia cresce em alguns aspectos, mas pode coexistir com novas formas de dependência. Essa é uma das grandes contradições da sociedade hiperconectada, cuja tecnologia amplia o acesso ao mercado e, ao mesmo tempo, pode concentrar o poder de intermediação nas plataformas.
Outra mudança internacional é a separação entre o lugar onde o trabalhador vive e o local onde está seu mercado. Um programador brasileiro pode atender uma empresa americana, um designer pode trabalhar para clientes europeus, um consultor pode vender serviços globalmente, enquanto um criador de conteúdo pode monetizar uma audiência mundial.
Enquanto a geografia do trabalho começa a se separar da geografia do emprego, a nova economia digital também transforma aquilo que pode ser convertido em renda. Conhecimento, criatividade, reputação, audiência, mobilidade e atenção tornaram-se ativos econômicos. É a expansão da chamada creator economy, da gig economy, do freelancing qualificado, do trabalho remoto, das microtarefas digitais, dos jogos eletrônicos, dos serviços de streaming, dos games e dos eSports.
No Brasil, por exemplo, estudos da FGV ECMI com a Hotmart apontaram, para o ano de 2024, mais de 389 mil trabalhos diretos e indiretos associados aos negócios digitais de criadores de conteúdo na plataforma, 30% acima dos mais de 302 mil registrados na primeira edição. Entre os criadores pesquisados, 42% afirmaram que a venda de produtos digitais era sua principal fonte de rendimentos, com renda de até 5 mil reais mensais.
Esse dado é especialmente relevante porque mostra uma economia que não depende necessariamente de empresas tradicionais. O indivíduo pode transformar conhecimento em curso, audiência em publicidade, influência em vendas e conteúdo em receita pelo potencial das conexões da era digital.
Não se trata apenas de influenciadores. A cadeia inclui produtores, coprodutores, afiliados, profissionais de marketing, designers, editores, gestores de tráfego, especialistas em tecnologia e uma multiplicidade de serviços. Uma nova divisão social do trabalho se estabelece com a hiperconectividade disseminada no interior do mundo do trabalho.
O Brasil possui condições particularmente favoráveis para essa transformação. A TIC Domicílios 2024 estimou 159 milhões de usuários de internet, equivalentes a 84% da população. Se considerado ainda o conceito ampliado da pesquisa, o número chegava a 166 milhões. No mesmo sentido, o DataReportal, com metodologia própria, estimou 185 milhões de usuários de internet no Brasil no final de 2025, equivalentes a 86,9% da população, e 150 milhões de identidades de usuários de redes sociais.
O celular tornou-se, portanto, uma espécie de infraestrutura produtiva individual. É loja para o vendedor on-line, escritório para o freelancer, estúdio para o criador de conteúdo, instrumento de trabalho para o motorista, canal de vendas para o pequeno empreendedor e plataforma de contratação para o prestador de serviços.
Os dados do IBGE mostram o efeito sobre o trabalho. No terceiro trimestre de 2024, 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços, número 25,4% superior ao de 2022. São motoristas, entregadores e trabalhadores de outras ocupações que passaram a utilizar plataformas para encontrar clientes e realizar serviços.
Mas os 1,7 milhão representam somente uma parcela da economia digital brasileira. Há ainda vendedores on-line, criadores de conteúdo, afiliados, streamers, profissionais de eSports, trabalhadores remotos, programadores, designers, consultores, professores, tradutores e freelancers qualificados.
É justamente essa diversidade que torna insuficientes as categorias tradicionais de emprego. No comércio varejista, por exemplo, essa transformação torna-se evidente e visível.
A loja física passa a disputar o consumidor com marketplaces, redes sociais e plataformas capazes de operar nacionalmente sem a mesma estrutura imobiliária. Estoques podem ser centralizados, a publicidade passa a ser orientada por dados e a entrega é transferida para redes logísticas e trabalhadores de plataformas.
Isso não significa que toda empresa tradicional esteja ameaçada ou em crise por causa da digitalização. Seria uma conclusão simplista, num país onde os juros são elevados, o endividamento e o crédito restrito pesam, assim como as mudanças no consumo, a gestão empresarial e a concorrência.
Mas a digitalização modifica as condições da competição. O caso das Casas Bahia é emblemático, pois, em agosto de 2026, o grupo pediu recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas, anunciou o fechamento de 298 lojas e a demissão de aproximadamente 3 mil trabalhadores. As dispensas foram posteriormente suspensas pela Justiça do Trabalho.
A própria trajetória da empresa mostra que não se trata de uma explicação monocausal. A companhia vinha realizando uma ampla reestruturação, sofreu com juros elevados e restrição de crédito e, ao mesmo tempo, enfrentou a necessidade de modernizar seu modelo de negócios diante da transformação do varejo.
O caso é importante justamente porque mostra que a economia digital não necessariamente quebra a empresa tradicional, mas provoca uma mudança no ambiente competitivo no qual ela precisa sobreviver.
Os números do mercado de trabalho reforçam a hipótese. No primeiro semestre de 2026, o comércio varejista eliminou 45,9 mil empregos formais, enquanto o mercado de trabalho brasileiro como um todo criou 921 mil postos.
Em síntese, não se trata simplesmente de falta de trabalho na economia, mas de uma profunda recomposição setorial do trabalho.
Enquanto determinados segmentos do varejo físico perdem ocupações, crescem a logística, o transporte, o comércio eletrônico, os serviços digitais e as atividades mediadas por plataformas. Uma economia em transição, não uma simples substituição.
A situação empresarial brasileira confirma que é preciso evitar tanto o tecnodeterminismo quanto a nostalgia do passado. Em maio de 2026, havia cerca de 9 milhões de CNPJs negativados, com R$ 229,9 bilhões em dívidas, segundo a Serasa Experian. A empresa relacionou o ambiente a juros elevados, crédito restrito e dificuldades de recomposição de caixa.
Ou seja, os sinais de crise empresarial não podem ser atribuídos simplesmente ao comércio eletrônico. O que existe, de fato, é uma dupla transição de natureza financeira e tecnológica.
Empresas tradicionais precisam enfrentar custo elevado do capital justamente quando necessitam investir em tecnologia, dados, comércio eletrônico, inteligência artificial e novos canais de relacionamento com o consumidor. A hiperconectividade está acelerando uma inédita seleção empresarial.
Empresas capazes de adaptar produtos, preços, logística e relacionamento ao ambiente digital podem ganhar escala. As que não conseguem adaptar-se ficam mais vulneráveis.
É a nova questão social que emerge, com o trabalhador empurrado por essa transformação sem estar sempre nas mesmas condições. O motorista assume combustível, manutenção e depreciação do veículo, ao passo que o entregador arca com equipamentos e riscos. O freelancer disputa globalmente clientes e preços, enquanto o criador de conteúdo depende das regras de monetização das plataformas e o vendedor on-line paga comissões e depende dos algoritmos de exposição.
A nova autonomia pode coexistir com uma nova dependência. Por isso, a questão social da sociedade hiperconectada não será apenas a velha relação entre capital e trabalho dentro da fábrica. Será também a relação entre trabalhador, plataforma, algoritmo e dados.
E aqui surge um desafio decisivo para as estatísticas oficiais. Não basta saber se alguém está empregado. É preciso saber quantas atividades realiza, quantas horas trabalha, quanto recebe de cada fonte, quais plataformas utiliza, quais custos assume e qual parcela de sua renda depende da economia digital.
Uma pessoa pode ser motorista pela manhã, vender produtos à tarde, produzir conteúdo à noite e prestar serviços remotamente no fim de semana. Na estatística tradicional, não se trata simplesmente de uma pessoa “ocupada”.
Para compreender a sociedade hiperconectada, isso é insuficiente. A unidade básica de análise precisa começar a migrar do emprego para a atividade econômica.
Isso porque a economia digital não implica, necessariamente, o fim do trabalho. O que está ocorrendo é algo mais profundo, a partir do deslocamento do balcão para a plataforma, da empresa para a rede, da jornada única para múltiplas atividades e do local físico para o ambiente digital.
Quando uma loja fecha, o consumo não desaparece necessariamente, pois pode migrar para a internet. Quando um emprego desaparece, o trabalho também não desaparece obrigatoriamente, pois pode reaparecer na logística, no aplicativo, na rede social, no comércio eletrônico ou no trabalho remoto.
A questão decisiva seria outra: quem captura os ganhos dessa transformação?
Se a produtividade digital for apropriada exclusivamente pelas grandes plataformas, enquanto trabalhadores assumem riscos e custos, a hiperconectividade poderá ampliar desigualdades. Se houver qualificação, concorrência, proteção social, regulação e distribuição dos ganhos de produtividade, a mesma tecnologia poderá produzir uma sociedade de serviços mais dinâmica e inclusiva.
Há ainda uma ironia da era digital: quanto mais informação circula, maior pode ser a velocidade da desinformação. A crise empresarial brasileira já foi acompanhada por notícias falsas sobre supostas falências e demissões de empresas que continuavam operando. Isso torna ainda mais importante a existência de estatísticas oficiais capazes de separar transformação real de narrativa viral.
No século XX, a estatística precisava acompanhar a sociedade industrial. No século XXI, precisa acompanhar a sociedade de serviços hiperconectada.
O grande desafio não é descobrir se a inteligência artificial, o comércio eletrônico ou as plataformas destruirão empregos. É descobrir que trabalho está desaparecendo, que trabalho está nascendo, quanto ele paga, quem controla sua organização e como os ganhos da revolução digital serão distribuídos.
Essa é a nova questão social do Brasil.
Referências bibliográficas
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STANDING, Guy. The precariat: the new dangerous class. London: Bloomsbury Academic, 2011.
FOTO: PIXABAY
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/do-balcao-ao-algoritmo-a-economia-digital-e-a-nova-sociedade-de-servicos-hiperconectada/