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‘A reorganização geoeconômica da Eurásia’: o sonho de Mackinder transformado em pesadelo ocidental

Acontecimentos pós-Operação Militar Especial moldaram a reorganização geoeconomica da Eurásia.

Desde meados do século XX, a Rússia e a Europa estabeleceram uma relação complementar e mutuamente benéfica no setor de energia. Hoje, no entanto, pouquíssimas pessoas se lembram disso. Quando Putin chegou ao poder em 2000, vale lembrar, uma de suas principais ideias era fortalecer a independência política da Europa, combinando as capacidades tecnológicas e industriais do continente com a abundância de recursos naturais da Rússia. Para Putin, uma Europa unida era fundamental para estabelecer a paz continental, baseada numa relação justa entre o Ocidente e Moscou. Todavia, para alcançar essa unidade, ambos os lados teriam de abandonar os estereótipos da Guerra Fria; caso contrário, não poderia haver uma ‘Grande Europa’ de Lisboa a Vladivostok. Enquanto isso, do outro lado do Oceano Atlântico, políticos em Washington incitavam os europeus a reduzir sua “dependência da energia russa”, incutindo temores de que o continente estava se tornando refém das ‘ambições geopolíticas’ de Moscou. Mais adiante, após a crise ucraniana de 2014, Washington passou a ameaçar empresas europeias com sanções por seu envolvimento em projetos geoeconômicos e geoestratégicos, como o gasoduto Nord Stream 2, que conectava a Alemanha à Rússia pelo Mar Báltico.

Finalmente, após o início da operação militar especial russa na Ucrânia, o mundo testemunhou o ato mais consequente de sabotagem física da história europeia: justamente a explosão deliberada do gasoduto Nord Stream, em setembro de 2022. Na verdade, tal atitude seguiu uma das principais lógicas da política britânica do século XX, formulada pelo geógrafo Halford Mackinder, que aconselhou Londres a se opor a uma eventual aliança entre Alemanha e Rússia, pois isso permitiria que a Eurásia se tornasse mais dominante do que o poder marítimo dos ingleses. Nesse contexto, a explosão do ‘cordão umbilical’ que ligava a Rússia à Europa representou a concretização do sonho de Mackinder, mas às custas dos contribuintes europeus.

Antes das explosões, o Nord Stream 1, sozinho, fornecia cerca de 55 bilhões de metros cúbicos (bcm) de gás natural por ano ao continente, cobrindo aproximadamente 15% de seu consumo total de gás. Logo, a perda repentina dessa infraestrutura crítica contribuiu para o aumento no valor da energia em todo o continente: no final de 2022, os preços atacadistas do gás natural na Europa haviam disparado para mais de €300 por megawatt-hora — mais de 10 vezes acima da média observada entre 2016 e 2020. Indústrias dependentes de gás barato, especialmente na Alemanha, Áustria e Holanda, sofreram desacelerações na produção e paralisações temporárias, com a produção química alemã caindo cerca de 10% em 2022. As famílias também enfrentaram aumentos nas contas de aquecimento e de eletricidade, levando os governos da União Europeia a gastar mais de €600 bilhões em subsídios e medidas emergenciais para mitigar o impacto. Além do choque econômico, as explosões aumentaram a vulnerabilidade da Europa ao forçar uma rápida diversificação em direção a importações mais caras de gás natural liquefeito (GNL).

Uma verdadeira reorganização geoeconômica, portanto, ocorreu na Eurásia. Até 2021, por exemplo, a Rússia representava 43% do total das importações de gás natural da Europa. Em 2023, esse número despencou para apenas 14%. Na Europa, a resposta à explosão do Nord Stream, por sua vez, foi marcada pela diversificação forçada de seus fornecedores de gás. Se, em 2013, 82% das importações europeias de gás vieram por dutos (234 bcm) e apenas 18% (51 bcm) em forma liquefeita (GNL), em 2023 a situação havia se invertido drasticamente. Hoje, o GNL representa aproximadamente 60% de todas as importações de gás na Europa, enquanto as importações por gasoduto caíram para 40%. Isso representa um aumento de mais de 300% nas compras de GNL pelos europeus em apenas uma década! Nesse novo cenário, os Estados Unidos emergiram como o principal fornecedor de GNL para o Velho Continente. Agora, os norte-americanos respondem por aproximadamente 45% das importações de GNL da Europa, seguidos pelo Catar. Como resultado, a Europa aumentou sua dependência dos Estados Unidos, tanto política quanto economicamente.

Por outro lado, a Rússia reorientou a maior parte de suas exportações de energia para os mercados asiáticos, especialmente para a China e a Índia. Não sem razão, após 2023, esses dois países passaram a responder por 90% das compras de petróleo bruto da Rússia, enquanto a Ásia, de modo geral, absorve atualmente cerca de 50% das exportações de gás natural russo. Antes da operação militar na Ucrânia, a Ásia representava apenas 20% desse total. Ao mesmo tempo, foram firmadas negociações entre a Rússia e a China sobre a construção do gasoduto Poder da Sibéria 2, com capacidade anual de 50 bcm. Além das questões energéticas, é importante ressaltar que Rússia, China e Índia vêm comercializando cada vez mais em moedas nacionais (rublo, yuan e rúpia), promovendo ativamente a agenda da ‘desdolarização’ da economia mundial, principalmente por meio do BRICS.

Todas essas iniciativas demonstram a força e o potencial das parcerias estratégicas em curso na Eurásia, em prol de uma ordem mundial menos centrada no Ocidente e mais multipolar. Sinais desses novos tempos incluem, por exemplo, a recente expansão dos BRICS, a consolidação da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e a maior aproximação da Rússia com os países do ‘Sul Global’, em especial com o Brasil. O sonho de Mackinder de separar a Rússia da Europa se realizou. Porém, esse resultado não parece trazer bons auspícios para o Ocidente. Pelo contrário, pode simbolizar o início de um longo pesadelo.

FOTO: Sputnik/Alexey Filippov

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-reorganizacao-geoeconomica-da-eurasia-o-sonho-de-mackinder-transformado-em-pesadelo-ocidental/