Stephen Walt afirma que política externa dos EUA enfraqueceu aliados, comprometeu liderança tecnológica e ampliou espaço global para Pequim.
247 – O professor de Harvard Stephen M. Walt, especialista em relações internacionais e colunista, afirmou que subestimou a impulsividade, os erros estratégicos e a incompetência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na condução da política externa americana. As declarações foram publicadas originalmente pela RT Brasil, em análise sobre os impactos da atual estratégia de Washington no fortalecimento da China.
Segundo Walt, havia a expectativa de que integrantes do governo considerados mais duros em relação a Pequim, como o secretário de Estado Marco Rubio e o subsecretário de Defesa para Assuntos Políticos, Elbridge Colby, ajudassem a manter os Estados Unidos focados em conter a expansão chinesa na Ásia. No entanto, o acadêmico reconheceu que sua avaliação inicial estava equivocada diante do rumo tomado pela Casa Branca.
“O consenso bipartidário no Capitólio manteria o poder americano suficientemente focado em ajudar nossos aliados asiáticos a conter a China”, confessou o professor ao rever suas análises anteriores.
Cortes na ciência e avanço chinês
Walt avalia que, desde 2025, o governo Trump vem promovendo um enfraquecimento estrutural da capacidade científica dos Estados Unidos. Segundo ele, cortes orçamentários, demissões e confrontos com universidades criaram um cenário que favorece diretamente o avanço tecnológico chinês.
O professor classificou essa política como uma espécie de “desarmamento unilateral” diante da disputa global por inovação. Na visão dele, os Estados Unidos estão abandonando setores estratégicos, como energias limpas, baterias avançadas e veículos elétricos, ao priorizar combustíveis fósseis.
Para Walt, essa mudança compromete justamente as áreas nas quais Pequim vem consolidando liderança internacional. A China atualmente ocupa posição dominante em cadeias produtivas ligadas à transição energética, especialmente em minerais críticos, baterias e produção de veículos elétricos.
Tarifas fracassaram e ampliaram desgaste com aliados
Outro ponto duramente criticado pelo acadêmico foi a política tarifária implementada por Trump contra a China e outros países. Segundo ele, as medidas foram arbitrárias, mal executadas e incapazes de revitalizar a indústria manufatureira americana.
Walt destacou que a estratégia sofreu um revés importante quando Pequim restringiu exportações de minerais de terras raras, essenciais para diversos setores tecnológicos e industriais.
Na avaliação do professor, além de ilegais, as tarifas acabaram produzindo ressentimento entre aliados históricos dos Estados Unidos. Isso porque Washington passou a pressionar parceiros comerciais a investir em território americano sob ameaça econômica, enfraquecendo economias aliadas e deteriorando relações diplomáticas.
China amplia influência internacional
O especialista também argumenta que o afastamento dos Estados Unidos de organismos internacionais abriu espaço para que a China ampliasse sua presença global e influenciasse normas multilaterais.
Segundo Walt, a ausência diplomática americana transmite ao mundo uma mensagem de desinteresse em cooperação internacional, cenário que favorece diretamente Pequim.
Ele afirma ainda que empresas americanas podem sofrer consequências futuras caso passem a operar sob regulamentações globais definidas sem participação ativa dos Estados Unidos.
Além disso, Walt aponta que a falta de embaixadores em diversos países e os atritos recentes com parceiros estratégicos, como a Índia, aumentaram a percepção de fragilidade diplomática de Washington na Ásia.
Guerra no Irã desviou foco estratégico
Na análise do professor de Harvard, a crise envolvendo o Irã se transformou em uma grande distração estratégica para os Estados Unidos. Segundo ele, Trump prometeu concentrar esforços na contenção da China, mas acabou reproduzindo o padrão de governos anteriores ao voltar suas atenções para o Oriente Médio.
Walt considera que a responsabilidade pela situação recai diretamente sobre Trump, embora admita que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também tenha participação relevante no agravamento das tensões.
O acadêmico afirma que a mobilização militar no golfo Pérsico enfraqueceu a posição dos Estados Unidos na Ásia e gerou desconfiança entre parceiros regionais. Ele também criticou a forma improvisada como a guerra contra o Irã teria sido planejada e executada.
Segundo Walt, aliados históricos dos EUA não foram consultados adequadamente, tampouco foram consideradas as consequências econômicas e geopolíticas que poderiam sofrer.
Entre os possíveis impactos globais ignorados pela Casa Branca, o professor citou o aumento dos preços dos combustíveis e a redução das perspectivas de crescimento econômico internacional.
“A China pode acabar se impondo”
Apesar das críticas contundentes, Walt afirmou que ainda acredita que os Estados Unidos possuem mais poder estrutural do que a China. No entanto, demonstrou preocupação com a qualidade da liderança política americana.
“É difícil para mim dizer tudo isso, porque o derrotismo pode se transformar em uma profecia autorrealizável, e não quero dar a entender que tudo está perdido e que provavelmente a China acabará se impondo”, declarou.
Mesmo assim, ele ressaltou que preferiria “jogar com a mão dos Estados Unidos” em vez da chinesa, mas lamentou que Washington esteja sendo conduzido por alguém que, segundo ele, não compreende plenamente “as regras do jogo”.
Walt relembrou ainda que, em análises publicadas em 2023 e aprofundadas em 2025, sustentava que os temores sobre uma hegemonia chinesa eram exagerados. Na época, argumentava que coalizões regionais tenderiam a impedir qualquer domínio absoluto de Pequim na Ásia.
Agora, porém, o professor sugere que os próprios erros estratégicos dos Estados Unidos podem estar acelerando justamente o cenário que Washington pretendia evitar.
FOTO: Brasil 247
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/academico-de-harvard-aponta-que-erros-de-trump-consolidaram-a-ascensao-da-china