Relatório da Casa Branca coloca o país entre as economias latino-americanas mais integradas a Pequim e revela preocupação de Washington com a expansão comercial chinesa.
247 – As agressões comerciais promovidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brasil ocorrem em um momento de avanço da presença econômica chinesa na América Latina e ajudam a evidenciar a perda relativa de espaço de Washington na região. Um documento da própria Casa Branca coloca o Brasil entre as economias com forte integração comercial com a China e aponta dificuldades para a estratégia norte-americana de tarifar produtos chineses.
Segundo informações divulgadas pela RT, o Brasil foi classificado no chamado “Tier 2” do relatório elaborado pelas autoridades norte-americanas, categoria que reúne países com elevado grau de integração comercial com Pequim. O documento analisa como as cadeias produtivas internacionais podem dificultar a aplicação das tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos chineses.
O Brasil aparece ao lado de outras importantes economias latino-americanas em uma região que passou a ocupar posição estratégica na disputa comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China.
América Latina ganha peso nas cadeias ligadas à China
O relatório identifica Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Peru como integrantes de um chamado “corredor latino-americano”, caracterizado pelo redirecionamento de mercadorias pelos oceanos Pacífico e Atlântico, além de atividades de armazenamento, processamento e montagem regional.
A preocupação de Washington demonstra a crescente complexidade das relações comerciais entre a China e a América Latina.
Com Pequim consolidada como um dos principais parceiros comerciais de vários países da região, medidas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos contra produtos chineses passam a esbarrar em cadeias internacionais cada vez mais integradas.
O próprio enquadramento do Brasil entre os países que merecem atenção especial das autoridades norte-americanas revela o peso adquirido pela relação econômica sino-brasileira.
Casa Branca investiga rotas comerciais
O documento norte-americano cita práticas como “reetiquetagem”, “reembalagem” e declarações incorretas de origem entre os mecanismos que poderiam ser utilizados para obter tratamentos tarifários diferenciados.
O relatório, porém, reconhece que mudanças nas cadeias comerciais também podem ter causas legítimas e aponta a necessidade de investigações adicionais antes de concluir que determinadas operações constituem tentativas de contornar as tarifas.
A preocupação central de Washington é diferenciar processos produtivos efetivamente realizados em terceiros países de simples alterações de origem ou de rotas comerciais destinadas a reduzir o impacto das tarifas norte-americanas.
Ao todo, 40 países são mencionados pelo documento no contexto de práticas ou alterações comerciais que podem dificultar a aplicação das barreiras impostas pelos Estados Unidos.
Integração com a China desafia estratégia de Trump
A classificação brasileira mostra um dos limites da estratégia comercial do governo Trump.
A expansão das relações da China com economias do Sul Global criou redes de comércio, investimentos e produção que tornam mais difícil isolar Pequim por meio de tarifas aplicadas unilateralmente por Washington.
No caso brasileiro, a China ocupa posição central no comércio exterior e ampliou sua presença em diferentes segmentos da economia, enquanto empresas chinesas passaram a realizar investimentos em setores industriais, de infraestrutura, energia, tecnologia e mobilidade elétrica.
Esse movimento ocorre paralelamente a uma política norte-americana marcada por pressões comerciais contra o Brasil, ampliando o contraste entre as estratégias das duas potências em relação ao país.
Enquanto Washington recorre a instrumentos tarifários e pressões comerciais, empresas chinesas vêm buscando ampliar negócios e investimentos no mercado brasileiro.
Presença chinesa chega também ao mercado de consumo brasileiro
Um exemplo da crescente exposição de marcas chinesas no Brasil aparece também no futebol.
De acordo com as informações divulgadas pela RT, a fabricante chinesa de veículos elétricos BYD está entre as empresas que negociam com o São Paulo Futebol Clube os direitos de nome do estádio do Morumbi.
O clube mantém atualmente contrato com a Mondelez, válido até 2026, no valor de R$ 25 milhões anuais, totalizando R$ 75 milhões em três anos.
A renovação do acordo é considerada improvável, enquanto a BYD aparece entre as empresas interessadas no novo contrato. A associação da marca chinesa ao estádio chegou a gerar a possibilidade do nome informal “MorumBYD”.
Embora seja uma negociação específica do setor esportivo, o episódio ilustra o crescimento da presença comercial de empresas chinesas no cotidiano econômico brasileiro.
Brasil vira peça central da disputa entre as duas potências
A preocupação expressa pela Casa Branca com a integração brasileira às cadeias comerciais ligadas à China revela que a disputa entre Washington e Pequim deixou de ocorrer apenas de maneira bilateral.
Brasil e outros países latino-americanos tornaram-se peças relevantes na reorganização das cadeias globais de produção e comércio.
A estratégia tarifária do governo Trump enfrenta, assim, uma realidade econômica na qual a China aprofundou seus vínculos com mercados que historicamente estiveram sob forte influência dos Estados Unidos.
Ao colocar o Brasil entre as economias mais integradas comercialmente a Pequim, o próprio relatório norte-americano expõe a dimensão da transformação em curso na América Latina e a dificuldade crescente de Washington para preservar sua antiga predominância econômica na região.
FOTO: Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/economia/agressao-de-trump-contra-o-brasil-confirma-perda-de-espaco-para-a-china/