Foi justamente por compreender essa assimetria que Lula respondeu da forma mais inteligente possível aos insultos do presidente argentino: com desprezo.
A crise diplomática provocada por Javier Milei durante sua passagem pelo Brasil não pode ser compreendida apenas como mais um episódio do repertório histriônico do presidente argentino. Seus ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelam também um desconforto mais profundo: a distância que hoje separa Brasil e Argentina em termos de soberania econômica.
Quando Milei insulta Lula, não está apenas atacando um adversário ideológico. Está confrontando o líder de um país que construiu, ao longo das últimas duas décadas, os instrumentos necessários para preservar sua autonomia diante das turbulências internacionais. A agressividade do presidente argentino expressa, em alguma medida, a frustração de quem governa uma economia extremamente vulnerável e dependente de decisões tomadas fora de suas fronteiras.
Essa diferença começou a ser construída ainda no primeiro governo Lula. Ao assumir a Presidência, em 2003, Lula encontrou um Brasil que carregava as marcas da dependência financeira externa. Herdou do governo Fernando Henrique Cardoso uma economia submetida aos programas do Fundo Monetário Internacional. Em vez de aceitar essa condição como permanente, adotou uma estratégia clara: fortalecer as contas externas, acumular reservas internacionais e libertar o país da tutela do FMI.
A decisão de quitar antecipadamente a dívida com o Fundo, em 2005, teve um enorme significado político e econômico. O Brasil deixou de ser um país que precisava pedir autorização para conduzir sua política econômica e passou a dispor de maior margem de decisão sobre seu próprio destino.
Ao final do segundo mandato de Lula, em 2010, o país acumulava mais de US$ 350 bilhões em reservas internacionais. Não se tratava de um simples indicador contábil. Era um seguro contra crises financeiras, ataques especulativos e choques cambiais. Esse colchão de liquidez permitiu ao Brasil enfrentar períodos de enorme instabilidade sem perder o controle sobre sua política econômica.
Inclusive durante os anos do governo Jair Bolsonaro, marcados por graves erros na condução econômica e institucional, o país preservou uma estabilidade macroeconômica que seria muito mais difícil sem esse patrimônio acumulado ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores. As reservas internacionais, ampliadas durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, continuaram funcionando como um escudo contra crises externas e contra movimentos abruptos do mercado financeiro.
A situação argentina é exatamente a oposta. Sem reservas suficientes e profundamente endividada, a Argentina voltou a depender do Fundo Monetário Internacional para financiar sua sobrevivência econômica. A visita recente da diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, a Buenos Aires evidenciou essa realidade. Mais do que uma parceira financeira, a instituição tornou-se um ator com enorme influência sobre os rumos da política econômica argentina.
É difícil falar em plena soberania quando decisões fundamentais dependem da aprovação de credores internacionais.
Nesse contexto, Javier Milei aparece como um dirigente cuja margem de manobra é extremamente reduzida. Sua estratégia internacional consiste em buscar proteção política em Washington e demonstrar lealdade absoluta ao trumpismo. Seus ataques permanentes ao Brasil, à China e aos projetos de integração regional não decorrem apenas de convicções ideológicas. Também refletem a necessidade de permanecer alinhado ao único centro de poder capaz de sustentar seu projeto político fascista em um país economicamente fragilizado.
O contraste com o Brasil é evidente. Enquanto Lula trabalha para ampliar a inserção internacional do país por meio dos BRICS, da integração sul-americana e de uma política externa voltada ao multilateralismo, Milei aposta numa vinculação quase exclusiva aos interesses dos Estados Unidos e, em especial, ao universo político de Donald Trump.
Foi justamente por compreender essa assimetria que Lula respondeu da forma mais inteligente possível aos insultos do presidente argentino: com desprezo.
Responder no mesmo tom significaria conferir a Milei a relevância política que ele procura desesperadamente obter. O silêncio irônico de Lula – e a mensagem “quem é esse cara?” – transmite uma mensagem mais poderosa do que qualquer troca de ofensas: o Brasil não precisa transformar a política externa em espetáculo, porque fala a partir de uma posição de estabilidade, autonomia e confiança.
Isso não significa hostilidade em relação à Argentina. Pelo contrário. O Brasil tem interesse estratégico em uma Argentina forte, estável e soberana. Os laços entre os dois povos são profundos demais para serem comprometidos pelas circunstâncias políticas de um governo fascista e passageiro. A integração econômica, a cooperação industrial e a construção de uma América do Sul mais forte continuam sendo objetivos permanentes da diplomacia brasileira.
Os governos passam. As nações permanecem.
Por isso, a melhor resposta aos ataques de Milei não é alimentar a polarização, mas continuar trabalhando para fortalecer uma parceria de longo prazo com o povo argentino, na expectativa de que, no futuro, os dois países possam voltar a compartilhar um projeto comum de desenvolvimento, autonomia e integração regional.
A verdadeira diferença entre Brasil e Argentina, hoje, não está no tamanho de suas economias nem na retórica de seus presidentes. Está no grau de soberania que cada país conseguiu preservar. E soberania econômica, como a história demonstra, não se improvisa: constrói-se com planejamento, reservas, instituições sólidas e independência para decidir o próprio destino.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/ao-contrario-do-brasil-de-lula-a-argentina-de-milei-nao-tem-soberania-economica/