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Brasil se torna o maior importador de carros chineses do mundo após salto nas vendas de eletrificados

País importou US$ 5,2 bilhões em veículos da China nos primeiros cinco meses de 2026, desbancando mercados como Rússia e Bélgica.

247 – O Brasil se tornou, em 2026, o principal importador de automóveis chineses do mundo. Entre janeiro e maio deste ano, o país movimentou US$ 5,2 bilhões em aquisições de veículos convencionais e eletrificados produzidos pela indústria do país asiático, desbancando compradores tradicionais como Rússia (US$ 5 bilhões) e Bélgica (US$ 3,8 bilhões), segundo dados da alfândega chinesa divulgados pelo Valor Econômico.

O resultado representa uma aceleração expressiva do comércio bilateral no segmento automotivo. O montante importado de janeiro a maio mais que dobrou na comparação com os US$ 2,1 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior — uma disparada de 146,9%. Até então, o mercado brasileiro ocupava a sexta posição no ranking global de compradores da China.

Avanço do segmento de elétricos e híbridos

A liderança brasileira é impulsionada diretamente pelo avanço dos modelos eletrificados (puros e híbridos). Dos US$ 5,2 bilhões importados nos primeiros cinco meses de 2026, US$ 4,5 bilhões correspondem exclusivamente a veículos dessa categoria. Somente entre os meses de abril e maio, as compras de eletrificados chineses pelo Brasil alcançaram US$ 2,7 bilhões.

Com esse desempenho, o país assumiu também o topo global nas importações específicas do segmento elétrico e híbrido oriundo da China, à frente de Bélgica (US$ 3,8 bilhões) e Reino Unido (US$ 3,4 bilhões). O movimento reflete uma transformação estrutural no perfil do mercado nacional: a participação de modelos elétricos e híbridos no total das importações de veículos chineses para o Brasil subiu de 33% em 2021 para 87% em 2025.

Considerando o fechamento do primeiro semestre, levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), aponta que as compras de veículos chineses somaram US$ 5,35 bilhões. O valor é mais do que o dobro do volume total importado pelo Brasil de toda a França (US$ 2,6 bilhões) no mesmo período.

No detalhamento por categoria, os modelos híbridos plug-in representaram mais da metade do total, somando US$ 2,79 bilhões. No conjunto das importações brasileiras vindas da China durante o semestre, os veículos eletrificados passaram a responder por cerca de 15% de todas as mercadorias trazidas do país asiático.

Antecipação a tarifas e atratividade do produto

Especialistas explicam que o pico recente de aquisições reflete a movimentação das importadoras para se antecipar ao cronograma de recomposição das alíquotas do Imposto de Importação sobre veículos elétricos e híbridos, que subiram progressivamente de patamares de 25% e 30% para a alíquota de 35%.

“Houve intensificação das importações para escapar da tarifa. A partir de agora, deve ocorrer alguma acomodação, à medida em que as vendas no mercado doméstico sejam atendidas pelo estoque formado”, explica Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC. “Por outro lado, não acredito que haverá queda forte, uma vez que há interesse alto do brasileiro, inclusive das classes média e média alta. O carro elétrico virou um desejo de consumo, e carro elétrico se tornou sinônimo de carro chinês”.

Paralelamente ao fator tributário, analistas destacam a estratégia agressiva das montadoras chinesas para expandir suas vendas externas e compensar o desaceleramento do consumo interno na China, além do domínio tecnológico alcançado pelas empresas do país na mobilidade elétrica — superando concorrentes tradicionais das indústrias norte-americana, europeia e asiática.

Impacto nas vendas internas e na produção nacional

O apetite do consumidor brasileiro se traduz em números no varejo nacional. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o país vendeu 215.023 veículos eletrificados leves no primeiro semestre de 2026, o que representa um salto de 125% em relação às 95.493 unidades comercializadas em igual período do ano passado. O ritmo de crescimento da categoria é seis vezes superior ao avanço de 19,4% registrado pelo setor automotivo geral no país, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

A participação dos eletrificados nas vendas totais do mercado doméstico saltou de 7,7% para 18% no período. Os dados da Anfavea mostram ainda que o emplacamento de modelos 100% elétricos subiu 193% no primeiro semestre, passando de 31 mil para 91 mil unidades em relação ao ano anterior, enquanto o segmento de híbridos plug-in cresceu 90% e o de híbridos convencionais teve alta de 81%.

Pelo lado da oferta global, a desaceleração do mercado interno chinês reforçou o direcionamento para o comércio exterior. O Produto Interno Bruto (PIB) da China no segundo trimestre teve expansão anual de 4,3%, abaixo das projeções do mercado, pressionado pelo consumo moderado de famílias e governos locais. Em contrapartida, as exportações gerais da China subiram 27% em junho, enquanto as exportações globais de veículos chineses deram um salto de 71,2%, atingindo 1,06 milhão de unidades no mês, segundo dados divulgados pelo Financial Times. A BYD, por exemplo, vendeu 175 mil veículos para fora do país no período — alta de 95% —, fazendo das vendas externas 43% de sua produção total.

Economista da Bradesco Asset Management (Bram), Fabiana D’Atri pondera que o movimento em direção ao Brasil tem caráter estrutural. “Para o Brasil e outros mercados, à medida que produtos são testados e aprovados pela população, vira uma situação de quanto mais tem, mais vai ter. Neste sentido, não vejo freada na entrada de veículos chineses, é uma mudança estrutural. Pode haver queda com a nacionalização da produção, mas sabemos que este é um processo lento”, analisa.

Ao menos oito montadoras da China já produzem ou anunciaram planos para fabricar veículos no território brasileiro, por meio de estruturas próprias ou parcerias. Contudo, como o ecossistema chinês reúne mais de uma centena de fabricantes, a economista pontua que nem todas as marcas se instalarão industrialmente no país. “Alguns produtos, mesmo com as novas tarifas, manterão preços vantajosos e qualidade que não se encontra aqui, ainda que o preço fique menos convidativo. O consumidor pode optar por pagar a mais pelo pacote, e as fabricantes também podem oferecer desconto para se manter competitivas no mercado”.

Políticas públicas e balança comercial

A imposição da tarifa de 35% a partir do início de julho veio acompanhada de cotas com alíquota zero para a importação de veículos semimontados (SKD) e desmontados (CKD) de até US$ 463 milhões. Embora a renovação de cotas tenha gerado críticas da Anfavea, analistas veem a medida como parte do esforço de atração de investimentos produtivos.

“Era algo esperado e uma via de mão dupla. O governo mantém aberta uma porta – pequena – para a importação como forma de dar mais tempo para as chinesas se estabelecerem no país e, futuramente, trazer sua produção para cá”, avalia João Carmo, da consultoria 4intelligence. Ele destaca ainda que programas governamentais como o Mover e iniciativas de incentivo à renovação de frotas direcionadas a taxistas e motoristas de aplicativo privilegiam a eficiência energética e alinham os estímulos à eletrificação.

A instalação das fábricas no país também mira o atendimento a mercados vizinhos na América Latina. “O país ainda é exportador para a Argentina, Colômbia e México, e as chinesas também têm interesse em acessar esses mercados”, conclui Carmo.

O surto nas importações chinesas pressionou o saldo comercial do setor automotivo brasileiro. A balança comercial de automóveis encerrou o primeiro semestre com um déficit recorde de US$ 5,32 bilhões — o maior da série histórica iniciada em 1997. As exportações brasileiras sofreram retração com a desaquecida demanda de parceiros regionais, enquanto as importações totais do setor atingiram US$ 7,79 bilhões. A fatia da China nesse volume importado saltou de 5% em 2021 para 72% no ano passado.

Sócio da consultoria BMJ, Welber Barral menciona ainda o desvio de comércio gerado pelo aumento das barreiras tarifárias aplicadas por economias desenvolvidas contra os eletrificados chineses. “Explica, até certo ponto, o desvio de comércio em direção ao mercado brasileiro, que permanece relativamente mais aberto que os demais”.

Barral acrescenta que tensões geopolíticas no Oriente Médio e a volatilidade no preço do petróleo no primeiro semestre elevaram pontualmente a atratividade dos elétricos frente aos combustíveis fósseis. D’Atri, por sua vez, ressalta que o apelo dos veículos chineses independe de choques pontuais: “O carro chinês tem vantagens competitivas que independem desse choque pontual. O desafio é outro: abastecimento e manutenção, mas estes também têm diminuído bastante. As empresas que começam a se estabelecer também acabam expandindo para o pós-venda e desenvolvendo parcerias locais com fornecedores”.

FOTO: Divulgação/Secom/BA

FONTE: https://www.brasil247.com/industria/brasil-se-torna-o-maior-importador-de-carros-chineses-do-mundo-apos-salto-nas-vendas-de-eletrificados/