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Bolsonarismo à luz do neofascismo emergente

O anticomunismo, as disputas culturais, a contestação de instituições e as narrativas de crise podem ser investigados como repertórios da extrema-direita.

É urgente aplicar o modelo teórico do artigo de Felix Schilk, The Metapolitics of Crises: How the New Right Weaponises Narratives to Mainstream Far-Right Ideology, publicado em 2025 na International Journal of Politics, Culture and Society (volume 39, 2026, pp. 223–244), a pesquisas acadêmicas, decisões institucionais e levantamentos brasileiros. Trata-se de uma extensão analítica: Schilk não investigou empiricamente o Brasil em seu artigo.

O caso brasileiro apresenta uma particularidade histórica: o anticomunismo já estava profundamente associado às disputas políticas do século XX, sobretudo à legitimação do golpe de 1964 e à retórica de defesa da ordem, da família e da religião. Décadas depois, o discurso anticomunista reapareceu combinado a temas culturais, educacionais e religiosos.

O cientista político Luis Felipe Miguel, no artigo O mito da ‘ideologia de gênero’ no discurso da extrema direita brasileira, demonstra como as expressões marxismo cultural e ideologia de gênero passaram a integrar o repertório político da direita radicalizada no Brasil. O estudo acompanha a aproximação entre o anticomunismo tradicional e a agenda moral conservadora, incluindo controvérsias sobre políticas educacionais e os discursos de integrantes do governo Bolsonaro.

À luz de Schilk, o processo pode ser interpretado como uma transformação de narrativas temáticas em um esquema abrangente: questões distintas passam a ser compreendidas como manifestações de uma suposta ameaça à civilização, à família e à soberania nacional. Há a aplicação das três narrativas ao Brasil.

Um aspecto importante é a narrativa de crise continuar mesmo depois de uma vitória eleitoral. A conquista do governo não elimina necessariamente o diagnóstico de decadência: novos responsáveis podem ser identificados no Judiciário, na imprensa, nas universidades ou em organizações internacionais. Isso corresponde à hipótese de Schilk de as narrativas serem suficientemente flexíveis para incorporar acontecimentos muito diferentes.

A experiência brasileira também permite observar a dimensão tecnológica da metapolítica. Um estudo publicado em 2026 na revista Galáxia, por Gilberto Scofield Júnior, Marco Schneider e Andressa Garcez, examinou os 50 conteúdos mais compartilhados em grupos bolsonaristas de WhatsApp durante as eleições de 2022 e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.

Os pesquisadores encontraram presença expressiva de teorias conspiratórias, falácias lógicas, recurso a falsas autoridades e seleção parcial de evidências. O estudo identificou 14 ocorrências de teorias conspiratórias e 12 classificações de falácias lógicas no material analisado.

Outra pesquisa, publicada em 2024 no International Journal of Public Opinion Research, analisou alegações de desinformação eleitoral compartilhadas por WhatsApp, Twitter e Kwai em 2022. Os autores observaram diferenças entre os públicos que encaminhavam conteúdos às organizações de checagem, evidenciando a complexidade da circulação de informações entre plataformas.

A contribuição dessas pesquisas para a aplicação do modelo de Schilk é mostrar como a repetição de interpretações semelhantes pode ocorrer em ambientes digitais distintos, sem depender exclusivamente de um centro único de comando.

Um exemplo particularmente documentado é a contestação da confiabilidade do sistema eletrônico de votação. Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2022, em razão de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em uma reunião com embaixadores realizada em julho de 2022. Segundo o TSE, o episódio difundiu acusações sem sustentação probatória contra o processo eleitoral e procurou deslegitimar suas instituições.

No modelo de Schilk, esse episódio pode ser examinado em três níveis: 1. a alegação concreta de risco de fraude; 2. a narrativa mais ampla de instituições supostamente capturadas; e 3. a possibilidade de a repetição dessas alegações consolidar uma comunidade de desconfiança institucional.

Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 representam outro marco. Em agosto de 2025, o STF informava que 1.190 pessoas haviam sido responsabilizadas pelos atos, entre condenações e acordos relativos a crimes de menor gravidade.

Esses fatos documentam ataques às instituições e consequências judiciais. A relação causal específica entre determinadas narrativas e o comportamento de cada participante, porém, exige investigação adicional.

O conceito de comunidade narrativa também é útil para examinar a circulação de interpretações políticas em ambientes religiosos. Entretanto, seria equivocado tratar as igrejas evangélicas como organizações uniformemente subordinadas a um projeto político.

Uma pesquisa recente da More in Common Brasil e do grupo Passagens, da UFRJ, analisou 7.456 transmissões de missas e cultos realizadas nos dois domingos anteriores ao primeiro turno das eleições de 2026. Celebrações com propaganda eleitoral foram 3,2% e celebrações com conteúdo cívico, 15,3%. São percentuais das celebrações transmitidas e analisadas, não de todos os cultos e missas realizados no país. O resultado indica a propaganda eleitoral explícita ter sido minoritária na amostra, enquanto mensagens sobre participação cívica e convivência democrática apareceram com maior frequência.

Os próprios pesquisadores alertam a amostra não ser representativa de todas as celebrações religiosas brasileiras. Também identificaram práticas políticas fora das transmissões, como conversas privadas e distribuição de material eleitoral.

Portanto, a existência de redes religiosas de pertencimento não implica adesão automática a uma comunidade narrativa de extrema-direita. A relação entre identidade religiosa, valores conservadores, sociabilidade local e comportamento eleitoral é mais complexa.

O cenário eleitoral de outubro de 2026 oferece um teste adicional para a hipótese de adaptação das narrativas. Segundo levantamento da Agência Lupa, divulgado em 15 de outubro e noticiado pela Folha de S.Paulo, entre as verificações de desinformação eleitoral, a participação das alegações sobre urnas eletrônicas caiu de 23,4% em 2022 para 7,5% em 2026.

Ao mesmo tempo, ganharam destaque conteúdos com invenção de apoios, rejeições, vantagens eleitorais ou pesquisas. Registrou-se a utilização de inteligência artificial em parte das verificações de imagens e falas manipuladas.  Esse resultado é compatível com a possibilidade de adaptação dos temas de desinformação a novas circunstâncias.

Contudo, ele não demonstra automaticamente a permanência de uma mesma narrativa ideológica subjacente. Para confirmar essa hipótese de Schilk no Brasil, seria necessário comparar sistematicamente os conteúdos de 2018, 2022 e 2026, identificando suas estruturas narrativas e seus circuitos de circulação.

A principal contribuição do artigo de Schilk é oferecer uma explicação para a continuidade de determinadas interpretações políticas apesar das mudanças de conjuntura. O mesmo esquema de ruptura, decadência e catástrofe pode ser aplicado a assuntos muito diferentes. Isso ajuda a compreender por qual razão a substituição de um tema por outro não implica necessariamente uma transformação profunda da visão de mundo que os articula.

O modelo apresenta, porém, três limites importantes quando aplicado ao Brasil.

O primeiro é a diferença entre narrativa e realidade material. Desigualdade, violência, precarização do trabalho, corrupção e deficiência dos serviços públicos são problemas possíveis de existir independentemente de sua exploração política. A análise do discurso não substitui o estudo de suas causas econômicas e institucionais.

O segundo é a diversidade interna dos campos políticos. Conservadorismo democrático, liberalismo econômico, religiosidade popular, populismo e extremismo autoritário não são conceitos intercambiáveis. A existência de preocupações morais conservadoras não basta para caracterizar um movimento como antidemocrático.

O terceiro é o problema da causalidade. O estudo de Schilk identifica mecanismos plausíveis de normalização ideológica, mas não estima o peso dessas narrativas diante de fatores como renda, escolaridade, segurança pública, identidade partidária, redes sociais e desempenho governamental.

Para aprofundar a investigação brasileira, seria útil combinar a análise qualitativa de discursos com pesquisas de opinião, estudos de redes digitais e dados longitudinais sobre comportamento político.

A leitura conjunta do artigo de Schilk e das pesquisas brasileiras permite formular uma hipótese de investigação. A permanência de determinados movimentos políticos depende não apenas de seus resultados eleitorais ou governamentais, mas da capacidade de manter comunidades com compartilhamento de interpretações recorrentes sobre a sociedade, seus conflitos e seu futuro.

No caso brasileiro, o anticomunismo, as disputas culturais, a contestação de instituições e as narrativas de crise podem ser investigados como repertórios da extrema-direita. Eles se sobrepõem e se transformam historicamente.

A pesquisa disponível oferece evidências de circulação dessas narrativas e de episódios concretos de desinformação e contestação institucional. Ainda não permite, entretanto, atribuir todos esses fenômenos a uma estratégia única, centralizada e homogênea.

A conclusão mais relevante de Schilk é epistemológica: a disputa política não ocorre apenas sobre fatos e políticas públicas, mas também sobre os esquemas de interpretação pelos quais as pessoas atribuem sentido aos fatos. Esse é o ponto de encontro entre a sociologia do conhecimento, a análise do discurso e uma abordagem da política inspirada na complexidade.

Uma agenda de pesquisa sobre o Brasil poderia partir da seguinte questão: como narrativas recorrentes de crise interagem com experiências reais de insegurança econômica, redes de pertencimento social, instituições democráticas e plataformas digitais para formar comunidades políticas duradouras? Essa formulação permite investigar o fenômeno sem reduzir o comportamento político a manipulação discursiva nem ignorar os efeitos concretos da comunicação ideológica.

FOTO: Flávio Bolsonaro

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/bolsonarismo-a-luz-do-neofascismo-emergente/