Em artigo no The Hindu, embaixador da China Xu Feihong apoia presidência indiana e defende protagonismo do Sul Global.
247 – A China defendeu o fortalecimento do BRICS ampliado como instrumento de cooperação econômica, defesa do multilateralismo e afirmação do Sul Global em um cenário internacional marcado por protecionismo, crises geopolíticas e disputas por influência.
A posição foi apresentada pelo embaixador chinês na Índia, Xu Feihong, em artigo publicado nesta segunda-feira (7) no jornal The Hindu e reproduzido pela Embaixada da China na Índia. O texto antecede a 18ª Cúpula do BRICS, marcada para os dias 12 e 13 de setembro de 2026, em Nova Délhi.
No artigo, intitulado “Aproveitar o ‘poder’ do BRICS para empoderar o mundo”, Xu afirmou que a China oferece “pleno apoio à Índia em sua presidência do BRICS” e está pronta para trabalhar com todos os membros e parceiros do bloco para “traçar em conjunto um plano para o desenvolvimento de alta qualidade de um BRICS maior”.
O diplomata estruturou sua defesa da cooperação do bloco a partir das cinco letras da palavra “Power”, em inglês: princípio, abertura, ganha-ganha, motor e responsabilidade. Para Xu, esses eixos devem orientar uma nova etapa de atuação do BRICS ampliado em meio à ascensão coletiva dos países do Sul Global.
BRICS contra hegemonia e protecionismo
Xu afirmou que o mundo atravessa uma “transformação acelerada sem precedentes em um século”, marcada pelo avanço da multipolaridade, pela globalização econômica e pela maior presença internacional dos países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, segundo ele, “o hegemonismo e a política de poder estão se tornando cada vez mais desenfreados”.
Na avaliação do embaixador, o BRICS deve atuar como uma força de paz e desenvolvimento, sustentada pelos princípios da Carta das Nações Unidas. Ele citou a igualdade soberana, a não interferência em assuntos internos e a solução pacífica de controvérsias como pilares que devem orientar o bloco.
“Como uma força importante para a paz e o desenvolvimento mundiais, o BRICS deve defender resolutamente os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e salvaguardar as normas básicas das relações internacionais, incluindo a igualdade soberana, a não interferência nos assuntos internos e a solução pacífica de disputas”, escreveu.
Xu acrescentou que o bloco deve impedir que o mundo volte “à lei da selva, em que os fortes atacam os fracos”. O diplomata também vinculou a agenda do BRICS às propostas apresentadas pelo presidente chinês, Xi Jinping, como a construção de uma “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade” e iniciativas globais nas áreas de segurança e governança.
Comércio aberto e defesa da OMC
Outro ponto central do artigo é a defesa de uma economia global aberta. Xu afirmou que a recuperação econômica mundial segue frágil e que o protecionismo avança, impulsionado por países que erguem barreiras tarifárias, buscam o desacoplamento econômico e interrompem cadeias de suprimento.
“Deve-se reconhecer que a globalização econômica é uma tendência inevitável da história”, afirmou o embaixador.
Para ele, o BRICS deve defender o sistema multilateral de comércio, com a Organização Mundial do Comércio (OMC) em seu centro, e preservar princípios como o tratamento de nação mais favorecida.
“O BRICS deve defender o sistema multilateral de comércio, tendo a Organização Mundial do Comércio (OMC) em seu centro, salvaguardar os princípios básicos da OMC, como o tratamento de nação mais favorecida, e resistir a todas as formas de protecionismo”, escreveu.
Xu também propôs o aprofundamento da cooperação em energia, recursos minerais, infraestrutura, cadeias industriais e cadeias de suprimento, com o objetivo de preservar uma economia mundial aberta e reduzir vulnerabilidades externas.
Moedas locais, desenvolvimento e segurança alimentar
Na área econômica e financeira, o embaixador chinês defendeu que o desenvolvimento permaneça no centro da agenda do BRICS. Ele afirmou que o bloco deve acelerar a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e fortalecer o debate sobre a agenda global pós-2030.
Xu também sustentou que os países do Sul Global devem participar da cooperação internacional “em pé de igualdade” e compartilhar os resultados do desenvolvimento. Para isso, defendeu maior coordenação macroeconômica entre os integrantes do BRICS e a adoção de medidas para facilitar comércio e investimentos.
“Devemos impulsionar a cooperação em moedas locais e pagamentos transfronteiriços e melhorar a rede de segurança financeira, de modo a ampliar a capacidade de enfrentar riscos externos”, escreveu.
O embaixador também tratou dos desafios globais ligados à energia e aos alimentos. Segundo ele, os países do BRICS devem trabalhar para construir um sistema agrícola e alimentar “mais resiliente e sustentável”, capaz de responder a choques externos e garantir maior segurança aos países em desenvolvimento.
BRICS como motor do crescimento global
Xu destacou o peso econômico e demográfico do BRICS ampliado. Segundo ele, os países do bloco respondem por quase metade da população mundial, cerca de 30% da produção econômica global e um quinto do comércio internacional.
O diplomata afirmou ainda que o BRICS reúne grandes recursos naturais, importantes bases industriais e mercados de grande escala. Com base em estimativas de organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, ele disse que o crescimento do BRICS ampliado deverá ser “quase três vezes mais rápido que o do G7 até 2028”.
Para Xu, esse desempenho reforça o papel do bloco como motor do crescimento mundial. Ele defendeu que os países do BRICS usem suas vantagens complementares para ampliar a cooperação em negócios, finanças, ciência e tecnologia.
O embaixador também citou áreas consideradas estratégicas para a próxima etapa de integração do bloco, como economia digital, manufatura inteligente, nova industrialização e inteligência artificial aplicada à ciência, à saúde, à agricultura e à educação.
“A China estabeleceu o Centro China-BRICS de Desenvolvimento e Cooperação em Inteligência Artificial e o Centro China-BRICS de Pesquisa em Novas Forças Produtivas de Qualidade, e recebe com satisfação a participação ativa de todas as partes”, afirmou.
China e Índia no centro da articulação do bloco
No trecho final do artigo, Xu abordou diretamente a relação entre China e Índia, que ocupam papel central na atual fase do BRICS. A Índia preside o bloco neste ano, enquanto a China assumirá a presidência rotativa em seguida.
Segundo o embaixador, a coordenação entre Pequim e Nova Délhi é essencial para garantir avanço estável da cooperação no BRICS ampliado e proteger os interesses comuns dos países em desenvolvimento.
“Manter uma coordenação sólida entre nossos dois países é favorável ao progresso estável e sustentado da cooperação do BRICS ampliado e protegerá melhor os interesses comuns dos países em desenvolvimento”, escreveu.
Xu afirmou que, desde o início do ano, sob orientação estratégica de Xi Jinping e do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, as relações entre China e Índia mantiveram “um impulso de melhora e desenvolvimento”. Ele citou como exemplos a retomada de cinco rotas de voos diretos entre a China continental e a Índia e a reabertura do comércio fronteiriço após seis anos de suspensão.
“A China espera trabalhar com a Índia para transformar o importante consenso alcançado pelos dois líderes em ações concretas, sendo bons vizinhos, amigos e parceiros que se ajudam mutuamente, e impulsionando as relações China-Índia para que avancem de maneira sustentada, saudável e estável”, afirmou.
Ao encerrar o artigo, o embaixador desejou sucesso à cúpula de Nova Délhi e convidou os países do BRICS a dar continuidade à agenda no próximo ano, sob presidência chinesa.
“Que a 18ª Cúpula do BRICS em Nova Délhi seja um grande sucesso. Damos as boas-vindas a todos na China no próximo ano para continuar empoderando o mundo com o PODER do BRICS”, escreveu.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/brics/brics-china-apoia-presidencia-da-india-e-propoe-nova-forca-ao-bloco-ampliado/