Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Trump perderá Câmara e sofrerá impeachment após ser derrotado nas eleições de meio de mandato, diz Sachs

Jeffrey Sachs diz que rejeição ao presidente dos EUA abrirá caminho para derrota republicana nas eleições de novembro.

247 – O economista estadunidense Jeffrey Sachs prevê que Donald Trump sofrerá uma derrota política nas eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos, com os republicanos perdendo ao menos uma das duas Casas do Congresso. Na avaliação dele, o cenário mais provável é a perda da Câmara dos Representantes, o que abriria caminho para um novo processo de impeachment contra o presidente.

As declarações foram feitas por Sachs em entrevista divulgada pelo canal APT no YouTube. Durante a conversa, o professor atribuiu sua previsão ao nível de rejeição a Trump, à oposição de parcela da sociedade norte-americana às guerras e ao descontentamento com questões econômicas e sociais enfrentadas pela população.

“O índice de aprovação de Trump está em torno de 35%, e sua desaprovação, dependendo de se é permitido responder ‘sem opinião’ e assim por diante, está em algum ponto próximo de 60%”, afirmou Sachs.

Segundo ele, a política externa e as ações militares do governo também não contam com apoio majoritário.

“Isso não é apoiado de forma alguma pela população, e a guerra, da mesma maneira, não é apoiada pelo povo americano, mesmo com qualquer tipo de propaganda que estejam fazendo”, disse.

Sachs vê jovens contra Trump e as guerras

Sachs afirmou que a oposição seria ainda maior entre os norte-americanos mais jovens. Para ele, além da rejeição às guerras e ao presidente, essa parcela da população enfrenta problemas concretos relacionados à entrada no mercado de trabalho.

“Os jovens, muito mais, são contra ambos: contra Trump e contra essas guerras. Eles estão preocupados se vão conseguir um emprego, porque o mercado de trabalho para os jovens está absolutamente terrível neste momento”, declarou.

O economista também apontou dificuldades relacionadas ao sistema de saúde dos Estados Unidos como uma das fontes do mal-estar social.

“O povo americano está basicamente preocupado em como vai pagar a conta da assistência médica, porque todo o sistema está completamente quebrado”, afirmou.

“Todos os dias, as pessoas precisam se preocupar com o preço dos medicamentos, com um tratamento dentário ou em conseguir uma consulta médica. Então, realmente, a vida cotidiana não é fácil nos Estados Unidos”, acrescentou.

Segundo Sachs, o sentimento de insegurança alcança inclusive parcelas relativamente privilegiadas da sociedade.

“As pessoas não se sentem bem. Eu diria que isso chega até, sabe, o percentil 90 ou algo assim. O clima realmente não é muito positivo nem muito bom”, afirmou.

Para o professor, existe uma parcela minoritária do eleitorado que mantém apoio intenso ao presidente.

“Talvez 25% do público, ou 20% do público, pense fervorosamente que Donald Trump é seu salvador em tudo isso. Essa é outra questão. Mas, em termos do sentimento sobre os Estados Unidos, isso não é o que o público quer”, disse.

“Trump perderá” se houver eleição normal, prevê Sachs

Ao analisar as eleições de novembro, Sachs fez uma previsão direta: caso a votação transcorra normalmente, Trump perderá ao menos uma das Casas do Congresso.

“Trump perderá a eleição em novembro se as cédulas forem contadas corretamente, o que tem 80% de chance”, declarou.

Sachs também levantou, sem apresentar provas durante o trecho da entrevista fornecido, a possibilidade de interferência federal no processo eleitoral. “Há realmente uma chance de que os federais prejudiquem o processo de votação. Não é pequena. Eles estão mirando nisso. Estão trabalhando nisso de forma bastante ativa agora”, afirmou.

Ele disse não acreditar que essa hipótese vá prevalecer, mas alertou para o risco de conflitos políticos.

“Eu não acho que conseguirão. Poderíamos realmente ter uma ruptura completa da ordem interna, uma eleição violenta, manifestações violentas e repressão posteriormente. Isso é realmente possível neste novembro”, disse.

Em seguida, apresentou o cenário que considera mais provável: “mas, se houver uma eleição normal, Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Congresso.”

Para Sachs, a Câmara dos Representantes é a mais provável de mudar de mãos.

“Isso significa a Câmara, muito provavelmente. E, se ele perder a Câmara, também sofrerá impeachment”, afirmou.

Economista prevê dois anos de confronto político

Sachs considera que uma eventual retomada da Câmara pelos democratas poderá mergulhar o governo estadunidense em um período prolongado de confrontos entre Executivo e Legislativo.

“Isso significa que passaremos dois anos na política interna dos Estados Unidos com paralisia, disputas e tudo mais, o que poderia ser melhor do que guerra o tempo todo”, declarou.

Na avaliação do economista, um processo de impeachment também consumiria parte significativa da atenção do governo e poderia restringir a capacidade política de Trump para conduzir grandes operações militares.

“Se tivermos [as eleições], e elas forem pacíficas, Trump perderá. E então sua capacidade de causar danos não desaparecerá de forma alguma, mas ele estará distraído com os procedimentos de impeachment”, disse.

Sachs acrescentou: “Ele terá muito mais dificuldade para mobilizar grandes esforços militares.”

O professor argumentou que uma Câmara controlada pelos democratas imporia obstáculos às atuais ações externas do governo.

“Se o Congresso estivesse sob controle dos democratas agora, ele não conseguiria ter carta branca nesta atual insanidade”, afirmou.

Sachs acusa política externa de escapar ao controle constitucional

Uma parte central da análise do economista é a avaliação de que a política externa e militar norte-americana teria escapado há décadas dos mecanismos constitucionais de controle.

“A política externa e a política militar estão completamente fora dos limites constitucionais e estão assim há décadas”, afirmou.

Sachs disse que o problema, portanto, não seria convencer a população a mudar de posição, mas recuperar o controle político sobre as estruturas responsáveis pelas decisões militares.

“A questão é: isso voltará a ficar sob controle? E, essencialmente, votar poderá, de alguma maneira, mudar a dinâmica de tudo isso?”, questionou.

Ele direcionou críticas ao chamado complexo militar-industrial dos Estados Unidos.

“Basicamente, o establishment da política externa, ou o complexo militar-industrial, está fora de controle há muitas décadas”, declarou.

Segundo Sachs, caberia ao presidente impor limites a essas estruturas.

“O trabalho do presidente é impedir que isso fique completamente fora de controle, e não temos um presidente que vá restringi-lo neste momento”, disse.

O economista especulou ainda sobre a possibilidade de uma mudança mais profunda após a eleição presidencial de 2028.

“Poderia haver um presidente maravilhoso e brilhante em 2029, que tivesse o apoio do povo americano para tentar recuperar alguma ordem pública e algum controle sobre os militares”, afirmou.

Ele reconheceu, porém, que não identifica atualmente uma liderança com essas características.

“Não há ninguém assim no horizonte neste momento. Mas o cenário político americano está suficientemente instável e imprevisível agora para que seja preciso considerar isso uma possibilidade real”, declarou.

Sachs relaciona Kennedy ao complexo militar-industrial

Em outro momento da entrevista, Sachs apresentou sua interpretação sobre o assassinato do ex-presidente John F. Kennedy, em novembro de 1963. O economista afirmou acreditar que Kennedy foi morto por tentar restringir o complexo militar-industrial.

“O último presidente que tentou restringir o complexo militar-industrial foi o presidente Kennedy. E acho que está ficando cada vez mais claro que ele foi morto exatamente por essa razão”, disse.

Trata-se de uma interpretação controversa de Sachs. As investigações oficiais sobre o assassinato de Kennedy não estabeleceram como fato a tese apresentada pelo economista.

Sachs prosseguiu afirmando acreditar que os Estados Unidos sofreram uma espécie de golpe naquele período.

“Tivemos um golpe, quase certamente, em novembro de 1963, e o golpe foi que a CIA, os militares e o FBI, internamente, assumiram o governo, e os presidentes basicamente seguiram isso, mais ou menos, desde então”, afirmou.

A partir dessa interpretação, Sachs comparou a trajetória dos Estados Unidos à passagem da República Romana para o Império Romano.

“Talvez tenhamos nos tornado um império em sua forma plena já há 60 anos. E o Império Romano nunca voltou a ser a República Romana. Então, a questão é: o Império Americano pode voltar a ser a República Americana?”, questionou.

Para ele, a reversão ainda seria possível, embora longe de estar assegurada.

“Eu acho que a resposta é: é possível, mas não é nada certo. Mas é possível”, afirmou.

Sachs diz que Trump rompeu promessa de campanha

O economista também acusou Trump de agir na direção contrária ao discurso que apresentou aos eleitores durante a campanha presidencial, especialmente em relação às guerras.

“Trump, lembrem-se, fez campanha dizendo: ‘Eu não farei exatamente o que ele está fazendo agora’”, afirmou.

Segundo Sachs, Trump não pediu votos prometendo ampliar guerras ou transformar os Estados Unidos em um império ainda mais agressivo.

“Ele disse: ‘Eu não vou para a guerra’. Eles vão para a guerra. ‘Eu não vou para a guerra.’ Foi literalmente isso que ele disse na campanha”, declarou.

Para Sachs, essa contradição ajuda a explicar a rejeição às decisões militares do governo.

BRICS, China e Índia ganham espaço, diz economista

Na parte final da entrevista, Sachs ampliou sua análise para a reorganização da ordem internacional. Segundo ele, as principais transformações das próximas décadas não serão lideradas pelos Estados Unidos.

“As verdadeiras soluções para o mundo virão da China. Virão da Índia. Virão da Rússia. Virão dos BRICS”, afirmou.

Na avaliação do professor, Washington terá de encontrar uma forma de coexistir com a maior parte do planeta.

“A verdadeira questão é que, se os Estados Unidos não explodirem tudo, terão de se entender com a maioria do mundo, de modo que a verdadeira mudança virá daqui, e não dos Estados Unidos liderando a mudança”, declarou.

Sachs destacou particularmente o avanço econômico e industrial chinês.

“A China é simplesmente muito boa em ser estável, avançar, construir a economia mais eficiente do mundo e construir um setor manufatureiro que agora tem cerca de três vezes o tamanho do setor dos Estados Unidos”, disse.

Ele também avaliou que as montadoras chinesas construíram uma enorme vantagem na transição para veículos elétricos e que as indústrias automobilísticas norte-americana e europeia enfrentam dificuldades para competir.

“Espero que vocês gostem dos veículos chineses, porque é isso que estaremos dirigindo nos próximos 30 anos: veículos fabricados na China”, afirmou.

Segundo Sachs, a transformação tecnológica da indústria automobilística está acelerando essa mudança.

“Não podemos continuar com motores de combustão interna, e eles não conseguem competir com o veículo elétrico”, concluiu.

FOTO: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jeffrey_Sachs_in_Moscow.jpg

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/trump-perdera-camara-e-sofrera-impeachment-apos-ser-derrotado-nas-eleicoes-de-meio-de-mandato-diz-sachs/#google_vignette