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Carla Beni alerta que PEC 65 pode abrir caminho para novos casos semelhantes ao Banco Master

Economista critica autonomia ampliada do Banco Central, questiona juros elevados e analisa os efeitos do Desenrola na economia brasileira.

247 – A economista Carla Beni fez duras críticas à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que amplia a autonomia administrativa, financeira e orçamentária do Banco Central, e afirmou que a medida poderá facilitar o surgimento de novos episódios semelhantes ao caso do Banco Master. A declaração foi feita em entrevista ao programa Boa Noite 247, do Brasil 247.

Durante a conversa, cuja repercussão ocorre em meio aos debates sobre a atuação do Banco Central e a tramitação da proposta no Congresso, Carla Beni afirmou ser contrária à PEC e revelou ter assinado um manifesto contra sua aprovação. Segundo ela, a medida representa um risco institucional para o país.

“Isso é um risco imenso ao nosso país e sim, isso vai permitir a criação de novos Bancos Master”, declarou.

A economista argumentou que os problemas enfrentados por órgãos reguladores, como Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários (CVM), poderiam ser resolvidos por meio do fortalecimento das estruturas públicas, com ampliação de concursos e aumento do quadro de servidores, e não pela concessão de maior autonomia administrativa.

“Você resolve isso com melhora de concursos, aumentando o número de postos e dando mais estrutura. Abrir essa porta é algo que depois eu não sei como seria fechado”, afirmou.

Juros elevados e prêmio de risco

Outro tema abordado na entrevista foi a escalada dos juros futuros e o aumento da remuneração dos títulos públicos. Carla explicou que o movimento está relacionado às expectativas do mercado financeiro em relação à trajetória da taxa Selic e à política monetária conduzida pelo Banco Central.

Segundo ela, a autoridade monetária trabalha com projeções para um horizonte de aproximadamente 18 meses, o que influencia diretamente a formação da curva de juros.

A economista destacou que o mercado passou a acreditar em cortes mais lentos da Selic, após declarações recentes do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Como consequência, os investidores passaram a exigir remunerações mais elevadas para financiar a dívida pública.

“Esses 8% são um prêmio de risco para carregar esse papel até 2032. Isso é literalmente um caminhão de dinheiro”, afirmou ao comentar a remuneração dos títulos do Tesouro IPCA+.

Ela também classificou a meta de inflação de 3% como excessivamente rígida para a realidade brasileira, especialmente após as transformações econômicas ocorridas no período pós-pandemia.

Críticas ao modelo econômico

Ao longo da entrevista, Carla Beni também questionou o atual arcabouço da política monetária brasileira e citou estudos que apontam que o país opera com juros reais muito acima dos padrões internacionais.

A economista mencionou o trabalho do sul-coreano Ha-Joon Chang, autor do livro Chutando a Escada, para defender que países desenvolvidos historicamente utilizaram déficits públicos e investimentos estatais para impulsionar seu crescimento antes de passarem a defender políticas de austeridade para as economias em desenvolvimento.

“A nossa taxa de juros é algo completamente fora da realidade internacional. A Rússia tem uma taxa de juros real menor do que a nossa mesmo estando há anos em guerra”, observou.

Segundo ela, o impacto fiscal dos juros elevados é expressivo. Carla estimou que cada aumento de um ponto percentual na Selic gera uma despesa adicional próxima de R$ 48 bilhões a R$ 49 bilhões para o Tesouro Nacional.

Desenrola ainda não mostrou todo seu impacto

A economista também analisou os resultados de pesquisas de opinião que indicam percepção limitada da população sobre os benefícios do programa Desenrola e da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.

Para Carla Beni, os efeitos dessas políticas públicas ainda levam tempo para serem percebidos pelas famílias.

Ela argumentou que muitos beneficiários do Desenrola continuam comprometendo parte da renda com o pagamento das parcelas renegociadas, o que reduz a sensação imediata de melhora financeira.

“A pessoa não tem sobra de dinheiro na conta. Ela renegociou e continua pagando. O alívio maior é sair da lista de inadimplentes”, explicou.

No caso da isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil, Carla afirmou que o ganho mensal tende a ser diluído nas despesas cotidianas.

“Muitas vezes sobraram R$ 180 ou R$ 200 na conta e a pessoa nem percebeu porque aquilo foi absorvido pelo orçamento do mês.”

Percepção social e reconhecimento das políticas públicas

Ao comentar os dados das pesquisas de opinião, a economista destacou que fatores sociológicos, culturais e comportamentais ajudam a explicar por que muitos beneficiários de programas governamentais não associam diretamente as melhorias recebidas à ação do Estado.

Ela lembrou um levantamento realizado anos atrás com beneficiários do programa Minha Casa Minha Vida, no qual a maioria atribuía a conquista da moradia primeiramente a fatores religiosos, e não às políticas públicas.

“A gente precisa sair da economia e entrar nas questões sociológicas, comportamentais e culturais para entender essas respostas”, afirmou.

Carla também defendeu maior educação política nas escolas para ampliar a compreensão da população sobre o funcionamento das instituições democráticas e das políticas públicas.

Manifesto contra a PEC ganha adesões

A economista informou ainda que o movimento contrário à PEC 65 já reúne milhares de assinaturas de economistas e especialistas, incluindo o professor Luiz Gonzaga Belluzzo.

A proposta já começou a avançar no Senado, fato que Carla classificou como motivo de preocupação.

“Foi uma tristeza para mim quando vi a notícia. Esse é um tema fundamental para que a população compreenda os riscos que estamos correndo”, concluiu.

Foto: ASCOM Sinal

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/carla-beni-alerta-que-pec-65-pode-abrir-caminho-para-novos-casos-semelhantes-ao-banco-master