Analista afirma que governo brasileiro enfrenta interesses dos EUA, do capital financeiro e das big techs em defesa da soberania nacional.
247 – O cientista político e analista internacional Pedro Costa Jr. afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu um confronto direto com os principais centros de poder globais ao defender políticas consideradas estratégicas para a soberania brasileira. A declaração foi feita durante entrevista concedida ao Boa Noite 247, em debate sobre geopolítica, relações internacionais e as recentes pressões dos Estados Unidos contra o Brasil.
Segundo Pedro Costa Jr., o governo Lula enfrenta, ao mesmo tempo, três grandes forças de influência mundial: o governo dos Estados Unidos, o capital financeiro internacional e as grandes empresas de tecnologia. Para ele, essa posição explica o aumento das tensões diplomáticas e econômicas envolvendo o Brasil.
“O governo do presidente Lula compra briga com os três principais grupos de poder do sistema-mundo”, afirmou. “Primeiro, compra uma briga com o império. Segundo, compra uma briga com o capital financeiro transnacional. E terceiro, compra uma briga com os donos das big techs.”
Ao analisar as investidas recentes de autoridades norte-americanas contra o Brasil, incluindo questionamentos relacionados ao Pix, à regulação das plataformas digitais e às relações comerciais do país, Pedro Costa Jr. avaliou que Washington busca reafirmar sua influência na América Latina. Segundo ele, o objetivo estratégico dos Estados Unidos seria conter a presença chinesa na região e fortalecer governos alinhados à extrema direita.
“O que o império quer é que todos os governos da América Latina sejam não apenas de direita, mas trampistas, alinhados aos interesses dos Estados Unidos”, declarou.
Pix no centro da disputa
Um dos pontos destacados pelo analista foi o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Na avaliação de Pedro Costa Jr., a defesa do Pix pelo governo brasileiro representa um enfrentamento direto aos interesses de grandes conglomerados financeiros internacionais.
“O Pix não é perigoso apenas pelo que faz no Brasil. É uma tecnologia que está sendo observada e estudada por outros países”, afirmou. Ele destacou que modelos semelhantes vêm despertando interesse em mercados como Europa e Índia, o que poderia reduzir a dependência global dos sistemas tradicionais de cartões e transferências internacionais.
O tema ganhou relevância nos últimos meses diante de debates sobre sistemas alternativos de pagamentos e sobre a busca de países emergentes por mecanismos financeiros menos dependentes da infraestrutura controlada por grandes corporações ocidentais.
Big techs e soberania digital
Outro foco de tensão apontado por Pedro Costa Jr. envolve a tentativa de regulamentação das plataformas digitais. Segundo ele, empresas de tecnologia enxergam com resistência iniciativas que busquem impor regras mais rígidas para atuação em países como o Brasil.
“O presidente Lula comprou essa briga porque quer regulamentar a ação dessas big techs. Eles não aceitam isso”, disse.
Na avaliação do analista, a reação dessas empresas é ainda mais intensa quando parte de países em desenvolvimento. “Uma coisa é quando a França faz isso. Outra é quando um país que eles consideram parte do seu quintal diz que haverá limites para a atuação dessas plataformas”, acrescentou.
China e o maior desafio dos Estados Unidos
Durante a entrevista, Pedro Costa Jr. também abordou a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China. Para ele, Washington enfrenta um adversário sem precedentes históricos.
Citando declarações recentes do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, o cientista político observou que a própria liderança americana já reconhece a singularidade do desafio chinês. “A China é o maior desafio geopolítico da história dos Estados Unidos”, resumiu.
Segundo Pedro Costa Jr., diferentemente da antiga União Soviética, a China reúne simultaneamente força econômica, influência política e crescente capacidade militar. Essa combinação tornaria a competição muito mais complexa para Washington.
Ele também destacou aspectos culturais e históricos da potência asiática. Ao comentar o livro Como a China escapou da terapia de choque, da economista Isabella Weber, afirmou que a trajetória chinesa demonstra uma capacidade singular de planejamento de longo prazo.
“A China tem uma cultura milenar de cinco mil anos. Os Estados Unidos estão diante de um competidor como jamais enfrentaram antes”, declarou.
Críticas à política migratória de Trump
Outro tema abordado foi a realização da Copa do Mundo em território norte-americano. Pedro Costa Jr. criticou medidas adotadas pelo governo Donald Trump contra delegações esportivas de determinados países.
O analista mencionou relatos envolvendo atletas e árbitros submetidos a restrições migratórias, especialmente de países africanos e do Oriente Médio. Segundo ele, tais práticas representam um retrocesso incompatível com o espírito de integração promovido pelos grandes eventos esportivos.
Em uma das declarações mais contundentes da entrevista, afirmou que algumas situações observadas atualmente seriam mais graves do que episódios ocorridos durante os Jogos Olímpicos realizados na Alemanha em 1936.
“Estamos vendo discriminações absurdas. O sonho de muitas pessoas está sendo destruído por decisões arbitrárias”, afirmou.
Guerra e declínio da influência americana
Ao comentar os conflitos no Oriente Médio, Pedro Costa Jr. sustentou que os Estados Unidos enfrentam dificuldades crescentes para impor seus objetivos estratégicos. Segundo ele, episódios recentes revelam limitações do poder militar norte-americano, apesar da ampla presença global do país.
“O poder americano foi construído sobre as armas, o dólar e a influência cultural. Hoje, esses pilares enfrentam desafios cada vez maiores”, avaliou.
Para o analista, o cenário internacional aponta para uma transição gradual rumo a uma ordem global mais multipolar, na qual potências emergentes e mecanismos alternativos de cooperação econômica ganham relevância crescente.
A entrevista ocorreu em meio ao debate sobre o papel do Brasil na reorganização da geopolítica mundial, especialmente diante do fortalecimento dos BRICS e do aprofundamento das relações entre países do Sul Global. A visão apresentada por Pedro Costa Jr. reforça a leitura de que o governo Lula busca ampliar a autonomia brasileira em um contexto de crescente disputa entre grandes potências.
FOTO: Daniel Torok/White House // Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/lula-comprou-uma-briga-contra-o-imperio-diz-pedro-costa-jr-ao-analisar-pressoes-dos-eua-sobre-o-brasil