Wang Yi e Ajit Doval comandam em Pequim a 25ª rodada de negociações entre as duas potências asiáticas, em movimento considerado importante para preservar a paz e ampliar a cooperação bilateral.
247 – China e Índia darão nesta terça-feira (25) mais um passo na tentativa de estabilizar definitivamente sua extensa fronteira e abrir espaço para uma relação bilateral mais sólida entre as duas maiores potências populacionais da Ásia. Representantes dos dois países realizarão, em Pequim, a 25ª rodada de negociações sobre a questão fronteiriça.
As informações são do Global Times, que destaca a continuidade do diálogo como um sinal de maior estabilidade nas relações sino-indianas depois de anos marcados por tensões territoriais.
A reunião será copresidida por Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China e representante especial chinês para a questão da fronteira, e Ajit Doval, conselheiro de Segurança Nacional da Índia e representante especial indiano.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, além das questões diretamente relacionadas à fronteira, os dois representantes deverão trocar opiniões sobre temas bilaterais, internacionais e regionais de interesse comum.
Diálogo sinaliza melhora nas relações
A realização regular das negociações é interpretada por especialistas chineses como demonstração de que Pequim e Nova Délhi estão empenhadas em administrar suas divergências e evitar que disputas territoriais contaminem toda a relação bilateral.
A fronteira entre os dois países é uma das questões mais sensíveis da geopolítica asiática. Os confrontos ocorridos nos últimos anos provocaram uma forte deterioração das relações e demonstraram os riscos de uma escalada entre duas potências nucleares.
Por isso, a institucionalização do diálogo entre representantes especiais tornou-se um dos principais instrumentos para administrar divergências, preservar a estabilidade e impedir novos confrontos.
A perspectiva agora é avançar gradualmente da simples administração das tensões para a construção de entendimentos capazes de fortalecer a confiança política entre os dois países.
Wang Yi e Doval retomam negociação direta
A presença de Wang Yi e Ajit Doval confere peso político ao encontro.
O mecanismo dos representantes especiais funciona como uma plataforma de diálogo de alto nível e permite que as duas partes tratem diretamente de uma questão que envolve não apenas delimitações territoriais, mas também segurança nacional e relações estratégicas.
Na 24ª rodada, realizada em Nova Délhi, os dois lados mantiveram uma troca aprofundada de opiniões e alcançaram entendimentos comuns sobre aspectos relacionados à questão fronteiriça.
A nova reunião em Pequim pretende dar continuidade a esse processo.
Para a diplomacia chinesa, manter abertos e funcionando regularmente os canais de comunicação é essencial para impedir que episódios localizados provoquem crises políticas mais amplas.
Paz na fronteira é condição para relações mais fortes
Do lado indiano, o ministro das Relações Exteriores, S. Jaishankar, também vem destacando a relação entre estabilidade fronteiriça e normalização dos vínculos com a China.
A avaliação de Nova Délhi é que paz e tranquilidade nas áreas fronteiriças são fundamentais para que as relações bilaterais possam avançar em outras frentes.
Os confrontos anteriores prejudicaram significativamente a confiança política entre as duas potências e afetaram diferentes dimensões da relação.
A estabilização da fronteira, portanto, possui consequências que vão muito além das áreas diretamente disputadas.
China e Índia representam juntas uma parcela gigantesca da população e da economia mundial. Uma relação mais estável entre Pequim e Nova Délhi pode produzir impactos importantes sobre comércio, investimentos, desenvolvimento regional e governança global.
Divergências territoriais permanecem
O avanço do diálogo não significa que as divergências tenham desaparecido.
Um dos pontos recentes de tensão envolve Arunachal Pradesh, região administrada pela Índia e reivindicada, em parte, pela China.
Segundo o Global Times, a Índia anunciou nomes para 27 localidades na região, provocando reação de Pequim, que rejeitou a iniciativa e reafirmou sua posição territorial.
Apesar dessas divergências, o governo chinês sustenta que a situação geral na fronteira permanece estável e que os canais diplomáticos e militares de comunicação continuam funcionando.
A prioridade declarada é evitar que disputas específicas provoquem uma nova escalada.
China defende preservação da estabilidade
O Ministério das Relações Exteriores chinês tem reiterado que os mecanismos existentes entre Pequim e Nova Délhi devem ser utilizados para administrar adequadamente as divergências.
A manutenção da paz na região fronteiriça é considerada essencial para criar condições políticas favoráveis ao desenvolvimento das relações bilaterais.
Especialistas ouvidos pelo Global Times também avaliam que iniciativas consideradas provocativas podem prejudicar o ambiente político necessário para uma aproximação mais ampla.
A recomendação é que ambos os lados privilegiem a cooperação e evitem medidas capazes de produzir novas controvérsias territoriais.
Relação China-Índia é decisiva para o BRICS
A aproximação possui ainda uma dimensão multilateral particularmente importante.
China e Índia são dois dos principais integrantes do BRICS e desempenham papéis centrais na construção de uma ordem internacional mais multipolar.
Os dois países também possuem interesses comuns em diversas áreas, entre elas reforma da governança global, ampliação da representação das economias emergentes nas instituições internacionais, comércio, desenvolvimento e fortalecimento do Sul Global.
Por essa razão, uma deterioração prolongada das relações entre Pequim e Nova Délhi teria efeitos que ultrapassariam a Ásia e poderiam afetar a própria capacidade de articulação política do BRICS.
Da mesma forma, uma aproximação entre as duas potências ampliaria significativamente o peso internacional do bloco.
Duas potências diante de uma escolha estratégica
China e Índia possuem diferenças territoriais e interesses nacionais próprios, mas também compartilham desafios comuns como grandes economias emergentes.
O avanço das negociações fronteiriças mostra que os dois governos procuram construir mecanismos capazes de impedir que suas divergências determinem toda a relação.
A 25ª rodada de negociações em Pequim ganha, assim, significado maior do que uma reunião técnica sobre mapas e fronteiras.
Ela ocorre num momento em que o centro de gravidade da economia mundial continua se deslocando em direção à Ásia e em que países do Sul Global buscam ampliar sua participação na definição das regras internacionais.
Uma relação estável entre China e Índia é uma das condições para que esse processo avance.
As diferenças permanecem e dificilmente serão solucionadas de uma só vez. Mas a continuidade do diálogo entre Wang Yi e Ajit Doval demonstra que Pequim e Nova Délhi reconhecem algo fundamental: para duas potências com o peso da China e da Índia, administrar divergências, preservar a paz e ampliar a cooperação é uma necessidade estratégica não apenas para os dois países, mas para a estabilidade da Ásia e o fortalecimento do Sul Global.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/global-times/china-e-india-avancam-no-dialogo-para-superar-disputas-de-fronteira-e-fortalecer-relacoes/