Programa amplia crédito industrial, acelera inovação e mira tecnologia, mobilidade verde e data centers.
247 – A Nova Indústria Brasil, lançada em 2024, já reúne cerca de R$ 750 bilhões em linhas de crédito para modernizar o setor produtivo. As operações voltadas à inovação cresceram 321% entre 2023 e 2025 na comparação com o período 2019- 2022. Os dados foram apresentados na segunda edição do talk Brasil Industrializado – Inovação, Produtividade e Competitividade para a Nova Indústria. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (6) em reportagem do jornal Metrópoles.
O governo projeta mais de R$ 50 bilhões para inovação e tecnologia entre 2023 e 2026, o Programa de Mobilidade Verde atraiu mais de R$ 190 bilhões em investimentos privados, as exportações brasileiras chegaram a US$ 350 bilhões no ano passado, o programa Redata prevê R$ 7 bilhões em incentivos fiscais e pode atrair R$ 2 trilhões em data centers em dez anos, e o projeto Construção 4.0 – BIM na Prática terá R$ 1,9 milhão para atender até 60 empresas em oito estados até 2027.
O encontro ocorreu em Brasília, nessa quinta-feira (2/7), em iniciativa do Metrópoles em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). O debate reuniu representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), da Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra) e da própria ABDI.
O secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira, afirmou que a política industrial já influencia setores ligados à transição energética, à tecnologia e à mobilidade. Ao tratar dos resultados da Nova Indústria Brasil, ele vinculou os investimentos à presença crescente de veículos híbridos e elétricos no país.
“Se hoje vemos carros híbridos e elétricos nas ruas, é resultado desses investimentos, que impulsionam novas rotas tecnológicas e aumentam a competitividade da indústria brasileira”, disse Moreira.
A NIB busca reorganizar a política industrial brasileira com foco em inovação, produtividade, sustentabilidade e adensamento tecnológico. O volume de crédito disponível, de aproximadamente R$ 750 bilhões, reúne instrumentos de financiamento para empresas que pretendem modernizar processos, ampliar produção, desenvolver novas rotas industriais e elevar a competitividade no mercado interno e externo.
No eixo de inovação, o salto de 321% nas operações contratadas sinaliza mudança de escala em projetos industriais. O governo compara o período de 2023 a 2025 com o intervalo de 2019 a 2022 e atribui o avanço à recomposição de políticas públicas, ao fortalecimento dos bancos de fomento e ao maior alinhamento entre indústria, ciência e tecnologia.
“Entre 2023 e 2026, temos projetado mais de R$ 50 bilhões para inovação e tecnologia. Já contratamos bilhões em projetos distribuídos entre as missões da Nova Indústria Brasil”, afirmou Moreira.
Entre os pontos centrais citados no evento aparece o Programa de Mobilidade Verde. A iniciativa mobilizou mais de R$ 190 bilhões em investimentos privados e mira novas tecnologias de descarbonização, área que inclui veículos híbridos, elétricos, biocombustíveis, eficiência energética e cadeias industriais de menor emissão.
Uallace afirmou que a política já produz efeitos em setores estratégicos. Para o governo, a combinação de crédito, inovação e previsibilidade regulatória pode ampliar a capacidade produtiva nacional e reduzir a dependência de importações em segmentos de maior valor agregado.
Mais relatos
O assessor especial da presidência da ABDI, Jackson de Toni, avaliou que o país atravessa uma etapa de reconstrução industrial com apoio mais estruturado de políticas públicas. Ele citou o desempenho recente das exportações brasileiras como sinal de força econômica. “Nós temos números muito positivos na economia brasileira recente. No ano passado, por exemplo, nós atingimos a quantia de 350 bilhões de dólares de exportação”, apontou.
Na avaliação de Jackson de Toni, o avanço das políticas industriais depende agora da capacidade de fazer os instrumentos chegarem às empresas. Ele destacou que o crédito, a inovação e a assistência técnica precisam alcançar companhias de diferentes portes e regiões. “O maior desafio é aprofundar a política industrial e garantir que seus instrumentos cheguem de forma efetiva às empresas, gerando emprego, renda e desenvolvimento regional.”
Para ampliar esse alcance, o MDIC lançou, em parceria com a ABDI, a plataforma Investe Indústria Brasil. A ferramenta reúne em um único ambiente digital linhas de financiamento do BNDES, da Finep e da Embrapii voltadas ao setor produtivo.
Na primeira etapa, a plataforma receberá projetos ligados às cadeias agroindustriais, com foco em fertilizantes. O objetivo do governo é diminuir entraves burocráticos, organizar a demanda das empresas e conectar projetos industriais às instituições capazes de financiar inovação e expansão produtiva.
Jackson de Toni afirmou que a plataforma permitirá melhor coordenação entre o setor privado e os agentes de fomento. A iniciativa também busca facilitar o acesso de pequenas e médias empresas a instrumentos que muitas vezes permanecem concentrados em companhias de maior porte.
Desafios
Apesar do avanço no crédito, representantes do setor produtivo apontaram a produtividade como um dos grandes obstáculos da indústria brasileira. O gerente de Negócios de Inovação e Tecnologia do Senai, Maicon Lacerda, afirmou que a produtividade no Brasil ainda corresponde a cerca da metade da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Segundo ele, a escassez de profissionais qualificados limita a capacidade de expansão e inovação das empresas. O problema aparece com força em setores que tentam adotar novas tecnologias, digitalizar processos e aumentar eficiência.
“Formação de pessoas é um grande gargalo no Brasil. Muitas empresas querem inovar, querem aumentar produtividade, mas não encontram profissionais com a qualificação necessária.”
A gerente de Desenvolvimento e Inovação Industrial da CNI, Paula Nardai, também apontou a qualificação profissional como fator decisivo para transformar investimento em ganho real de produtividade.
“A inovação gera produtividade, que gera competitividade e desenvolvimento. Mas isso só acontece com gente preparada dentro das empresas”, disse Paula Nardai, gerente de Desenvolvimento e Inovação Industrial da CNI.
O assessor econômico da Fibra, Diones Cerqueira, afirmou que a falta de mão de obra preparada aparece no cotidiano das empresas e dificulta planos de expansão. Para ele, a solução exige articulação entre governo, setor privado e sistema educacional.
“O empresário sente na prática essa falta de profissionais qualificados. Muitas vezes ele até quer investir, mas não encontra equipes preparadas para sustentar esse crescimento. Precisamos conectar melhor as políticas públicas, as instituições de ensino e as empresas, para garantir que a formação esteja alinhada com a realidade da indústria.”
A inteligência artificial ocupou parte relevante do debate. Uallace Moreira afirmou que o governo trabalha para posicionar o Brasil como destino de grandes investimentos em infraestrutura digital. O argumento central envolve a matriz energética brasileira, vista pelo MDIC como vantagem competitiva para atrair data centers.
“O Brasil tem uma vantagem competitiva que poucos países no mundo têm. Nós temos uma matriz energética e elétrica limpa que nenhum país no mundo tem”, defendeu.
Nesse contexto, o governo criou o Redata, programa em tramitação no Congresso Nacional que prevê incentivos fiscais para instalação de data centers. A proposta busca aproveitar a demanda global por infraestrutura de inteligência artificial, armazenamento em nuvem e processamento de dados.
“É um programa de R$ 7 bilhões de incentivos que já foi aprovado na Câmara, ele está no Senado e tem uma estimativa do Ministério da Fazenda que, com esse programa, o Brasil pode atrair em dez anos um volume de investimento de R$ 2 trilhões com instalação de data center.”
O secretário ressaltou que o governo não pretende apenas atrair estruturas digitais, mas desenvolver fornecedores, serviços e competências nacionais em torno dessa nova cadeia produtiva. A estratégia associa energia limpa, política industrial e tecnologia avançada.
A transformação digital também chegou à construção civil. O MDIC e a ABDI lançaram o Construção 4.0 – BIM na Prática, programa voltado à adoção da metodologia Building Information Modeling por pequenas e médias empresas do setor.
O projeto-piloto terá investimento de R$ 1,9 milhão e prevê atendimento a até 60 empresas em Rondônia, Bahia, Ceará, Pernambuco, Distrito Federal, Paraná, Santa Catarina e São Paulo, com execução programada até 2027.
A iniciativa oferecerá consultoria especializada, diagnóstico de maturidade digital e planos individualizados de implantação do BIM. A metodologia integra projetos, cronogramas e orçamentos em um modelo digital único, com potencial para reduzir retrabalho, elevar produtividade e aprimorar o controle de custos.
O programa busca acelerar a digitalização da construção civil, especialmente entre pequenas e médias empresas, afirmou a ABI. A aposta do governo combina crédito, inovação, qualificação profissional, inteligência artificial e transformação digital como eixos da Nova Indústria Brasil.
FOTO: Ricardo Stuckert / PR
FONTE: https://www.brasil247.com/industria/com-r-750-bilhoes-em-credito-nova-industria-brasil-faz-investimento-em-inovacao-subir-321/