“A aliança Xi Jinping-Lula contra o protecionismo trumpista é mais uma fase aguda do funeral imperialista”.
O medo do comunismo volta a assombrar a Casa Branca, sob domínio do imperador fascista Donald Trump. O fantasma comunista, do ponto de vista do império, ganha ares assustadores quanto mais a potência americana se vê ameaçada pelo seu maior adversário, a China. Os chineses não se abalaram com o tarifaço trumpista; pelo contrário, reagiram com a mesma moeda, prometeram retaliações, especialmente ao levantar possibilidades de suspender exportações de terras raras aos Estados Unidos, delas dependentes, para desenvolvimento de vanguardas tecnológicas avançadas. Diante disso, o imperador voltou atrás, reconhecendo sua impotência diante do colosso chinês.
O receio maior de Washington se faz sentir mais intensamente diante da disposição da China de aliar-se ao Brasil, alvo do tarifaço trumpista, na defesa dos interesses recíprocos de ambos os países, no âmbito da OMC.
Trump reage, brandindo o que considera sua arma invencível norte-americana: a nova Doutrina de Segurança Nacional, para se defender da ameaça comunista chinesa ao hemisfério ocidental, nas Américas, por meio, especialmente, dos BRICS, em ação na América Latina.
O Comunismo, desta vez, tem nome: China
Aliados ao Brasil, para juntos lutarem contra o protecionismo imperialista trumpista — estratégia para tentar reviver a industrialização americana —, os chineses se transformam no principal obstáculo à competitividade dos Estados Unidos para combaterem seu déficit comercial acumulado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, graças ao superávit financeiro, assegurado pela hegemonia do dólar. Agora, o superávit financeiro imperial somente produz financeirização especulativa e instabilidade global. Nesse novo contexto, financeiramente explosivo, o império transpõe a luta econômica para o plano ideológico, objetivando derrotar os chineses, enquanto joga o mundo em nova guerra fria.
Nova guerra fria
Antes, o mundo viveu a guerra fria, no pós-guerra, para que Washington mobilizasse o Ocidente contra o perigo comunista soviético marxista-leninista, que havia derrotado o nazismo hitlerista. O socialismo virou o inimigo ideológico mortal, o grande adversário do capitalismo desde então, no embate dos dois regimes ideologicamente conflitantes, em disputa para apresentar à sociedade a melhor alternativa política para os povos em busca da utopia pela felicidade social.
O nazismo, que, no poder, revelou-se maior inimigo dos trabalhadores, ao tentar destruir o Comunismo Soviético, despertara o ser humano contra o horror emergente, mas a questão ficou irresolvida; afinal, Hitler perdeu a guerra, mas ganhou a paz, como mostra o renascimento global da direita nazifascista no século 21. No Brasil, por exemplo, ela ganhou a cara do bolsonarismo entre 2018-2022. De nada adiantaram os julgamentos de Nuremberg para destruir o monstro e interromper sua jornada, que continua, nos dias atuais, com Donald Trump e aliados, como Javier Milei, Jair Bolsonaro, Espriela, Bukele etc.
O capitalismo, depois da Revolução Francesa (1789), que pôs fim ao feudalismo e ao absolutismo monárquico, criaria a República democrática e a economia do laissez-faire, ao longo dos séculos 19 e 20, com o advento da Revolução Industrial, como opção preferida dos povos. Submetido à propaganda inglesa e americana, nesses dois séculos, o capitalismo se popularizou; basicamente, o regime de propriedade privada conseguiu, nos últimos quase 250 anos, seduzir a maioria da população mundial, estimulando o individualismo e o espírito empreendedor como alavanca da riqueza social. Mas a solução, na prática, viraria problema.
Germe comunista
Desde 1847-48, no entanto, a proposta alternativa dos trabalhadores, feita por Marx e Engels, intitulada “Manifesto Comunista”, veio ao ar. Ela defendia o socialismo e o comunismo, com a previsão fatídica de que o sistema capitalista tinha e tem, como motor, desde sua origem e no curso do seu desenvolvimento, o processo irreversível de superacumulação de capital. Ele, segundo o Manifesto, submete o trabalho à lógica da exploração da mais-valia (trabalho não pago, com extensão absurda da jornada de trabalho), produzindo, simultaneamente, riqueza, num polo, e pobreza, no outro; ou seja, leva o sistema às contradições insanáveis e, consequentemente, às guerras.
A utopia capitalista virou farsa
No “Manifesto Comunista”, os marxistas propõem o oposto do individualismo capitalista: o espírito solidário para iniciar o processo de supressão da propriedade privada. A providência inicial para conquistar tal propósito humanista seria seguir adiante, radicalmente, com o que o capitalismo havia iniciado na Inglaterra, como pressuposto da Revolução Industrial: a expropriação da terra, acumulada pelos senhores feudais; democratizá-la, eis o ponto de partida para a nova economia, via formação do mercado interno consumidor para produção de bens e serviços, no modo de produção burguês.
Assim, Marx, autor de O Capital, criador da Economia Política burguesa, cujas contradições denuncia como empecilho à criação de uma sociedade igualitária, enumera, com Engels, o que julgam ser o futuro da sociedade socialista, expresso no Decálogo Comunista, como bandeira de luta dos trabalhadores contra a burguesia:
1 – Reforma agrária;
2 – Imposto fortemente progressivo;
3 – Abolição do direito de herança;
4 – Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de banco nacional com capital estatal e monopólio exclusivo;
5 – Organização conjunta da agricultura e da indústria, com o objetivo de suprimir paulatinamente a diferença entre cidade e campo;
6 – Centralização do sistema de transportes nas mãos do Estado, tarifa zero para permitir mobilização social;
7 – Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, destravamento das terras incultas e melhora das terras cultivadas segundo um plano geral;
8 – Trabalho obrigatório para todos, constituição de brigadas industriais, especialmente para a agricultura;
9 – Confisco da propriedade de todos os emigrados e sediciosos; e
10 – Educação pública e gratuita para todas as crianças, supressão do trabalho fabril de crianças e integração da educação com produção material (educação profissional) etc.
As disputas ideológicas entre capitalismo x comunismo produziram duas guerras mundiais, a social-democracia, a Revolução Bolchevique, a restauração capitalista na União Soviética, com a decadência do stalinismo, e a emergência do neoliberalismo, no final do século 20, adentrando o século 21, em confronto, dessa vez, com a China, onde vigora a transição entre capitalismo e socialismo, sob comando do Partido Comunista Chinês.
No século 21, a debacle capitalista se acentua a partir da crise de 2008, que se estende até o momento, sob a anarquia geral da financeirização global especulativa, com aprofundamento da crise do capitalismo americano e ascensão da China.
Comunismo chinês x capitalismo de guerra trumpista
A Era Trumpista representa tentativa desesperada de recuperação do capitalismo americano, na luta contra a proposta de desenvolvimento socialista chinês, comandado pelo Partido Comunista, criado em 1949 pelo seu maior ideólogo: Mao Tsé-Tung.
Efetivamente, o trumpismo protecionista registra, historicamente, de forma objetiva, na prática, a debacle do sistema capitalista, ancorado na produção de guerras, que se aprofundam, como a que se desenrola no Oriente Médio.
Trump, porém, apenas amplia a distância entre a realidade de um retorno à barbárie e um sonho utópico da busca da felicidade, teoricamente multipolar, perseguida atualmente pela China, que adotou as teses do Manifesto Comunista em suas linhas gerais.
A agressividade trumpista unipolar se acentua no compasso da perda de competitividade do capitalismo, com a destruição do mundo organizado em regras institucionais, em completo despedaçamento, frente à proposta chinesa de cooperação multipolar como pretensa nova alvorada global.
O imperador laranja, no topo do colosso da Nova Pompeia despedaçada, ergue neodoutrina de segurança nacional unipolar imperialista contra a multipolar resistência chinesa, mas os resultados da sua investida agressiva, como mostra a realidade, estão dando com os burros n’água, enquanto sua popularidade nos Estados Unidos vai ladeira abaixo.
O presidente americano, pragmaticamente, já está sendo visto e sentido como tremendo pato manco, caso perca as eleições parlamentares de novembro nos Estados Unidos.
A aliança Xi Jinping-Lula contra o protecionismo trumpista é mais uma fase aguda do funeral imperialista.
FOTO: Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/comunismo-x-capitalismo-guerra-ideologica-redivida/