Custos elevados, juros altos e queda no preço dos grãos empurram produtores e empresas do campo para a crise.
247 – A crise financeira que atinge o agronegócio brasileiro continuou a se aprofundar no início deste ano. No primeiro trimestre, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial por parte de produtores rurais e empresas do setor, o que representa uma alta de 21,9% na comparação com o mesmo período do ano passado, informam dados levantados pela consultoria Serasa Experian.
A deterioração das contas no campo é impulsionada por uma combinação de fatores econômicos e geopolíticos. O conflito dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã encareceu ainda mais os insumos essenciais para a produção agrícola, como combustíveis e fertilizantes, que já vinham acumulando altas sucessivas. Paralelamente a esse encarecimento, as cotações de commodities fundamentais para a pauta de exportação brasileira, como a soja e o milho, sofrem forte pressão descendente no mercado. Com isso, mesmo quando as propriedades alcançam volumes elevados de colheita, o faturamento obtido pelos agricultores mal consegue cobrir os custos operacionais do período.
Juros elevados e restrição ao crédito
Outro gargalo central enfrentado pelos produtores rurais é o patamar elevado da taxa de juros, que encarece o financiamento e complica o pagamento das dívidas já contratadas. Em nota divulgada pela consultoria, o responsável pela área de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, explicou a dinâmica da crise no setor:
“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continuou afetando o fluxo de caixa no campo”.
Apesar do crescimento registrado entre janeiro e março deste ano, o volume de pedidos não superou os picos verificados em meados de 2025. No segundo trimestre do ano passado, o indicador contabilizou 565 solicitações, enquanto no terceiro trimestre o número chegou a 628. O ano de 2025 encerrou como o período de maior alta na série histórica do levantamento da Serasa Experian, somando 1.990 processos — um salto de 56% em relação a 2024.
Diante do cenário desafiador, a recomendação de Marcelo Pimenta é buscar o reequilíbrio por meio do diálogo com os credores:
“Daqui para o meio e o fim do ano, a evolução do cenário dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos. Por isso, reforçamos que renegociar e manter um planejamento financeiro deve ser prioridade enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso”.
Impacto de longo prazo e avanço sobre pequenos produtores
A dimensão dos números atuais ganha ainda mais relevância ao observar o histórico recente. O total de pedidos formalizados apenas nos três primeiros meses deste ano supera a soma de todas as solicitações efetuadas ao longo de anos inteiros, como 2021 e 2022.
A advogada Natalia Yazbek, sócia da área de Reestruturação e Insolvência do escritório BMA, analisa que o cenário atual é o reflexo do acúmulo de adversidades sofridas pelo setor nos últimos anos.
“No fim das contas, o que vemos hoje é resultado de anos de pressão, desde 2022″.
Entre os fatores acumulados desde aquele período estão o impacto da guerra entre Rússia e Ucrânia — país fundamental para o fornecimento de fertilizantes —, perdas relevantes de safra motivadas por adversidades climáticas, a escalada dos juros e a desvalorização das sacas de grãos. O recente conflito envolvendo o Irã acabou por se consolidar como o elemento mais recente da espiral de alta de custos.
O monitoramento efetuado pela Serasa Experian inclui tanto as solicitações de produtores rurais atuando como pessoa física quanto o pedido de empresas agrícolas.
Historicamente, o perfil mais frequente no recurso à recuperação judicial envolve grandes proprietários com forte concentração na lavoura de soja, dependência do arrendamento de terras para expansão e alto endividamento assumido em safras passadas, conforme detalhou Dyego Santos, gerente de soluções agro da consultoria.
Os indicadores do primeiro trimestre reforçam essa dinâmica, mas revelam desdobramentos importantes em toda a cadeia:
- Empresas rurais: Registraram 196 pedidos no primeiro trimestre, uma alta expressiva de 73,5% no comparativo anual.
- Produtores (Pessoa Física): Somaram 182 requerimentos, o que representou uma redução de 6,7% em relação ao mesmo período de 2025.
- Empresas do ecossistema agro (como lojas de insumos): Contabilizaram 96 solicitações, alta de 18,5% na comparação interanual.
Contudo, a advogada Natalia Yazbek aponta que o perfil das dívidas está se alterando. A redução no valor médio dos débitos envolvidos nos processos indica que o esgotamento financeiro deixou de ser restrito aos gigantes do setor.
“Não é mais um fenômeno de grandes grupos, o problema vem descendo para produtores de menor porte”, conclui Yazbek.
Foto: Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/agro/pedidos-de-recuperacao-judicial-no-agronegocio-crescem-219-no-1o-trimestre-e-mantem-setor-sob-forte-pressao-financeira/