O comitê afirma que vai acompanhar a evolução do cenário e manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta, e não diz mais nada.
O Copom reduziu a Selic de 14,25% para 14,00% ao ano, exatamente como o mercado esperava, e — o que talvez seja mais importante — não fechou nenhuma porta. A conclusão do comunicado diz que o cenário atual, caracterizado por significativo aumento de incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária. Traduzindo: seguem vigilantes. O comitê afirma que vai acompanhar a evolução do cenário e manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta, e não diz mais nada. Não há pista alguma sobre corte, pausa ou continuidade do ciclo.
O ponto mais relevante do documento está nas projeções. No cenário de referência, a inflação projetada é de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028 — o horizonte relevante da política monetária hoje — muito próxima, portanto, da meta de 3%. Vale lembrar que esses números partem dos insumos do Focus: câmbio a R$ 5,10, com pequena desvalorização nos anos seguintes, e bandeira tarifária amarela. Ou seja, pelos próprios modelos do Banco Central, a inflação está convergindo. Se está convergindo, há espaço para mais cortes. E ainda faltam quarenta dias até a próxima reunião, tempo suficiente para muita coisa mudar.
Os riscos de alta são os de sempre. Persistência da desancoragem das expectativas, resiliência da inflação de serviços — que temos visto de perto, com um mercado de trabalho ainda muito forte — e políticas econômicas do exterior, especialmente na frente tarifária e conflito no oriente médio, que podem atrapalhar inclusive por meio da desvalorização cambial. O comunicado também chama atenção para os estímulos à demanda agregada, em particular no componente consumo, com atividade econômica rodando acima do produto potencial. Aqui há um recado fiscal explícito: a economia cresce apesar de uma Selic muito alta, e isso não acontece por acaso. Esse tipo de configuração pressiona os ativos financeiros, tende a desvalorizar o câmbio e acaba se traduzindo em inflação.
Do outro lado da história estão os riscos de baixa, que costumam receber menos atenção. Uma desaceleração global mais pronunciada, uma queda mais forte do preço do petróleo e uma redução mais generalizada dos preços de commodities podem produzir um cenário bem menos inflacionário do que o desenhado hoje.
De resto, não houve grandes novidades. O comunicado mantém a linha da reunião anterior, aquela em que o Copom cortou juros sob críticas. E vale insistir nesse ponto, porque toda a discussão girou em torno da mesma pergunta: como cortar juros com expectativas desancoradas? O problema é que expectativa não é realidade.
Expectativa é uma ideia que os agentes de mercado constroem sobre o futuro, e ideias sobre o futuro são voláteis por natureza. Elas importam, claro, porque ajudam a formar preços, e o Banco Central tem obrigação de levá-las em consideração. Mas não pode se pautar única e exclusivamente por elas. A ideia de que, porque a expectativa piorou, o BC não pode cortar juros, simplesmente não se sustenta.
O exemplo prático está no próprio Focus. Na reunião passada, a expectativa de inflação para este ano era de 5,30%. Agora está em 5,00%. Trinta pontos-base em quarenta dias. É esse o grau de estabilidade do indicador que alguns gostariam de transformar em bússola exclusiva da política monetária.
O Banco Central segue seus modelos, suas projeções, e trata as expectativas como mais um elemento da decisão — não como o único. Foi assim que chegamos aos 14%. E, na minha leitura, ainda há espaço para cair.
Foto: Pedro França/Agência Senado
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/copom-corta-a-selic-e-deixa-a-porta-aberta/