Doutrina Monroe de Donald Trump combina migração, narcotráfico, China e controle do Caribe.
247 – A política externa de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, está reconfigurando a ordem hemisférica e recolocando a América Latina e o Caribe no centro da estratégia de segurança norte-americana. Essa é a tese central do artigo “O Corolário Trump e a reconfiguração estratégica da América Latina e do Caribe”, assinado por Felippe S. Ramos e Briza Quaresma Regueira, publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.
Segundo os autores, o chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe representa uma atualização agressiva da velha pretensão dos Estados Unidos de tratar o hemisfério ocidental como sua zona prioritária de influência. A diferença é que, agora, essa estratégia combina controle migratório, combate militarizado ao narcotráfico, contenção da China, disputa por infraestrutura crítica e uso de tarifas, sanções e bloqueios como instrumentos de coerção.
O Caribe como centro da nova estratégia
O artigo introduz o conceito de “heartland gran-caribenho” para descrever o espaço marítimo e costeiro que se tornou o núcleo operacional da política hemisférica dos Estados Unidos.
Essa área conecta a fronteira sul norte-americana, o México, a América Central, o Caribe, o norte da América do Sul e os acessos ao Canal do Panamá.
Trata-se de uma região onde convergem rotas migratórias, corredores do narcotráfico, recursos energéticos, infraestrutura portuária, rotas comerciais marítimas e a presença crescente de potências extra-hemisféricas, especialmente a China.
Para os autores, essa concentração de fatores explica por que o Caribe voltou a ocupar papel central na política externa norte-americana.
A volta da Doutrina Monroe
O estudo sustenta que a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025 fornece a base doutrinária dessa nova postura.
O documento, segundo os autores, recoloca soberania, fronteiras e competição geopolítica no centro da política externa norte-americana.
Nesse marco, a América Latina deixa de ser tratada principalmente como espaço de cooperação comercial ou promoção democrática e passa a ser vista como perímetro imediato de segurança dos Estados Unidos.
A lógica é clara: impedir que potências como China, Rússia ou Irã ampliem influência sobre portos, canais, energia, telecomunicações e infraestrutura militar ou logística no hemisfério.
Migração vira tema de segurança nacional
Um dos pilares da nova estratégia é a securitização da migração.
O artigo mostra que a administração Trump passou a enquadrar fluxos migratórios como ameaça direta à segurança nacional.
Essa abordagem envolve deportações em massa, pressão sobre países de trânsito, desmonte de canais legais de migração e transferência de responsabilidades de controle para governos da América Central e do Caribe.
Na prática, os Estados Unidos buscam transformar países da região em zonas de contenção migratória antes que os fluxos cheguem à fronteira norte-americana.
Narcotráfico passa a ser tratado como terrorismo
Outro eixo central é a transformação do combate ao narcotráfico em política antiterrorista.
Ao classificar grandes cartéis como organizações terroristas estrangeiras, Washington amplia sua margem jurídica e operacional para ações militares, inteligência, vigilância e operações em águas internacionais ou mesmo em território de países latino-americanos.
Segundo os autores, essa mudança legitima uma presença militar mais assertiva no Caribe e em corredores marítimos associados ao tráfico de drogas.
O combate ao narcotráfico passa, assim, a funcionar como justificativa para ampliar o controle estratégico norte-americano sobre a região.
China é o alvo geopolítico principal
Embora a retórica fale em migração e drogas, o artigo aponta que a contenção da China é uma das motivações centrais da nova estratégia.
A presença chinesa em portos, infraestrutura, energia, telecomunicações e investimentos logísticos latino-americanos passou a ser vista por Washington como ameaça à sua primazia hemisférica.
O caso do Canal do Panamá é apresentado como exemplo emblemático.
A disputa em torno de empresas ligadas à China na operação de portos próximos ao canal demonstra como infraestrutura comercial passou a ser tratada como ativo estratégico e geopolítico.
Tarifas, sanções e coerção econômica
O artigo também destaca o uso crescente de instrumentos econômicos como armas de pressão política.
Tarifas, sanções, bloqueios e restrições a investimentos tornaram-se parte da diplomacia transacional de Trump.
O Brasil aparece como exemplo relevante.
Segundo os autores, a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades nacionais gerou tensões diplomáticas e afetou setores como indústria, carnes, agricultura e têxteis.
Mesmo quando busca negociar, o Brasil se vê pressionado por uma estratégia norte-americana que mistura comércio, segurança e política interna de outros países.
Respostas diferentes na região
Os autores classificam as respostas latino-americanas em quatro grupos.
O primeiro é o alinhamento estratégico, que inclui governos de direita que aderem mais diretamente à agenda de Washington.
O segundo é a cooperação transacional, na qual países buscam evitar confronto e obter ganhos pragmáticos.
O terceiro é a coexistência administrada, categoria na qual entram países como Brasil, México e Colômbia, que procuram preservar autonomia sem romper com os Estados Unidos.
O quarto é o confronto seletivo, voltado principalmente contra países socialistas ou governos tratados como adversários diretos, como Venezuela, Cuba e Nicarágua.
O Brasil entre autonomia e pressão
O artigo dedica atenção especial ao Brasil.
Segundo os autores, a política externa brasileira historicamente busca autonomia estratégica, diversificação de parcerias e fortalecimento de mecanismos como BRICS e integração regional.
No entanto, a nova abordagem norte-americana reduz o espaço de manobra dos países latino-americanos.
O governo Lula, segundo o estudo, tenta administrar a relação com Washington sem abrir mão da multipolaridade, da soberania nacional e da cooperação Sul-Sul.
A pressão de Trump sobre o Brasil, incluindo tarifas e interferências políticas, mostra como a região pode ser empurrada para uma disputa cada vez mais dura entre grandes potências.
Integração regional sob ameaça
Na conclusão, os autores afirmam que o Corolário Trump cria novos desafios para mecanismos de integração como Celac, Mercosul, Caricom e Associação dos Estados do Caribe.
A formação de coalizões seletivas lideradas por Washington pode fragmentar ainda mais a diplomacia latino-americana e enfraquecer fóruns regionais baseados em cooperação Sul-Sul.
Ao mesmo tempo, a pressão norte-americana pode estimular alguns países a buscar maior coordenação própria para defender interesses comuns.
O dilema central, segundo o artigo, é que a América Latina e o Caribe voltam a ser tratados como perímetro estratégico de segurança dos Estados Unidos em um momento de disputa global com a China.
A nova Doutrina Monroe de Trump, concluem os autores, não representa apenas uma mudança retórica. Ela reorganiza prioridades, redefine alianças, aumenta a pressão sobre governos latino-americanos e impõe à região o desafio de preservar soberania, integração e autonomia em uma ordem internacional cada vez mais conflitiva.
Foto: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/corolario-trump-recoloca-america-latina-e-caribe-sob-pressao-estrategica-dos-estados-unidos