Artigo de Marsílea Gombata e Carolina Pedroso analisa como a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela amplia os desafios da política externa brasileira.
247 – A política externa brasileira enfrenta um dos maiores desafios desde a redemocratização. Em um cenário internacional marcado pelo retorno do unilateralismo dos Estados Unidos, pela fragmentação política da América do Sul e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, o Brasil precisa encontrar um delicado equilíbrio entre a defesa histórica da soberania dos Estados, a condenação de violações democráticas e a preservação de seus próprios interesses estratégicos.
Essa é a principal conclusão do artigo “Entre a altivez e a sensatez: os dilemas brasileiros pós-intervenção dos Estados Unidos na Venezuela”, assinado pelas pesquisadoras Marsílea Gombata (FAAP/Nupri-USP) e Carolina Pedroso (Unifesp), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Ipea, em Brasília.
O estudo parte de um cenário prospectivo em que os Estados Unidos realizam uma intervenção militar na Venezuela e capturam Nicolás Maduro. Embora se trate de um exercício analítico de caráter prospectivo, as autoras utilizam esse cenário para discutir questões extremamente atuais: o futuro da política externa brasileira, a crise da integração sul-americana, a revitalização da Doutrina Monroe sob Donald Trump e os limites da capacidade diplomática brasileira diante da crescente competição geopolítica entre grandes potências.
A política externa brasileira diante de um mundo mais hostil
Segundo as autoras, o terceiro governo Lula encontrou um ambiente internacional muito diferente daquele que permitiu ao Brasil exercer uma política externa “ativa e altiva” durante os anos 2000.
Naquele período, havia uma conjuntura favorável: crescimento econômico, expansão do multilateralismo, fortalecimento dos BRICS e governos progressistas ocupando boa parte da América do Sul.
Hoje, argumentam, o cenário é praticamente oposto.
A região vive um processo de fragmentação política, as instituições regionais perderam força, a rivalidade entre Estados Unidos e China passou a organizar a geopolítica mundial e Washington voltou a tratar a América Latina como espaço prioritário de influência estratégica.
Diante desse novo contexto, defendem que o Brasil precisa substituir parte da antiga “altivez” por uma combinação de firmeza diplomática e pragmatismo estratégico.
O colapso da integração sul-americana
Um dos eixos centrais do trabalho é a análise da deterioração do projeto de integração regional construído durante os primeiros governos Lula.
As pesquisadoras recordam que iniciativas como a Unasul e a Celac nasceram em um ambiente político favorável à cooperação regional e à busca de maior autonomia em relação aos Estados Unidos.
Entretanto, mudanças eleitorais, polarização ideológica, crises econômicas e a própria crise venezuelana contribuíram para desmontar esse processo.
Hoje, argumentam, a América do Sul apresenta níveis inéditos de fragmentação política, dificultando qualquer resposta coletiva diante de crises internacionais.
Segundo o artigo, essa falta de coordenação reduz significativamente a capacidade do Brasil de exercer liderança regional.
Venezuela tornou-se o principal fator de divisão
Outro ponto desenvolvido pelas autoras é o papel desempenhado pela Venezuela na polarização política regional.
Elas reconhecem que o governo Maduro foi responsável por um processo acelerado de deterioração democrática, acompanhado de forte crise econômica, hiperinflação, êxodo populacional e concentração crescente de poder nas mãos do Executivo.
Ao mesmo tempo, observam que as sucessivas tentativas internacionais de mediação fracassaram, aprofundando as divisões entre os países latino-americanos.
Enquanto alguns governos passaram a defender maior pressão sobre Caracas, outros insistiram na busca de soluções negociadas e na defesa do princípio da não intervenção.
Nesse contexto, o Brasil passou a enfrentar um dilema permanente: preservar sua tradição diplomática de defesa da soberania sem deixar de reconhecer os problemas democráticos existentes na Venezuela.
Trump e a retomada da Doutrina Monroe
O artigo dedica ampla atenção à política externa do segundo governo Donald Trump.
Na avaliação das autoras, Washington passa a recuperar elementos clássicos da Doutrina Monroe, reinterpretando a América Latina como área prioritária de segurança nacional.
Nesse novo contexto estratégico, a Venezuela seria tratada simultaneamente como:
- foco do narcotráfico;
- espaço de influência chinesa, russa e iraniana;
- produtor estratégico de petróleo;
- ameaça à segurança hemisférica.
Segundo o estudo, essa combinação serviria como justificativa para uma intervenção militar norte-americana inédita na América do Sul.
As autoras observam ainda que o combate ao narcotráfico aparece como elemento central da nova estratégia norte-americana, associado à ampliação dos poderes presidenciais para realizar operações militares extraterritoriais.
Brasil entre Washington e Caracas
A hipótese da intervenção coloca o governo brasileiro diante de uma situação extremamente delicada.
Condenar a ação militar significaria reafirmar princípios históricos da diplomacia brasileira.
Mas ignorar os problemas internos da Venezuela também poderia gerar custos políticos internos e externos.
Segundo as pesquisadoras, o governo Lula tenderia a optar por uma posição intermediária: rejeitar a violação da soberania venezuelana, ao mesmo tempo em que reconheceria os graves problemas institucionais acumulados pelo chavismo.
Essa posição, entretanto, dificilmente produziria consenso regional, dada a profunda polarização existente na América do Sul.
O impacto da política doméstica
Outro aspecto relevante destacado pelo artigo é a crescente influência da política interna sobre a política externa brasileira.
As autoras observam que temas internacionais — especialmente Venezuela e relações com os Estados Unidos — passaram a influenciar diretamente o debate eleitoral brasileiro.
Pesquisas de opinião citadas no estudo mostram que parte significativa da sociedade considera que o governo Lula demonstrou excesso de proximidade com Maduro, enquanto outra parcela vê preocupação na crescente influência norte-americana sobre a região.
Essa divisão limita a margem de manobra diplomática do governo.
Conter e engajar
Inspirando-se nos trabalhos do cientista político Feliciano de Sá Guimarães, o artigo propõe que o Brasil adote uma estratégia baseada em dois movimentos simultâneos:
- conter iniciativas unilaterais capazes de ameaçar a soberania regional;
- manter canais permanentes de diálogo com Washington, evitando isolamento diplomático.
Essa política permitiria ao Brasil preservar autonomia sem romper relações com os Estados Unidos, especialmente em temas como comércio, tecnologia, segurança e combate ao crime organizado.
A sensatez como complemento da altivez
Na conclusão, Marsílea Gombata e Carolina Pedroso sustentam que o Brasil já não dispõe das mesmas condições estruturais que permitiram sua projeção internacional durante os primeiros governos Lula.
Num ambiente internacional mais conflituoso, marcado pela crise do multilateralismo, pela competição entre grandes potências e pela fragmentação política da América do Sul, a diplomacia brasileira precisaria combinar firmeza na defesa da soberania com flexibilidade para negociar em condições adversas.
A “sensatez”, afirmam as autoras, não substitui a tradicional “altivez” da política externa brasileira. Ela passa a ser seu complemento indispensável diante de um mundo cada vez mais instável, no qual preservar autonomia exige não apenas princípios, mas também capacidade de adaptação estratégica.
Foto: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/pode-o-brasil-preservar-sua-soberania-em-uma-nova-era-de-intervencionismo