Encontro em Bishkek fortalece o Sul Global, amplia o peso da China e da Rússia e confirma a cúpula da OCX como um dos marcos do mundo multipolar.
A cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), realizada nesta semana em Bishkek, no Quirguistão, consolidou o avanço do mundo multipolar ao fortalecer a articulação do Sul Global, ampliar o peso político de China e Rússia e transformar a cooperação entre países emergentes em alternativa concreta ao unilateralismo. Mais do que uma reunião comemorativa pelos 25 anos do agrupamento, o encontro confirmou a OCX como um dos centros da reorganização do sistema internacional.
Por José Reinaldo Carvalho
A organização ampliou sua agenda de cooperação nas áreas de segurança, economia, infraestrutura, tecnologia, desenvolvimento social e intercâmbio entre os povos.
O êxito de Bishkek está, antes de tudo, na demonstração de que o mundo multipolar deixou de ser uma aspiração abstrata. Há países protagonistas, grupos e organizações em que se realiza a coordenação de ações, projetos de infraestrutura, instrumentos de cooperação econômica e uma agenda diplomática fundada na paz, soberania, igualdade entre os Estados e na rejeição das intervenções externas.
Ao lado do BRICS, a OCX tornou-se um dos principais vetores desse processo. Os dois agrupamentos têm composições, estruturas e objetivos diferentes, mas convergem na defesa de uma ordem internacional sem concentração de poder nas potências imperialistas ocidentais. Também abrem espaço para que países da Ásia, da África, do Oriente Médio e da América Latina participem das decisões globais sem subordinar suas políticas externas aos interesses de Washington.
A OCX reúne China, Rússia, Índia, Paquistão, Irã, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Seus integrantes representam cerca de 40% da população mundial e aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto global. A presença de parceiros, observadores e dirigentes convidados ampliou ainda mais o alcance político da reunião na capital quirguiz.
Essa dimensão não elimina as divergências entre os membros. Índia e Paquistão mantêm um histórico de tensões, enquanto Nova Délhi e Pequim administram disputas próprias. Países da Ásia Central também procuram preservar autonomia diante das grandes potências. A relevância da organização está justamente na capacidade de reunir Estados com interesses distintos em torno de compromissos comuns, sem exigir alinhamento automático nem impor uma disciplina de bloco militar.
Esse método contrasta com a tradição de alianças construídas em torno de um comando central. A OCX busca acomodar diferenças por meio da consulta, do consenso e do reconhecimento da diversidade política e cultural. Trata-se de uma forma de multilateralismo mais compatível com um sistema internacional no qual nenhum país reúne condições legítimas para determinar, sozinho, as regras aplicáveis aos demais.
China e Rússia ocupam o centro da nova configuração
China e Rússia saíram de Bishkek ainda mais consolidadas como o eixo político do mundo multipolar e como forças centrais tanto na OCX quanto no BRICS. A relação entre Pequim e Moscou ultrapassou há muito a esfera bilateral: tornou-se um componente estrutural da transição internacional em curso.
Durante a cúpula, Xi Jinping e Vladimir Putin reafirmaram o aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países. Putin classificou a cooperação sino-russa como um modelo de relações entre Estados, enquanto Xi afirmou que os vínculos bilaterais estão mais sólidos e possuem perspectivas ainda mais promissoras.
Essa aproximação não se limita à reação às pressões ocidentais. Ela envolve comércio, energia, infraestrutura, tecnologia, inteligência artificial e coordenação diplomática. A Rússia oferece recursos estratégicos, capacidade militar e peso geopolítico; a China agrega poder econômico, capacidade industrial, financiamento e uma visão de longo prazo para a integração da Eurásia.
Nenhum dos dois países atua isoladamente. O peso crescente da Índia, a incorporação do Irã e de Belarus e a participação dos Estados da Ásia Central mostram que a multipolaridade não se resume a uma simples substituição dos Estados Unidos pela China. O que está em formação é uma arquitetura mais distribuída, embora Pequim e Moscou constituam seu eixo mais influente.
A OCX e o BRICS funcionam, assim, como espaços complementares. Enquanto o BRICS possui maior projeção econômica e presença intercontinental, a OCX combina integração eurasiática, segurança regional, conectividade, energia e cooperação política. Juntas, as duas organizações reduzem a capacidade das potências ocidentais de monopolizar decisões financeiras, comerciais e diplomáticas.
A afirmação da diplomacia chinesa
A reunião também confirmou o acerto da estratégia diplomática chinesa, especialmente da Iniciativa de Governança Global apresentada por Xi Jinping. A proposta defende igualdade soberana, respeito ao direito internacional, multilateralismo e participação efetiva dos países em desenvolvimento na definição das normas globais.
A iniciativa já recebeu apoio de quase 160 países e organizações internacionais, enquanto mais de 60 nações aderiram ao Grupo de Amigos da Governança Global. Seus princípios guardam relação direta com o Espírito de Xangai, baseado em confiança mútua, benefício recíproco, igualdade, respeito à diversidade cultural e solução negociada das controvérsias.
Paz, estabilidade e progresso compartilhado não aparecem, nessa concepção, apenas como palavras diplomáticas. A proposta começa a adquirir materialidade por meio de ferrovias, corredores logísticos, gasodutos, centros de produção de energia limpa, intercâmbios educacionais e projetos de redução da pobreza. A discussão sobre a criação de um Banco de Desenvolvimento da OCX reforça a tentativa de dotar o agrupamento de instrumentos financeiros próprios.
Essa abordagem ajuda a explicar a crescente atração exercida pela China sobre o Sul Global. Pequim apresenta uma proposta centrada na cooperação econômica, na preservação da soberania e no desenvolvimento, enquanto rejeita a imposição de modelos políticos como condição para estabelecer parcerias.
A derrota política do unilateralismo dos EUA
Embora os Estados Unidos não tenham ocupado formalmente o centro dos discursos, foram os principais derrotados políticos da cúpula. Essa derrota não decorre de uma declaração específica contra Washington, mas do contraste entre dois caminhos apresentados ao mundo.
De um lado, os EUA insistem em sanções econômicas, guerras, ameaças militares, pressões comerciais e alianças construídas para conter adversários. De outro, a OCX projeta uma agenda de diálogo, integração regional, respeito à soberania e desenvolvimento compartilhado. O fato de tantos países se reunirem em Bishkek para aprofundar mecanismos independentes de cooperação mostra os limites crescentes da política unilateral estadunidense.
As pressões de Washington acabam produzindo o efeito contrário ao pretendido. Sanções contra a Rússia aproximaram Moscou de Pequim. Medidas contra o Irã estimularam Teerã a aprofundar sua participação na OCX e no BRICS. Disputas tarifárias com China e Índia reforçaram a busca por mercados, moedas, corredores comerciais e instituições financeiras alternativas.
A política belicista dos Estados Unidos também se choca com uma tendência histórica mais ampla. Países que durante décadas foram tratados como periferia reivindicam agora capacidade de decisão. Não aceitam mais que intervenções militares, bloqueios econômicos ou punições extraterritoriais sejam apresentados como expressão natural de uma suposta ordem internacional.
Bishkek mostrou que a maioria global procura estabilidade para desenvolver suas economias, combater a pobreza e ampliar o bem-estar de suas populações. A expansão de conflitos e a imposição de sanções unilaterais caminham na direção oposta. Por isso, mesmo ausente da mesa, Washington esteve politicamente presente como contraponto ao projeto defendido pela OCX.
A cúpula não resolveu todas as contradições entre os integrantes nem criou uma ordem internacional acabada. Seu significado está em outro ponto: demonstrou que o poder mundial está sendo redistribuído e que novas instituições ganharam capacidade para transformar princípios políticos em cooperação concreta.
Aos 25 anos, a Organização de Cooperação de Xangai deixou definitivamente de ser um fórum regional restrito à segurança da Ásia Central. Ao lado do BRICS, tornou-se uma das colunas do mundo multipolar. A reunião de Bishkek foi, por isso, mais um êxito do Sul Global e uma confirmação de que a paz, a soberania e o desenvolvimento compartilhado representam as tendências mais promissoras da época.
FOTO: Global Times
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/cupula-da-ocx-consolida-avanco-do-mundo-multipolar/