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Em entrevista histórica à TV indiana, Putin exalta parceria com Modi, defende ordem multipolar e afirma que Sul Global lidera transformação do mundo

O líder russo destacou que, em paridade de poder de compra, economias como a Índia e a China já superaram amplamente potências europeias tradicionais como o Reino Unido, a França e a Alemanha.

247 – Em uma das entrevistas mais abrangentes e contundentes concedidas à imprensa internacional nos últimos tempos, o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, abriu as portas do Kremlin para a emissora indiana India Today e ofereceu uma radiografia profunda da transição hegemônica global, dos limites da hegemonia ocidental e da solidez da aliança estratégica entre Moscou e Nova Délhi.

Conduzida pelas jornalistas Anjana Om Kashyap e Geeta Mohan às vésperas de sua visita de Estado à Índia, a conversa evidenciou um Putin à vontade, demonstrando pragmatismo geopolítico e convicção sobre a irreversibilidade do mundo multipolar. No centro de sua reflexão esteve a ascensão incontornável do Sul Global e o papel nuclear que potências emergentes — com destaque para os países do BRICS — desempenham no redesenho da governança e da economia do planeta.

“A Índia é um ator global, não uma colônia britânica”

Ao abordar as crescentes pressões, ameaças de tarifas e tentativas de constrangimento do Ocidente sobre o comércio bilateral russo-indiano — sobretudo no setor de hidrocarbonetos e armamentos —, Putin foi enfático ao defender a soberania da política externa comandada pelo primeiro-ministro Narendra Modi.

“Parece evidente que tanto a Índia quanto o mundo já compreenderam que o país não pode ser tratado como era tratado há 77 anos. A Índia é um grande ator global, não uma colônia britânica, e todos precisam aceitar essa realidade”, declarou o líder russo. Ele elogiou a postura de Modi diante das chantagens externas, classificando-o como um dirigente que “não se curva a pressões” e que conduz a diplomacia indiana com equilíbrio e foco estrito no interesse de seu povo.

O presidente russo desmistificou o discurso ocidental de que o comércio energético entre as duas nações seria um mero oportunismo decorrente do conflito no leste europeu. Putin lembrou que grandes empresas russas já haviam realizado investimentos de dezenas de bilhões de dólares no setor de refino indiano muito antes de 2022, consolidando a Índia como um dos grandes centros globais de derivados.

Além disso, Putin destacou a hipocrisia das sanções: enquanto governos e analistas ocidentais criticam as compras indianas de petróleo russo, os próprios Estados Unidos continuam importando ativamente urânio e combustível nuclear da Rússia para alimentar seus reatores. “Se os EUA compram o nosso combustível para seus reatores, por que a Índia não teria o mesmo direito?”, provocou.

A desdolarização na prática e o modelo de soberania financeira

Em um dos trechos mais relevantes para a economia política internacional, Putin revelou que o comércio bilateral entre a Rússia e a Índia já se encontra praticamente blindado do sistema financeiro tradicional dominado pelo dólar e pelo Ocidente:

“Mais de 90% das nossas transações com a Índia já são liquidadas diretamente em moedas nacionais. Obstáculos artificiais e intermediários estão sendo superados com a integração e uso dos sistemas de mensageria eletrônica dos bancos centrais de ambos os países.”

Questionado sobre as discussões de uma moeda comum do BRICS, o chefe de Estado russo demonstrou uma visão sóbria e gradualista, advertindo contra erros de precipitação que afetam blocos como a Zona do Euro:

“Não há necessidade de pressa; sem afobação, evitam-se erros graves”, argumentou, citando as assimetrias estruturais que geraram crises na Europa ao submeter economias díspares a uma única âncora monetária. Para Putin, o foco do momento dentro do BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) é consolidar mecanismos robustos de liquidação em moedas locais, compensação mútua e instrumentos digitais de pagamentos — garantindo transações livres do risco de arresto político ou bloqueios extraterritoriais.

O colapso da relevância do G7 e o avanço da Eurásia e do Sul Global

Indagado sobre se Moscou teria interesse em um eventual retorno ao formato do G8, Putin rejeitou categoricamente a ideia, apontando que as velhas estruturas multilaterais do Norte global perderam a representatividade e a vitalidade econômica.

O líder russo destacou que, em paridade de poder de compra, economias como a Índia e a China já superaram amplamente potências europeias tradicionais como o Reino Unido, a França e a Alemanha — esta última enfrentando contração e estagnação crônica decorrentes de escolhas energéticas e geopolíticas equivocadas.

“O mundo está em constante mutação, mas o ritmo dessas mudanças disparou. Novos polos de desenvolvimento rápido e vigoroso estão se consolidando no Sul Global — na Ásia e na África”, analisou. Segundo Putin, as relações no âmbito do BRICS, longe de serem concebidas “contra terceiros”, orientam-se por uma agenda positiva de cooperação civilizatória, respeito à diversidade cultural e soberania compartilhada: “Quando unimos esforços e exploramos sinergias, o resultado é extraordinário”.

Parceria tecnológica e transferência de ponta

A entrevista ressaltou também a singularidade da cooperação militar e tecnológica entre Nova Délhi e Moscou. Putin pontuou que, ao contrário dos fornecedores ocidentais que apenas vendem produtos com amarras e restrições políticas, a Rússia construiu uma relação de confiança rara no setor estratégico, consubstanciada na transferência de tecnologia e produção conjunta, alinhada à política nacional indiana de fomento à indústria doméstica (Make in India).

Ele citou como modelos de sucesso a produção local de blindados T-90, os mísseis hipersônicos BrahMos e o avanço em projetos aeronáuticos e navais, estendendo o convite para áreas de fronteira:

  • Energia Nuclear: Expansão das operações da gigante Rosatom na usina de Kudankulam e a oferta de pequenos reatores nucleares modulares (SMRs), tanto terrestres quanto flutuantes, ideais para abastecer regiões remotas do subcontinente.
  • Fronteira Tecnológica: Parcerias bilaterais em exploração espacial, construção naval civil, aviação e inteligência artificial.

Crise ucraniana, segurança indivisível e diálogo com Washington

Ao tratar do conflito na Ucrânia, Putin repetiu que as raízes da guerra remontam ao golpe de Estado de 2014 em Kiev e às sucessivas ondas de expansão da OTAN em direção às fronteiras russas, violando o princípio fundamental das relações internacionais de que a segurança de um país não pode ser garantida às custas da segurança de outro.

Ele defendeu que o fim das hostilidades exige o reconhecimento das realidades territoriais no terreno e a garantia de um status de neutralidade estrita para a Ucrânia, tal como constava na Declaração de Soberania original do país em 1991.

Sobre o cenário político nos Estados Unidos e as conversas com interlocutores da Casa Branca e do entorno de Donald Trump, Putin afirmou acreditar que o ex-presidente republicano busca de forma sincera vias para cessar o conflito e estancar as perdas humanas, embora tenha alertado que qualquer solução negociada precisará enfrentar os interesses econômicos e os fatores geopolíticos estruturais que alimentaram o impasse.

Um novo eixo civilizatório

A extensa entrevista de Vladimir Putin transmite um recado incontornável: o centro de gravidade do poder mundial já se deslocou. As alianças forjadas em torno da soberania econômica, das moedas nacionais e do respeito mútuo entre as grandes civilizações do Sul e do Leste já não operam na defensiva, mas constroem, passo a passo, a arquitetura da nova ordem multipolar.

FOTO: ANI

FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/em-entrevista-historica-a-tv-indiana-putin-exalta-parceria-com-modi-defende-ordem-multipolar-e-afirma-que-sul-global-lidera-transformacao-do-mundo/