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Entenda como Rússia e Reino Unido se aproximam de um conflito direto

Kremlin acusa Londres de participação direta no conflito na Ucrânia após governo britânico autorizar compartilhamento de dados para montagem de mísseis de longo alcance.

247 – A autorização do Reino Unido para compartilhar com a Ucrânia informações técnicas ligadas à montagem de mísseis de cruzeiro de longo alcance elevou a tensão com Moscou e reacendeu o debate sobre o risco de uma escalada direta entre russos e britânicos.

Segundo reportagem da RT, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que Londres está participando diretamente da guerra ao lado de Kiev e atua para prolongar o conflito. A declaração veio após o governo britânico confirmar que permitirá o repasse de informações confidenciais necessárias para a produção interna de mísseis na Ucrânia.

O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, confirmou a medida durante visita a Kiev. O governo do Reino Unido autorizou a fabricante europeia de defesa MBDA a divulgar dados sigilosos sobre componentes britânicos usados no SCALP, versão francesa do míssil Storm Shadow. O armamento, desenvolvido com tecnologia franco-britânica, é lançado do ar e tem alcance superior a 250 quilômetros.

“O Reino Unido foi o primeiro a doar armas de longo alcance à Ucrânia em 2023”, disse Burnham, em referência aos mísseis Storm Shadow/SCALP já enviados a Kiev. “Tenho o prazer de confirmar hoje que aprovei” o pedido ucraniano para o compartilhamento da tecnologia de produção, acrescentou.

A reação de Moscou foi dura. Peskov afirmou que a Grã-Bretanha está “participando desta guerra ao lado do regime de Kiev” e “metodicamente e regularmente alimentando o fogo e conspirando para impedir qualquer desenvolvimento do processo de paz”.

Kremlin promete atacar locais de produção

O porta-voz russo também indicou que Moscou tratará eventuais fábricas ou centros de montagem desses mísseis na Ucrânia como alvos militares. “Nossas forças armadas estão realizando o trabalho pertinente e obtendo os dados necessários para identificar os locais de produção desses mísseis e outros equipamentos militares, e estão tomando medidas para destruir esses locais”, disse Peskov.

Londres afirma que a divulgação das informações permitirá “que franceses e ucranianos avancem com a montagem do míssil na Ucrânia”. Para o governo britânico, a medida representa uma ampliação do apoio militar já prestado a Kiev desde 2023.

Antes da viagem à capital ucraniana, Burnham afirmou que o Reino Unido manterá o apoio ao governo de Vladimir Zelensky. “O povo ucraniano não deve ter dúvidas: o Reino Unido está com vocês hoje e pelo tempo que for necessário”, declarou.

Em Kiev, Burnham reuniu-se com Zelensky e presidiu sua primeira reunião da chamada “coalizão dos dispostos”, grupo criado por Reino Unido e França sob a liderança de seu antecessor, Keir Starmer, para coordenar apoio militar à Ucrânia.

Moscou acusa Londres de ser coautora de ataques

A tensão não se limita aos mísseis. Moscou afirma que o Reino Unido e outros fornecedores de armas são diretamente responsáveis pela campanha ucraniana de ataques aéreos de longo alcance contra território russo. Segundo a Rússia, essas operações frequentemente atingem civis.

De acordo com o Sunday Times, drones fabricados pela BAE Systems e por outra empresa britânica não identificada foram usados nos últimos seis meses para atacar alvos na Rússia, incluindo duas refinarias de petróleo. Entre os equipamentos citados está o Nyan, drone a jato produzido por uma subsidiária da BAE Systems.

Em comunicado divulgado na semana passada, a Embaixada da Rússia em Londres classificou o Reino Unido como “cúmplice e coautor dos crimes sangrentos e ataques terroristas” cometidos pela Ucrânia. A representação russa também advertiu que “quanto maior o seu envolvimento no conflito e maior o seu apoio à máquina terrorista de Kiev, maior será o preço que pagará”.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, reforçou o alerta. “Temos todo o direito de considerar o envolvimento direto, orgulhosamente proclamado, das forças de mísseis britânicas em ataques contra a Rússia como participação na guerra, com todas as consequências que isso acarreta”, disse.

Saída de embaixador expõe deterioração diplomática

A reportagem da RT contextualiza a crise com outro sinal de deterioração: a saída do embaixador russo Andrey Kelin do Reino Unido, no fim de julho, sem substituição imediata. A embaixada russa em Londres afirmou que as relações chegaram a um “nível sem precedentes” de desgaste.

Um porta-voz da representação diplomática disse ao Sunday Times que Kelin fez “esforços consideráveis para preservar os contatos e canais de comunicação” entre Moscou e Londres, mas que o governo britânico escolheu um “caminho de confronto”. Segundo a embaixada, ele deixou o país “na esperança de que um diálogo mais construtivo e respeitoso pudesse ser eventualmente restaurado, caso o Reino Unido reconsiderasse suas políticas em relação ao nosso país”.

A retirada do embaixador não significa, por si só, uma declaração de guerra, mas indica que os canais diplomáticos entre os dois países estão mais estreitos. Em crises anteriores, como os casos Alexander Litvinenko e Sergei Skripal, Moscou respondeu com expulsões recíprocas de diplomatas e medidas equivalentes, sem retirar seu representante em Londres.

Risco maior está na escalada indireta

O ponto central da crise é a fronteira entre apoio militar e participação direta na guerra. Para Londres, o fornecimento de armas, tecnologia e informações à Ucrânia faz parte da estratégia de sustentação de Kiev. Para Moscou, esse envolvimento transforma o Reino Unido em parte ativa do conflito.

A possibilidade de um confronto aberto entre Rússia e Reino Unido segue limitada pelo risco de uma escalada envolvendo a Otan, inclusive com potencial nuclear. Ainda assim, a combinação de mísseis de longo alcance, drones fabricados com tecnologia britânica, ataques em território russo e esvaziamento de canais diplomáticos torna o cenário mais perigoso.

RT também aponta que há vozes no próprio establishment britânico defendendo a retomada de algum tipo de diálogo com Moscou. O ex-adido de defesa John Foreman disse ao The Times que o Reino Unido deveria reabrir o “diálogo estratégico” com a Rússia e classificou como “absurda” a suspensão das comunicações militares entre os dois países em 2024.

O acadêmico Mark Galeotti afirmou, em entrevista ao ex-diplomata Ian Proud, que, “nos bastidores”, diplomatas e autoridades de segurança britânicas passaram a reconhecer que “chegamos ao ponto em que precisamos pressionar ambos os lados para algum tipo de resolução”. Ele também criticou o discurso de apoio indefinido à Ucrânia: “Depois de anos repetindo esses mantras vazios de ‘o quanto for preciso, pelo tempo que for preciso’, etc., etc., quem vai se virar e dizer ‘na verdade, pensando bem, isso não é do nosso interesse’?”.

Por ora, Burnham não sinaliza recuo. A autorização para transferir tecnologia ligada aos Storm Shadow/SCALP indica que Londres pretende aprofundar sua participação no esforço militar ucraniano. Moscou, por sua vez, afirma que responderá destruindo os locais de produção desses armamentos e tratando o envolvimento britânico como participação direta na guerra.

Nesse contexto, Rússia e Reino Unido não estão formalmente em guerra, mas a margem para erro diminuiu. A escalada pode não vir de uma declaração oficial, e sim de um ataque, uma retaliação ou um cálculo equivocado envolvendo armas britânicas usadas contra alvos russos.

FOTO: IA

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/entenda-como-russia-e-reino-unido-se-aproximam-de-um-conflito-direto/?utm_source=facebook&utm_medium=jetpack_social