A frase, registrada originalmente há 15 anos em entrevista à Revista Desenvolvimento por Ermínia Maricato — professora emérita da FAU-USP e uma das vozes mais respeitadas do urbanismo brasileiro —, ressoa hoje com uma urgência profética. Após décadas de atuação como gestora, ativista e acadêmica, a percepção de Maricato sobre a crise urbana no Brasil não apenas se confirmou, como ganhou contornos dramáticos diante da aceleração das mudanças climáticas.
O balanço dos últimos 15 anos revela um país que avançou na capacidade de monitorar o caos, mas que retrocedeu na estrutura que o gera.
O que melhorou: A era do monitoramento
Se há um campo onde o Brasil deu passos significativos, foi na gestão de dados e alertas. A criação de órgãos como o CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) transformou a forma como o Estado antecipa eventos extremos.
- Sistemas de Alerta: A tecnologia de SMS, sirenes em áreas de risco e a precisão dos mapas de suscetibilidade a deslizamentos e inundações são ferramentas que não existiam com essa capilaridade há uma década e meia.
- Consciência Acadêmica e Social: Termos como “racismo ambiental” e “justiça climática” deixaram os círculos restritos e passaram a pautar debates públicos, evidenciando que os desastres não são “naturais”, mas fruto de escolhas políticas de ocupação do solo.
O que piorou: O aprofundamento da exclusão
Apesar dos alertas, a “marcha rumo à inviabilidade” citada por Maricato acelerou no tecido urbano real.
- Déficit e Periferização: Programas habitacionais de larga escala priorizaram a quantidade em detrimento da localização. O resultado foi a expansão de cidades dispersas, empurrando populações para as franjas urbanas sem infraestrutura, o que aumenta a pressão sobre ecossistemas frágeis.
- Impermeabilização e Verticalização: O modelo de “cidade asfalto” prosseguiu. Rios continuam sendo canalizados e a verticalização desenfreada em centros consolidados cria ilhas de calor, obstruindo a ventilação natural e sobrecarregando sistemas de drenagem que já operam acima do limite.
- Valor da Terra: A especulação imobiliária continua sendo o motor principal do desenho das cidades, tratando o solo como ativo financeiro e não como função social, o que perpetua a ocupação de encostas e margens de rios por aqueles que não têm alternativa.
Perspectivas: O choque climático
Com a aceleração das mudanças climáticas, a crise urbana brasileira entra em uma nova e perigosa fase. As perspectivas para os próximos anos indicam que a inviabilidade pode se tornar absoluta em certas regiões se não houver uma mudança radical de rota.
- Eventos Extremos como Rotina: O conceito de “chuva milenar” foi enterrado pela realidade. Tempestades severas que ocorriam uma vez por século agora se repetem em intervalos de poucos anos, exigindo uma infraestrutura que o Brasil ainda não começou a construir: as “Cidades Esponja”.
- Inviabilidade Térmica: O calor extremo nas metrópoles, potencializado pela falta de áreas verdes, ameaça a saúde pública e a produtividade, tornando o ambiente urbano hostil à vida humana durante períodos cada vez mais longos do ano.
- Migrações Climáticas: A pressão do nível do mar em cidades litorâneas e a desertificação de áreas rurais devem gerar fluxos migratórios internos, sobrecarregando cidades médias que já sofrem com as mazelas urbanas históricas descritas por Maricato.
Quinze anos depois, a análise de Ermínia Maricato permanece como um diagnóstico não superado. A inviabilidade das cidades brasileiras não é mais uma questão de arquitetura ou engenharia, mas um desafio de sobrevivência política e ambiental que exige, acima de tudo, a coragem de enfrentar a lógica de produção da desigualdade no território.
FONTE: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas
( Reprodução autorizada mediante citação da fonte: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas )
(1) Disponível em: https://erminiamaricato.wordpress.com/wp-content/uploads/2012/03/cidades-inviaveis.pdf
FOTO: ARQUIVO PESSOAL