Em “EUA x China: A Luta pelo Poder Global”, Pedro Costa Jr. discorre sobre como os Estados Unidos vêm corroendo as próprias regras e instituições que ajudaram a fundar após a Segunda Guerra Mundial, em nome da expansão perene de seu poder por meio das “guerras eternas”.
Em “EUA x China: A Luta pelo Poder Global”, Pedro Costa Jr. propõe uma leitura bastante abrangente da disputa hegemônica que marca o século XXI, ancorada na teoria da transição hegemônica e na tradição realista das Relações Internacionais, com especial enfoque nas contribuições do eminente acadêmico brasileiro José Luiz Fiori. O mérito central da obra de Costa Jr está em articular, com o devido fôlego histórico (seguindo o espírito da ‘longue durée’ de Fernand Braudel), as variadas abordagens da política externa americana em relação à China, desde o século XIX até o presente.
Cost Jr. demonstra, com elevado grau de assertividade, o complexo funcionamento do sistema interestatal, no qual a ascensão de uma potência emergente torna-se sempre um fator de desestabilização para a potência dominante (o ‘hegemon’). Essa condição, por si mesma, evoca de forma inequívoca a famosa “armadilha de Tucídides”, segundo a qual transições hegemônicas são necessariamente precedidas e marcadas pelo medo que o poder estabelecido sente diante da ascensão de potenciais competidores sistêmicos.
Costa Jr acerta ao sublinhar que o colapso da União Soviética produziu, pela primeira vez na história do sistema mundial moderno, a possibilidade concreta de um império global sem resistência política ou militar significativa. Contudo, tal possibilidade passou a ser cada vez mais contestada ao longo dos anos 2000, em especial pela China e pela Rússia, no âmbito de sua parceria estratégica “sem limites”.
Em paralelo, Costa Jr. discorre sobre como os Estados Unidos vêm corroendo as próprias regras e instituições que ajudaram a fundar após a Segunda Guerra Mundial, em nome da expansão perene de seu poder por meio das “guerras eternas”. Trata-se, sem sombra de dúvidas, de uma das principais contribuições da obra, pois demonstra que a erosão da chamada ‘ordem liberal’ não decorre apenas da pressão estrutural de um rival ascendente (a China), mas também das escolhas feitas pelo próprio hegemon.
Há, logo, uma constatação candente na obra de Costa Jr, a saber, de que os Estados Unidos vêm acelerando sua própria queda, desde Clinton até Donald Trump. Diante desse contexto, a China surge como variável inescapável, como o polo que “ameaça” o ‘novo século americano’, a partir de uma agenda reformista ampla e ancorada numa civilização milenar, com atributos de poder invejáveis, como território, população, tecnologia e coesão política.
Não sem razão, no decorrer do segundo mandato de Trump à frente da Casa Branca, Washington tem recorrido ao unilateralismo econômico-militar como sua principal arma, aprofundando a disputa pelo poder global com a China. Tarifas generalizadas contra aliados e rivais, ataques recorrentes às instituições internacionais, o abandono de acordos e novos arroubos de beligerância contra países como a Venezuela e o Irã confirmam exatamente uma das previsões mais recorrentes de Costa Jr.: o “pouso forçado da águia” diante da “ascensão do dragão” chinês. Como refletiu Marco Aurélio, “algumas coisas se apressam a surgir, outras se apressam a desaparecer”. No fim, “A Luta pelo Poder Global” faz dessa reflexão do Imperador Romano uma verdadeira definição dos nossos tempos.
FOTO: Capa do Livro
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/eua-x-china-a-luta-pelo-poder-global/
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