Associação Brasileira dos Jornalistas

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A mídia que escandaliza é a mesma que normaliza

A seletividade editorial da grande imprensa brasileira expõe como a proteção a agendas econômicas neoliberais sobrepõe-se à denúncia de escândalos e à cobertura isenta.

É notória a indignação seletiva da imprensa brasileira diante de casos – provados ou suspeitos – de corrupção. O comprometimento dos jornalões e de seus colunistas, das TVs e dos seus comentaristas com a elite econômica os faz escandalizar fatos corriqueiros de um lado e normalizar evidências de ladroagem de outro. A imprensa mainstream compartilha da mesma visão econômica de mercado defendida pela direita, embandeirando-se de coisas como austeridade fiscal e privatizações. Destruir uma liderança daquela banda enfraquece o bloco político que defende essa agenda econômica. Bilhões de reais em publicidade que sustentam a mídia tradicional vêm de setores como o agronegócio, o sistema financeiro e grandes redes de varejo, que historicamente possuem forte inclinação neoliberal. Há uma pressão velada para não sufocá-los politicamente, daí a vista grossa.

O pedido de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, chamado de “irmão” pelo senador, responde por um exemplo seminal da condescendência da mídia com a faixa reacionária da política nacional. Sim, o deslize do 01 foi noticiado e até criticado, suspeitas foram levantadas, mas sempre revestidas de precauções éticas, técnicas e jurídicas. Isso é o correto? Pode até ser, mas, e se fosse um candidato da esquerda a solicitar a bolada a um criminoso? Estaria linchado, como por pouco não aconteceu – ainda – com Jaques Wagner.

A vida de playboy de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos é, por si só, um fato escandaloso. Foi denunciada pela imprensa? Sim, mas com estrondosa timidez. O 03 não trabalha, só conspira, e mora numa mansão em Southlake, no Texas, numa estrutura de resort. Cadê as capas produzidas para caracterizá-lo como nababo? Cadê a reportagem investigativa para descobrir a origem do dinheiro que o sustenta?

Persistentemente, permanece no nível do “é preciso investigar com cuidado” a teratologia imobiliária dos Bolsonaros, que em três décadas compraram 51 imóveis com dinheiro em espécie, nota em cima de nota, cujos valores atualizados ultrapassam R$ 25 milhões. Por que tamanha aberração não se tornou um grande escândalo de corrupção, ainda que na modalidade de suposição?

O próprio Jair Bolsonaro, que foi em certa medida abandonado pelas elites, permanecendo-lhe fiéis apenas os fanáticos, foi agraciado com inacreditável tolerância pela imprensa no caso das vacinas Covaxin durante a pandemia. O comportamento do então presidente da República no caso em tela é modelo para os mais nefastos, pusilânimes e corruptos agentes públicos. O argumento do “quase” prevaleceu.

A investigação apontou que o Ministério da Saúde negociou a compra de 20 milhões de doses da Covaxin por R$ 1,6 bilhão via uma empresa intermediária, a Precisa Medicamentos. Documentos indicavam um preço até 1.000% maior do que as previsões iniciais da fabricante. Como o escândalo estourou antes que o dinheiro público fosse efetivamente transferido, o contrato foi suspenso. A mídia tradicional rapidamente adotou uma linha de defesa institucional do governo, enfatizando repetidamente em suas manchetes que “o Erário não sofreu prejuízo real” ou que “não houve pagamento”.

Quando a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) concluíram que o presidente não tinha o “dever funcional” de agir e arquivaram o caso, a grande mídia deu enorme destaque à versão oficial de que “Bolsonaro foi inocentado”.

E o que dizer da forma quase apaixonada com que a mídia mainstream trata o ex-presidente golpista Michel Temer? O que lhe pesa como suspeita de corrupção mereceria uma dezena de capas de revista em que restaria vestido de presidiário, atrás das grades, e uma dúzia de torneiras jorrando dinheiro público na tela de fundo do Jornal Nacional.

Apesar de ter sido o primeiro presidente no exercício do cargo a ser denunciado formalmente por corrupção passiva, e de ter chegado a ser preso preventivamente, a figura pública de Temer passou por um rápido e eficiente processo de reabilitação midiática. Esse tratamento VIP deve-se a alguns fatores, e o principal deles é que a mídia tradicional compartilha e defende abertamente a agenda macroeconômica implementada por Temer após o impeachment de Dilma Rousseff. Medidas como o Teto de Gastos, a Reforma Trabalhista e a Lei de Terceirização receberam forte apoio editorial dos grandes jornais.

Para garantir a estabilidade necessária à aprovação dessas pautas liberais, a cobertura jornalística suavizou as denúncias de corrupção contra Michel Temer, tratando-as como “instabilidade política que ameaça as reformas”, e não como desvios morais inaceitáveis.

Por outro lado, dentre todas as injustiças midiáticas que visam a perpetuar o poder da elite brasileira – excetuando-se a histórica perseguição à qual um certo líder operário nordestino é submetido –, o linchamento da presidenta Dilma Rousseff é a mais emblemática. O inverso da proteção concedida a Michel Temer foi dado a uma política absolutamente honesta.

As pedaladas fiscais que justificaram seu impeachment consistiam em atrasar voluntariamente o repasse de fundos do Tesouro Nacional para bancos públicos para pagar programas sociais como o Bolsa Família. Na prática, os bancos pagavam os benefícios com recursos próprios e o governo os reembolsava depois. A imprensa tratou o mecanismo com forte teor escandaloso, operando uma mudança de tom drástica em relação a episódios anteriores.

Atrasos em repasses fiscais eram uma prática de manejo contábil utilizada rotineiramente, por exemplo, nos governos Fernando Henrique Cardoso. Nunca receberam denúncia nem mesmo atenção da mídia. Sob o argumento de que os valores haviam atingido proporções inéditas, a imprensa mainstream cobriu o tema diariamente com gráficos dramáticos e termos como “fraude fiscal” e “rombo criminoso”. Isso consolidou na opinião pública a percepção de que se tratava de um desvio de dinheiro público para enriquecimento pessoal, embora o dinheiro tivesse sido usado para pagar programas sociais aprovados por lei.

O debate puramente técnico sobre contabilidade pública foi simplificado e inflado nos jornais para justificar a tese de “crime de responsabilidade”. E Dilma caiu.

Em 2022, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) arquivou a ação de improbidade administrativa contra a ex-presidenta pelas pedaladas. Perícias do próprio Senado e do Ministério Público Federal já haviam apontado que ela não havia cometido ato ilícito doloso. No entanto, o arquivamento judicial do caso recebeu uma cobertura infinitamente menor e mais fria do que o escândalo inicial que pavimentou o impeachment em 2016.

FOTO: Brasil 247/Gemini

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/a-midia-que-escandaliza-e-a-mesma-que-normaliza/