Eu já nem consigo olhar para isto como simples erro político. 𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗮 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗻𝗮 𝗨𝗰𝗿𝗮̂𝗻𝗶𝗮 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝗺𝗶𝘀𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗶𝗴𝗼𝘀𝗮 𝗱𝗲 𝗮𝗿𝗿𝗼𝗴𝗮̂𝗻𝗰𝗶𝗮, 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗽𝗶𝗱𝗲𝘇, 𝘀𝗲𝗿𝘃𝗶𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗲 𝗻𝗲𝗴𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗮 𝗿𝗲𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲.
Durante anos, a Rússia avisou. Não foi ontem. Não foi em 2022. Este problema vem de trás. Desde os anos 90 que Moscovo vem dizendo que a expansão da NATO para leste seria vista como uma ameaça direta à sua segurança. Podemos gostar ou não gostar da Rússia. Podemos gostar ou não gostar de Putin. Mas fingir que esses avisos nunca existiram é mentira histórica.
𝗘 𝗳𝗼𝗶 𝗶𝘀𝘀𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗢𝗰𝗶𝗱𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗳𝗲𝘇: 𝗳𝗶𝗻𝗴𝗶𝘂. ![]()
Fingiu que podia empurrar a NATO cada vez mais para junto da fronteira russa sem consequências. Fingiu que podia transformar a Ucrânia numa plataforma geopolítica contra Moscovo sem reação. Fingiu que podia brincar com a segurança de uma potência nuclear como se estivesse a jogar xadrez num café de Bruxelas.
𝗦𝗼́ 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗿𝗲𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗲𝗿𝗱𝗼𝗮. ![]()
A Rússia é perfeita? Não, claro que não. Putin é perfeito? Não. A Ucrânia é perfeita? Também não. Zelensky é perfeito? Nem de longe. Os Estados Unidos são perfeitos? Nem pensar. A Europa é perfeita? Muito menos.
Então vamos lá parar com estas lentes de preto e branco. Vamos deixar de fingir que há de um lado santos imaculados e do outro monstros absolutos. Eu sou perfeito? Tu és perfeito? Alguém aqui é perfeito? Só podemos apoiar, criticar, compreender ou analisar alguma coisa se ela for 150% pura, limpa, moralmente esterilizada e sem uma única contradição?
𝗦𝗲 𝗳𝗼𝗿 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺, 𝗲𝗻𝘁𝗮̃𝗼 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗺𝗼𝘀 𝗱𝗶𝘀𝗰𝘂𝘁𝗶𝗿 𝗻𝗮𝗱𝗮. 𝗦𝗼́ 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗺𝗼𝘀 𝗮𝗷𝗼𝗲𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗮 𝗻𝗮𝗿𝗿𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮 𝗱𝗼 𝗺𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼.
E é exatamente isso que está a acontecer.
𝗔 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗱𝗲𝘂 𝗮 𝗰𝗮𝗽𝗮𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗲 𝗹𝗶𝗱𝗮𝗿 𝗰𝗼𝗺 𝗮 𝗮𝗺𝗯𝗶𝘃𝗮𝗹𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮. Perdeu a tolerância pela complexidade. Perdeu a coragem de pensar fora da manada. Deixámos que nos enchessem a cabeça com propaganda unilateral. Desde a pandemia, ao clima, à imigração e agora à guerra, é sempre a mesma marcha. Toda a caravana segue numa direção e ai de quem se atreva a sair da fila.
Quem questiona é traidor. Quem pergunta é extremista. Quem duvida é vendido a Moscovo. Quem exige contas é amigo de Putin.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗽𝗲𝗻𝘀𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼. 𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗱𝗼𝗺𝗲𝘀𝘁𝗶𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼.![]()
A Europa transformou-se numa coluna de marcha da estupidez. E a culpa também é nossa. Por comodismo. Por medo. Por falta de coragem civil. Por preguiça intelectual. Mas a culpa é também dos meios de comunicação, que trocaram jornalismo por catequese política.
𝗘 𝗲𝗺 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 𝗼 𝗽𝗿𝗼𝗯𝗹𝗲𝗺𝗮 𝗲́ 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘃𝗲𝗿𝗴𝗼𝗻𝗵𝗼𝘀𝗼. ![]()
Temos uma classe política inteira que fala da Ucrânia como se tivesse acabado de descobrir o mundo ontem de manhã. Gente que nunca estudou a história a sério, que não conhece a profundidade do conflito, que não entende a relação histórica entre Rússia, Ucrânia, NATO, Estados Unidos e Europa, mas que aparece nas televisões cheia de certezas, cheia de moral e cheia de frases feitas.
Defendem a Ucrânia com unhas e dentes, não por conhecimento, mas por reflexo. Porque Bruxelas diz. Porque Washington diz. Porque os jornais dizem. Porque fica bem. Porque dá aparência de virtude. Porque é mais fácil repetir a narrativa dominante do que estudar trinta anos de avisos, acordos falhados, provocações, expansão militar, interesses estratégicos e humilhações acumuladas.
𝗘 𝗶𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗽𝗲𝗿𝗶𝗴𝗼𝘀𝗼.
Porque quando uma classe política ignorante se convence de que está a defender a moral absoluta, torna-se capaz das maiores irresponsabilidades. Já nem precisa de pensar. Basta repetir. Basta condenar. Basta levantar a bandeira certa. Basta chamar “putinista” a quem pergunta o mínimo.
Portugal devia ser prudente. Devia olhar para a sua própria dimensão, para a sua fragilidade económica, para a sua dependência externa, para a sua irrelevância militar e perguntar: que interesse nacional temos nós em entrar nesta histeria de guerra? Que ganha Portugal em alinhar cegamente com uma estratégia europeia que nem a própria Europa consegue explicar? Que ganha o povo português com mais sanções, mais armas, mais tensão e mais risco de escalada?
Mas não. A nossa classe política prefere posar. Prefere fazer discursos bonitos. Prefere fingir que percebe de geopolítica quando, na verdade, mal consegue gerir um país pequeno, pobre, endividado e cada vez mais dependente.
𝗘́ 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗴𝗲́𝗱𝗶𝗮 𝗽𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝘂𝗲𝘀𝗮: os mesmos que falharam na habitação, na saúde, na justiça, na educação, na economia e na segurança, agora aparecem como especialistas em guerra, paz, Rússia, Ucrânia e segurança europeia.
𝗧𝗲𝗻𝗵𝗮𝗺 𝘃𝗲𝗿𝗴𝗼𝗻𝗵𝗮. ![]()
Antes de empurrarem Portugal para mais uma obediência cega, estudem história. Antes de repetirem slogans, estudem o que aconteceu desde os anos 90. Antes de tratarem Zelensky como santo e Putin como demónio isolado do contexto, estudem a NATO, estudem 2014, estudem o Donbass, estudem a Crimeia, estudem os acordos falhados, estudem os interesses americanos, estudem a decadência estratégica da Europa.
𝗠𝗮𝘀 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗱𝗮𝗿 𝗱𝗮́ 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗼. 𝗥𝗲𝗽𝗲𝘁𝗶𝗿 𝗽𝗿𝗼𝗽𝗮𝗴𝗮𝗻𝗱𝗮 𝗱𝗮́ 𝗺𝗲𝗻𝗼𝘀. ![]()
A Ucrânia não caiu do céu. Este conflito não começou no dia em que os tanques russos entraram. Essa foi a invasão, sim. E a Rússia tem responsabilidade por isso. Mas o conflito político, militar e geoestratégico vem de muito antes.
Em 2014, a situação já estava podre. A Ucrânia já era o campo de batalha entre interesses ocidentais e russos. A Rússia já via a perda definitiva da Ucrânia para o bloco ocidental como uma ameaça existencial. E aqui está o ponto duro: Putin tentou resolver parcialmente o problema em 2014, mas não resolveu o problema central. Tomou a Crimeia, apoiou movimentos no leste, mas deixou a ferida aberta.
E uma ferida geopolítica desta dimensão, quando é deixada a apodrecer durante anos, não desaparece. Cresce. Infecta. Fica mais cara. Fica mais sangrenta. Fica mais perigosa.
𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘅𝗽𝗹𝗼𝗱𝗶𝘂 𝗲𝗺 𝟮𝟬𝟮𝟮 𝗳𝗼𝗶, 𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗲, 𝗮𝗾𝘂𝗶𝗹𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗳𝗼𝗶 𝗿𝗲𝘀𝗼𝗹𝘃𝗶𝗱𝗼 𝗲𝗺 𝟮𝟬𝟭𝟰. ![]()
Isto não é uma defesa moral da invasão. É uma constatação fria. E a realidade não quer saber das nossas lágrimas morais.
Agora estamos numa situação muito pior. A Europa, em vez de procurar uma saída, está a fazer exatamente o contrário. Está a alimentar a guerra. Está a enviar armas. Está a enviar dinheiro. Está a apoiar sanções. Está a financiar um Estado ucraniano cada vez mais dependente do Ocidente. Está a participar numa guerra por procuração contra a Rússia, mas sem ter a coragem de o admitir.
𝗘 𝗶𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗰𝗼𝗯𝗮𝗿𝗱𝗶𝗮 𝗽𝗼𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗮.
Se a Europa quer guerra contra a Rússia, então diga. Se quer usar a Ucrânia para enfraquecer Moscovo, então diga. Se aceita o risco de escalada nuclear, então diga. Se está disposta a sacrificar a economia europeia, a estabilidade europeia e talvez a paz europeia por esta estratégia, então diga.
𝗠𝗮𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝘃𝗲𝗻𝗵𝗮 𝘃𝗲𝗻𝗱𝗲𝗿 𝗶𝘀𝘁𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗼 “𝗱𝗲𝗳𝗲𝘀𝗮 𝗱𝗮 𝗱𝗲𝗺𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮”.
𝗘𝘀𝘀𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘃𝗲𝗿𝘀𝗮 𝗷𝗮́ 𝗺𝗲𝘁𝗲 𝗻𝗼𝗷𝗼.![]()
Zelensky foi transformado numa figura sagrada. Um ator convertido em ícone moral. Um político vendido como herói universal, acima de críticas, acima de perguntas, acima de suspeitas. Mas eu não entro nesse culto.
A Ucrânia tem direito a existir. O povo ucraniano merece paz. Mas Zelensky não é a Ucrânia. Zelensky é um político. E como qualquer político, deve ser escrutinado. Ainda mais quando recebe rios de dinheiro europeu, armas ocidentais e cobertura mediática quase religiosa.
Governar em guerra não dá licença para tudo. Não dá licença para calar oposição. Não dá licença para concentrar poder. Não dá licença para controlar narrativa. Não dá licença para ser tratado como santo por jornalistas que já esqueceram o que é jornalismo.
Mas na Europa fingimos que sim.
Fingimos que Zelensky é democracia pura. Fingimos que Kiev está acima de qualquer pergunta. Fingimos que tudo o que vem da Ucrânia é automaticamente legítimo porque a Rússia invadiu. Isto é uma lógica infantil. Uma invasão russa não transforma automaticamente o governo ucraniano num altar sagrado.
𝗘 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝗵𝗮́ 𝗮 𝗴𝘂𝗲𝗿𝗿𝗮 𝘀𝘂𝗷𝗮.
𝗘 𝗼 𝗰𝗮𝘀𝗼 𝗱𝗲 𝗠𝗼𝗻𝗮𝗰𝗼 𝗱𝗲𝘃𝗶𝗮 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗮𝗹𝗾𝘂𝗲𝗿 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮 𝘀𝗲́𝗿𝗶𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮𝗿 𝗲 𝗽𝗲𝗻𝘀𝗮𝗿. ![]()
Um empresário ucraniano foi alvo de um atentado à bomba em Monaco. A sua companheira, segundo relatos publicados, ficou sem as duas pernas. Uma criança também esteve envolvida no ataque. Depois, a mulher suspeita de ter colocado a bomba apareceu morta perto de Kyiv. E para tornar tudo ainda mais grave, um oficial da inteligência militar ucraniana foi detido em ligação à morte dessa suspeita.
𝗘 𝗲𝘂 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗼: 𝗶𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗻𝗼𝗿𝗺𝗮𝗹?
É isto que a Europa quer fingir que não vê?
Não estou a dizer que já existe uma sentença final sobre quem mandou fazer tudo. Mas quando há um atentado contra um empresário ucraniano fora da Ucrânia, quando a companheira dele fica mutilada, quando a suspeita aparece morta na Ucrânia e quando aparece um elemento ligado aos serviços militares ucranianos no centro do caso, então uma Europa séria tinha de exigir respostas imediatas.
Mas não exige.
– Porque isso estraga a fotografia.
– Porque isso estraga o culto.
Porque isso estraga a narrativa do Zelensky santo, da Ucrânia pura e da Europa moralmente superior.
𝗘 𝗲́ 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗵𝗶𝗽𝗼𝗰𝗿𝗶𝘀𝗶𝗮 𝗰𝗵𝗲𝗴𝗮 𝗮𝗼 𝗻𝗼𝗷𝗼. ![]()
Se uma história destas envolvesse diretamente a Rússia, já tínhamos capas de jornais durante semanas, especiais televisivos, comentadores histéricos e políticos a pedir mais sanções antes sequer de saberem os factos todos. Mas como a história toca em estruturas ucranianas, de repente todos ficam prudentes. Todos esperam. Todos relativizam. Todos falam baixinho.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗷𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼. 𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗽𝗿𝗼𝘁𝗲𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗽𝗼𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗮. ![]()
E depois ainda querem que eu aceite sermões sobre democracia vindos de Kiev?
𝗗𝗲𝗺𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮?
Mas que democracia é essa onde já não há eleições há anos por causa da lei marcial? Sim, há uma explicação legal. Sim, a guerra cria dificuldades reais. Sim, há milhões de deslocados, soldados na frente, cidades bombardeadas e territórios ocupados. Mas uma explicação legal não apaga o problema político. Zelensky foi eleito para um mandato que terminou formalmente em 2024. Continua no poder porque a guerra suspendeu o calendário normal da democracia.
𝗘𝗻𝘁𝗮̃𝗼 𝘀𝗲𝗷𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗮𝗱𝘂𝗹𝘁𝗼𝘀: 𝗮 𝗨𝗰𝗿𝗮̂𝗻𝗶𝗮 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝘁𝗲𝗿 𝗿𝗮𝘇𝗼̃𝗲𝘀 𝗹𝗲𝗴𝗮𝗶𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗲𝗹𝗲𝗶𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀, 𝗺𝗮𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮𝗿 𝗮 𝘀𝗲𝗿 𝘃𝗲𝗻𝗱𝗶𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗱𝗲𝗺𝗼𝗰𝗿𝗮𝗰𝗶𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗳𝗲𝗶𝘁𝗮, 𝗽𝘂𝗿𝗮 𝗲 𝗶𝗻𝘁𝗼𝗰𝗮́𝘃𝗲𝗹.
Não pode.
Um país sem eleições há anos, dependente de dinheiro estrangeiro, armado por potências externas, com oposição pressionada, meios condicionados e serviços envolvidos em operações cada vez mais obscuras, não pode ser tratado como altar sagrado da liberdade europeia.
Pode ser apoiado? Pode.
Pode ser defendido? Pode.
Pode ser compreendido no contexto de guerra? Pode.
𝗠𝗮𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝗱𝗼 𝗻𝘂𝗺 𝗰𝘂𝗹𝘁𝗼 𝗼𝗻𝗱𝗲 𝗻𝗶𝗻𝗴𝘂𝗲́𝗺 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗻𝗮𝗱𝗮. ![]()
E agora há outro ponto ainda mais perigoso: a Ucrânia começou a levar a guerra cada vez mais para dentro da Rússia. Ataques com drones, ataques a infraestrutura energética, ataques a refinarias, ataques a navios, ataques a território russo. E tudo isto acontece com apoio, tecnologia, treino, dinheiro, inteligência e armamento ocidental.
Depois a Europa faz cara de inocente.
A Europa arma. A Europa financia. A Europa treina. A Europa dá cobertura política. A Europa aplaude quando a guerra entra na Rússia. Mas depois fica chocada quando Moscovo diz que a Europa está a participar na guerra.
𝗔 𝘀𝗲́𝗿𝗶𝗼?
Querem brincar aos adultos ou querem continuar no teatro infantil?
𝗦𝗲 𝗮𝗿𝗺𝗮𝘀 𝗲𝘂𝗿𝗼𝗽𝗲𝗶𝗮𝘀, 𝗱𝗶𝗻𝗵𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗲𝘂𝗿𝗼𝗽𝗲𝘂, 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗹𝗶𝗴𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗼𝗰𝗶𝗱𝗲𝗻𝘁𝗮𝗹 𝗲 𝗮𝗽𝗼𝗶𝗼 𝗽𝗼𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗲𝘂𝗿𝗼𝗽𝗲𝘂 𝗮𝗷𝘂𝗱𝗮𝗺 𝗮 𝗨𝗰𝗿𝗮̂𝗻𝗶𝗮 𝗮 𝗮𝘁𝗮𝗰𝗮𝗿 𝗮 𝗥𝘂́𝘀𝘀𝗶𝗮, 𝗲𝗻𝘁𝗮̃𝗼 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗳𝗼𝗿𝗮 𝗱𝗮 𝗴𝘂𝗲𝗿𝗿𝗮. 𝗘𝘀𝘁𝗮́ 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗲𝗹𝗮, 𝘀𝗼́ 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮 𝗱𝗼𝘀 𝗳𝘂𝗻𝗱𝗼𝘀. ![]()
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E essa é a parte mais perigosa de todas.
A Rússia diz que não quer uma terceira guerra mundial. Diz que não pretende atacar a Europa. Podemos acreditar ou não. Podemos desconfiar. Podemos dizer que Moscovo também mente. Tudo bem. Mas quando uma potência nuclear diz que não quer guerra direta com a Europa, uma Europa minimamente inteligente devia explorar essa porta diplomática até ao limite.
Mas não. A Europa faz o contrário.
A Europa passa o dia a dizer aos seus povos que a Rússia vai atacar a Europa. Que Putin vem aí. Que os tanques russos estão quase em Lisboa, Berlim, Varsóvia ou Paris. Cria medo. Cria histeria. Cria ambiente de mobilização. Cria justificação para gastar rios de dinheiro que não tem.
𝗘 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝗳𝗮𝘇 𝗲𝘅𝗮𝘁𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗮𝗾𝘂𝗶𝗹𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝗿 𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗻𝗮𝗿𝗿𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮 𝗲𝗺 𝗿𝗲𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲: 𝗮𝗷𝘂𝗱𝗮 𝗮 𝗮𝘁𝗮𝗰𝗮𝗿 𝗮 𝗥𝘂́𝘀𝘀𝗶𝗮. ![]()
Isto é loucura.
Dizem que a Rússia vai atacar a Europa e depois fazem tudo para que a Rússia, mais cedo ou mais tarde, tenha argumentos para tratar a Europa como parte direta da guerra. Isto não é defesa. Isto é provocação estratégica vestida de virtude moral.
𝗘 𝗾𝘂𝗲𝗺 𝘃𝗮𝗶 𝗽𝗮𝗴𝗮𝗿 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗹𝗼𝘂𝗰𝘂𝗿𝗮?
Não serão os burocratas de Bruxelas.
Não serão os generais reformados nas televisões.
Não serão os comentadores que falam de guerra com ar excitado.
Não serão os políticos que fazem discursos bonitos ao lado de bandeiras ucranianas.
𝗤𝘂𝗲𝗺 𝘃𝗮𝗶 𝗽𝗮𝗴𝗮𝗿 𝘀𝗲𝗿𝗮́ 𝗼 𝗽𝗼𝘃𝗼 𝗲𝘂𝗿𝗼𝗽𝗲𝘂. ![]()
O trabalhador. O pequeno empresário. A família que já não consegue pagar a casa. O reformado que vê tudo subir. O jovem que já não consegue começar a vida. O contribuinte que paga impostos para financiar uma guerra sem fim enquanto o seu próprio país falha na saúde, na habitação, na segurança, na educação e na economia.
𝗔 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗮 𝗴𝗮𝘀𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗶𝗻𝗵𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺.
Está a endividar o futuro.
Está a sacrificar investimento produtivo.
Está a destruir competitividade.
Está a trocar indústria, energia barata e estabilidade social por uma economia de guerra que só interessa a quem vende armas, contratos, influência e medo.
E depois chamam a isto solidariedade.
𝗘𝘂 𝗰𝗵𝗮𝗺𝗼-𝗹𝗵𝗲 𝘀𝗮𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗼𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼.
Porque quando um continente pobre em energia, endividado, envelhecido, burocrático e economicamente cada vez mais fraco decide entrar numa corrida armamentista contra uma potência nuclear, enquanto continua a financiar um Estado estrangeiro em guerra, a pergunta não é se o povo europeu vai pagar.
𝗔 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗮 𝗲́ 𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 𝘃𝗮𝗶 𝗽𝗮𝗴𝗮𝗿.
E vai pagar caro.
– Vai pagar em impostos.
– Vai pagar em inflação.
– Vai pagar em cortes.
– Vai pagar em salários estagnados.
– Vai pagar em empresas fechadas.
– Vai pagar em miséria social.
– Vai pagar em medo.
E talvez, se esta loucura continuar, pague também com guerra.
𝗘́ 𝗽𝗼𝗿 𝗶𝘀𝘀𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗱𝗲𝗯𝗮𝘁𝗲 𝘁𝗲𝗺 𝗱𝗲 𝘀𝗮𝗶𝗿 𝗱𝗮 𝗰𝗮𝘁𝗲𝗾𝘂𝗲𝘀𝗲 𝗲𝗺𝗼𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹 𝗲 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗮𝗿 𝗮̀ 𝗿𝗲𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲.
A Europa não está a salvar a Ucrânia. Está a prolongar uma guerra, a empurrar a Rússia para uma resposta mais dura, a militarizar o continente, a empobrecer o seu próprio povo e a fingir que tudo isto é moralidade.
𝗡𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗺𝗼𝗿𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲.
É 𝗶𝗿𝗿𝗲𝘀𝗽𝗼𝗻𝘀𝗮𝗯𝗶𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗵𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗰𝗮.
É 𝗮𝗿𝗿𝗼𝗴𝗮̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝘀𝘂𝗶𝗰𝗶𝗱𝗮.
É a velha Europa outra vez convencida de que pode brincar com guerra, impérios, fronteiras, alianças e humilhações sem pagar a fatura.
𝗠𝗮𝘀 𝗮 𝗳𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮 𝘃𝗲𝗺 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲. ![]()
E quando vier, os mesmos que hoje vendem esta loucura como coragem vão desaparecer atrás de discursos, desculpas e conferências de imprensa.
𝗖𝗼𝗺𝗼 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲.
Os atentados. As operações clandestinas. As acusações de liquidações. Os ataques dentro e fora da Rússia. As histórias que aparecem e desaparecem rapidamente dos jornais, porque não combinam com a imagem angelical de Kiev.
Quando a Rússia faz algo, é terrorismo, barbárie, crime absoluto. Quando surgem acusações contra estruturas ucranianas, de repente todos ficam prudentes, silenciosos, cautelosos. Aí já não há manchetes histéricas. Aí já não há moralistas aos gritos. Aí já não há lágrimas televisivas.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗰𝗵𝗮𝗺𝗮-𝘀𝗲 𝗵𝗶𝗽𝗼𝗰𝗿𝗶𝘀𝗶𝗮.
E esta hipocrisia é ainda mais grave porque somos nós que pagamos. O dinheiro europeu entra. As armas europeias entram. A cobertura política europeia entra. Portanto, temos o direito absoluto de perguntar: que regime estamos a alimentar? Que operações estamos a permitir? Que guerra estamos a prolongar? Que riscos estamos a comprar com o nosso próprio dinheiro?
Mas a Europa não quer responder. A Europa prefere continuar a marchar.
𝗘𝘀𝘁𝗲 𝗰𝗼𝗻𝗳𝗹𝗶𝘁𝗼 𝗷𝗮́ 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝘂𝗺𝗮 𝗴𝘂𝗲𝗿𝗿𝗮 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗮 𝗨𝗰𝗿𝗮̂𝗻𝗶𝗮 𝗲 𝗮 𝗥𝘂́𝘀𝘀𝗶𝗮. Isso é conversa para crianças. Este conflito tornou-se uma guerra por procuração. Primeiro entre os Estados Unidos e a Rússia. Agora entre a Rússia, de um lado, e a Ucrânia apoiada pelos Estados Unidos, pela NATO e pela Europa, do outro.
Enviamos dinheiro. Enviamos armas. Enviamos inteligência. Damos cobertura política. Apoiamos sanções. Participamos no enfraquecimento estratégico da Rússia. Mas depois fingimos que estamos apenas sentados na bancada, a torcer pela equipa certa.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮.
𝗘 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗶𝗴𝗼𝘀𝗮. ![]()
Quando uma potência nuclear começa a ser atacada diretamente, quando infraestruturas russas são atingidas, quando a guerra entra cada vez mais dentro do território russo, a pressão interna aumenta. E quando a pressão aumenta dentro de uma potência nuclear, a escalada deixa de ser uma teoria e passa a ser uma possibilidade concreta.
O contrato básico de qualquer Estado é simples: obediência em troca de proteção. As pessoas aceitam pagar impostos, cumprir leis e obedecer ao Estado porque esperam segurança. Se o Estado deixa de conseguir proteger, a sua autoridade começa a tremer. E quando essa autoridade treme numa potência nuclear, a situação torna-se explosiva.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗽𝗿𝗼𝗽𝗮𝗴𝗮𝗻𝗱𝗮 𝗿𝘂𝘀𝘀𝗮. 𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮 𝗽𝗼𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗮 𝗯𝗮́𝘀𝗶𝗰𝗮.
Mas hoje basta dizer isto para aparecer logo o fiscal da moral a gritar: “Putinista!”
𝗘́ 𝘂𝗺𝗮 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗽𝗶𝗱𝗲𝘇.
Querer falar com a Rússia não é apoiar a Rússia. Querer perceber a lógica de Moscovo não é desculpar Moscovo. Alertar para os riscos da escalada não é trair a Ucrânia. Exigir debate sobre Zelensky, sobre o dinheiro europeu, sobre atentados, sobre corrupção, sobre censura e sobre a ausência de eleições não é ser amigo do Kremlin. É ser adulto.
𝗢 𝗽𝗿𝗼𝗯𝗹𝗲𝗺𝗮 𝗲́ 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗷𝗮́ 𝗻𝗮̃𝗼 𝗾𝘂𝗲𝗿 𝗮𝗱𝘂𝗹𝘁𝗼𝘀. 𝗤𝘂𝗲𝗿 𝗿𝗲𝗽𝗲𝘁𝗶𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝘀𝗹𝗼𝗴𝗮𝗻𝘀.
E depois há outra hipocrisia enorme. Quando se diz que a Rússia recebe apoio do Irão ou da Coreia do Norte, toda a gente fica indignada. Mas então façamos a pergunta ao contrário: nós também não estamos a alimentar este conflito com dinheiro, armas, treino, inteligência militar e apoio político?
𝗖𝗹𝗮𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗺𝗼𝘀.
Então sejamos honestos.
Se a estratégia é enfraquecer a Rússia até ela cair de joelhos, digam isso claramente. Mas digam também quais são os riscos.
Digam o que acontece se a Rússia não cair.
Digam o que acontece se responder.
Digam o que acontece se a guerra sair definitivamente do território ucraniano.
Digam o que acontece se os países que hoje agem nos bastidores forem arrastados diretamente para o conflito.
𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗮𝗰𝗲𝗶𝘁𝗼 𝗲́ 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗽𝗼𝗹𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗮 𝗶𝗻𝗳𝗮𝗻𝘁𝗶𝗹 𝗱𝗲 𝗳𝗶𝗻𝗴𝗶𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝘂𝗱𝗼 𝗲́ 𝘀𝗶𝗺𝗽𝗹𝗲𝘀.
A Rússia é má, nós somos bons. A Ucrânia é santa, Zelensky é herói, a Europa é nobre, os Estados Unidos são altruístas, a NATO é apenas defensiva e quem fizer perguntas é um monstro.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗮𝗻𝗮́𝗹𝗶𝘀𝗲. 𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗹𝗶𝘅𝗼 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗹𝗲𝗰𝘁𝘂𝗮𝗹. ![]()
A verdade é mais dura: a Ucrânia está a ser destruída, os ucranianos estão a morrer, a Rússia não desapareceu, a Europa está a militarizar-se, os Estados Unidos jogam o seu jogo geopolítico, Zelensky governa protegido pela lógica da guerra, a oposição é pressionada, os meios de comunicação são condicionados, operações clandestinas levantam perguntas graves e nós continuamos a fingir que estamos numa cruzada moral limpa.
𝗡𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗺𝗼𝘀.
Estamos metidos numa guerra cada vez mais suja, cada vez mais longa e cada vez mais perigosa.
𝗘 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗮 𝗮 𝗔𝗹𝗲𝗺𝗮𝗻𝗵𝗮. ![]()
A Alemanha devia ser o país mais prudente da Europa. Devia ser o país mais cuidadoso com linguagem militar, com escaladas, com aventuras geopolíticas, com ilusões de superioridade moral. A Alemanha esteve no centro das duas grandes catástrofes europeias do século XX. Duas guerras mundiais destruíram a Europa e deixaram marcas que ainda hoje deviam servir de aviso.
Mas o que vemos agora?
Vemos políticos alemães outra vez cheios de moral militar. Outra vez convencidos de que estão do lado certo da história. Outra vez a empurrar a Europa para uma lógica de confronto. Outra vez a falar como se a guerra fosse uma ferramenta limpa, controlável, administrável.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗲́ 𝗮𝘀𝘀𝘂𝘀𝘁𝗮𝗱𝗼𝗿.
Não estou a dizer que a Alemanha quer uma terceira guerra mundial. Estou a dizer algo pior: a Alemanha parece outra vez incapaz de medir as consequências da sua própria arrogância política.
𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮 𝗔𝗹𝗲𝗺𝗮𝗻𝗵𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗱𝗲 𝗼 𝗷𝘂𝗶́𝘇𝗼, 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗽𝗮𝗴𝗮.
A primeira grande catástrofe europeia nasceu de alianças, arrogâncias, mobilizações e cegueira. A segunda nasceu de ideologia, expansão, revanche e fanatismo. A terceira, se vier, pode nascer da combinação moderna de propaganda moral, servilismo perante Washington, irresponsabilidade europeia, escalada militar e incapacidade de falar com o inimigo.
𝗘 𝘀𝗲 𝗲𝘀𝘀𝗮 𝘁𝗲𝗿𝗰𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗰𝗮𝘁𝗮́𝘀𝘁𝗿𝗼𝗳𝗲 𝘃𝗶𝗲𝗿, 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗲𝗿𝗮́ 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗮𝘀 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗮𝘀. Não será trincheira, lama e baioneta. Não será apenas tanques, aviões e cidades bombardeadas. Será nuclear. Será tecnológica. Será energética. Será económica. Será civilizacional.
𝗘 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝗻𝗮̃𝗼 𝗵𝗮𝘃𝗲𝗿𝗮́ 𝗰𝗼𝗻𝗳𝗲𝗿𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝘀𝗮𝗹𝘃𝗲 𝗻𝗶𝗻𝗴𝘂𝗲́𝗺. ![]()
Putin já avisou várias vezes que a Rússia não aceitará certas linhas vermelhas. Podemos achar bluff. Podemos achar chantagem. Podemos achar propaganda. Mas quando uma potência nuclear fala em linhas vermelhas, só um idiota trata isso como ruído.
𝗘 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗰𝗵𝗲𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗶𝗱𝗶𝗼𝘁𝗮𝘀 𝗰𝗼𝗺 𝗴𝗿𝗮𝘃𝗮𝘁𝗮.
O que me revolta é esta leveza. Esta pose moral. Esta gente que nunca pegou numa arma, nunca perdeu um filho na guerra, nunca viu uma cidade arder, mas fala de escalada como quem comenta futebol. Querem mais sanções. Mais armas. Mais pressão. Mais confronto. Mais “vitória”. Mas quando se pergunta o que acontece se a Rússia responder diretamente, ficam calados ou repetem slogans.
𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗴𝗲𝗺. 𝗘́ 𝗶𝗿𝗿𝗲𝘀𝗽𝗼𝗻𝘀𝗮𝗯𝗶𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲.
A Europa não tem estratégia. Tem emoções. Tem propaganda. Tem obediência. Tem medo de Washington. Tem medo da imprensa. Tem medo de admitir que se meteu num beco sem saída.
𝗘 𝗲𝗻𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 𝗶𝘀𝘀𝗼, 𝗮 𝗨𝗰𝗿𝗮̂𝗻𝗶𝗮 𝘀𝗮𝗻𝗴𝗿𝗮. ![]()
Porque quem morre todos os dias não são os burocratas de Bruxelas. Não são os comentadores alemães. Não são os moralistas de televisão. Não são os políticos que posam ao lado de Zelensky. Quem morre são ucranianos. Quem perde filhos são famílias ucranianas. Quem vê o país destruído é o povo ucraniano.
E a Europa chama a isso solidariedade.
𝗘𝘂 𝗰𝗵𝗮𝗺𝗼-𝗹𝗵𝗲 𝗰𝗶𝗻𝗶𝘀𝗺𝗼.
Se a Europa quisesse realmente salvar a Ucrânia, já teria pressionado por negociações sérias. Já teria exigido uma arquitetura de segurança que incluísse também a Rússia, porque gostemos ou não, a Rússia existe e continuará a existir. Já teria parado de fingir que a paz pode nascer da humilhação total de uma potência nuclear.
Mas não. A Europa quer vitória moral. Quer fotografias. Quer discursos. Quer bandeiras. Quer sentir-se pura.
𝗘 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗽𝘂𝗿𝗲𝘇𝗮 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝗺𝗮𝘁𝗮𝗿-𝗻𝗼𝘀.
O maior perigo hoje não é apenas a Rússia. O maior perigo é uma Europa convencida da sua própria superioridade moral, incapaz de reconhecer erros, incapaz de ouvir avisos, incapaz de negociar e incapaz de perceber que está a caminhar para uma possível guerra total.
𝗔 𝗴𝘂𝗲𝗿𝗿𝗮 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝗯𝗲𝘀𝘁𝗮. Começa com frases bonitas. Começa com “defender valores”. Começa com “estar do lado certo”. Começa com “não podemos ceder”. Depois ganha vida própria. Alimenta-se de mortos, orgulho, vingança, propaganda e medo. E quando se tenta pará-la, muitas vezes já é tarde.
É por isso que eu digo: 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝘁𝗲𝗺 𝗱𝗲 𝗮𝗰𝗼𝗿𝗱𝗮𝗿 𝗮𝗴𝗼𝗿𝗮. ![]()
Não amanhã. Não depois de mais uma ofensiva. Não depois de mais uma linha vermelha ultrapassada. Não depois de mais um míssil. Não depois de um ataque direto contra um país europeu. Não depois de uma resposta russa que já ninguém conseguirá controlar.
𝗔𝗴𝗼𝗿𝗮.
Temos de sair desta marcha cega. Temos de voltar a falar de paz sem vergonha. Temos de exigir debate. Temos de exigir contas. Temos de exigir estratégia. Temos de perguntar quem ganha com esta guerra. Temos de perguntar quem lucra. Temos de perguntar quem morre. Temos de perguntar porque razão a Europa se deixou transformar num instrumento de uma guerra que talvez nunca consiga vencer.
𝗔 𝗥𝘂́𝘀𝘀𝗶𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗶𝗻𝗼𝗰𝗲𝗻𝘁𝗲.
𝗠𝗮𝘀 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝗻𝗮̃𝗼 𝗼 𝗲́.
𝗘 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗺𝗲𝗻𝗼𝘀, 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮𝗰𝗲𝗶𝘁𝗮 𝗿𝗲𝗽𝗲𝘁𝗶𝗿 𝘁𝘂𝗱𝗼 𝘀𝗲𝗺 𝗲𝘀𝘁𝘂𝗱𝗮𝗿 𝗻𝗮𝗱𝗮, 𝘀𝗲𝗺 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗻𝗮𝗱𝗮 𝗲 𝘀𝗲𝗺 𝗱𝗲𝗳𝗲𝗻𝗱𝗲𝗿 𝘀𝗲𝗾𝘂𝗲𝗿 𝗼 𝘀𝗲𝘂 𝗽𝗿𝗼́𝗽𝗿𝗶𝗼 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗲𝘀𝘀𝗲 𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹. ![]()
A grande mentira do nosso tempo é esta: 𝗳𝗶𝗻𝗴𝗶𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗮 𝗱𝗲𝗳𝗲𝗻𝗱𝗲𝗿 𝗮 𝗽𝗮𝘇, 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗻𝗮 𝗽𝗿𝗮́𝘁𝗶𝗰𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗮 𝗮𝗹𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝗴𝘂𝗲𝗿𝗿𝗮 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝘃𝗲𝘇 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗽𝗲𝗿𝗶𝗴𝗼𝘀𝗮.
Se isto continuar assim, a pergunta já não será se haverá escalada.
𝗔 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗮 𝘀𝗲𝗿𝗮́ 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼.
E se um dia esta loucura acabar numa catástrofe nuclear, os mesmos que hoje chamam “putinista” a quem avisa serão os primeiros a dizer que ninguém podia prever.
𝗣𝗼𝗱𝗶𝗮, 𝘀𝗶𝗺.
𝗠𝘂𝗶𝘁𝗮 𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗮𝘃𝗶𝘀𝗼𝘂.
𝗦𝗼́ 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗘𝘂𝗿𝗼𝗽𝗮, 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘂𝗺𝗮 𝘃𝗲𝘇, 𝗽𝗿𝗲𝗳𝗲𝗿𝗶𝘂 𝗺𝗮𝗿𝗰𝗵𝗮𝗿.
FONTE: https://www.facebook.com/photo/?fbid=10243160546651798&set=a.1219333965766