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Fascismo não se controla; se combate

Colunista Marcelo Zero alerta para os riscos de normalizar pautas do bolsonarismo e defende a preservação da democracia brasileira.

Todas as tentativas históricas de se “domesticar”, “controlar”, “civilizar” as forças fascistas e a extrema-direita de uma forma geral acabaram fracassando miseravelmente.

Na Itália, o rei Vittorio Emanuelle III, após a Marcha a Roma dos fascistas, em 1922, resolveu nomear Benito Mussolini primeiro-ministro, achando que seu anticomunismo seria útil para controlar os bolcheviques e que ele seria moderado por uma coalizão de forças políticas.

Mas a coalizão só durou até 1925, quando Mussolini declarou-se ditador, eliminou a separação entre os poderes e passou a governar a Itália com punho de ferro, reprimindo barbaramente todos os opositores.

Na Alemanha, os políticos de centro e da direita tradicional da frágil República de Weimar, que era chamada, pelos nazistas, de “O Sistema”  -Das System- (acredite, o “antissistema” é tão velho quanto o “sistema” e a antipolítica tem mais de cem anos), repetiram a tragédia italiana dez anos mais tarde.

Em 1932, em meio a uma gravíssima crise econômica que a República de Weimar tentou gerir com profundos cortes orçamentários e com a destruição das incipientes políticas sociais (uma verdadeira motosserra avant la lettre), foram realizadas eleições, nas quais o partido de Hitler saltou de 18% para 33%, a agremiação política com maior votação.

Hindenburg e a direita tradicional, alarmados com o crescimento da esquerda e com os protestos sociais, resolveram nomeá-lo chanceler. Ao mesmo tempo, Hindenburg nomeou Von Papen como vice-chanceler, estabelecendo uma coalizão dos nazistas com o Partido do Centro.

Hindenburg e Von Papen, num monumental erro de cálculo político, consideravam que, dessa forma, poderiam “controlar” Hitler.

Hitler, evidentemente, tinha outros planos para os que ele chamava, com profundo desprezo, de “galinhas cacarejantes”, os políticos tradicionais de forma geral.

Mandou incendiar o Reichstag, botou a culpa nos comunistas e, em seguida, ao final de março de 1933, conseguiu aprovar o Decreto de Incêndio do Reichstag e a Lei de Habilitação de 1933, as quais criaram um estado de emergência para conceder efetivamente ao novo Chanceler amplos poderes para agir fora de qualquer controle parlamentar ou jurídico.

Hitler, implacável, utilizou prontamente esses poderes extraordinários para impedir a governabilidade constitucional e suspender as liberdades civis, o que provocou o rápido colapso da democracia em nível federal e regional.

Com a morte de Hindenburg, em 1934, ele se tornou o Führer inconteste, o fundador do regime totalitário que pretendia durar mil anos. As “galinhas cacarejantes” e todos os opositores foram varridos do mapa.

Assim, tanto Mussolini como Hitler não chegaram ao poder com golpes. Não. Eles chegaram ao poder pela via democrática, conforme as regras da época. Porém, em calculados movimentos subversivos, que foram tolerados ou ignorados pelos “democratas” e pelos “moderados”, eles fundaram regimes totalitários.

O fascismo e o nazismo triunfaram porque as democracias da época permitiram ser destruídas por dentro.

Desculpem aqueles que têm memória curta ou seletiva, mas tudo isso lembra acontecimentos recentes e dolorosos ocorridos no Brasil.

O bolsonarismo, inegavelmente uma forma de fascismo, chegou ao poder no Brasil também pela via democrática, servindo-se do “lavajatismo” e do antipetismo, verdadeiras patologias da nossa democracia.

Nesse processo, a direita tradicional e comprometida com a democracia foi varrida politicamente, dando lugar a uma súcia de milicianos visceralmente corruptos, violentos e antidemocratas.

Nesse processo, foi eleito o pior presidente da história do país. Um miliciano comprometido com a morte, o negacionismo científico e climático, a ditadura e com o “apequenamento” e o isolamento do Brasil. Um pateta mortal.

Nesse processo, por pouco, muito pouco mesmo, a democracia brasileira não foi varrida do mapa.

A democracia brasileira só não foi varrida do mapa por Bolsonaro, tal como aconteceu na Itália e na Alemanha, porque houve reação. Nossa democracia, no último momento, soube se defender.

Soube dizer não ao golpe que Bolsonaro e os seus apoiadores tinham toda a intenção de realizar, com derramamento de sangue de brasileiras e brasileiros.

Escrevo este artigo e ainda estou vivo porque, em um momento determinante da nossa história, uma instituição tão importante como o STF soube reagir.

Escrevo este artigo e ainda estou vivo porque, no último momento, as forças democráticas do Brasil souberam se unir em torno da candidatura de Lula e derrotaram o fascismo e seu golpe.

Escrevo este artigo e ainda estou vivo porque setores importantes da nossa imprensa perceberam a tempo o que ocorria e reagiram.

Entretanto, pergunto: não aprendemos nada com nossa própria história?

Parece que não. Hegel dizia, com sua singular sabedoria, que a única coisa que a História ensina é que os homens não aprendem nada com ela.

Como tenho boa memória e o tempo e as leituras me fizeram aprender alguma coisa, penso que considerar a candidatura de Flávio Bolsonaro, um mero proxy de seu pai, como algo “normal”, uma alternativa viável,  é um suicídio democrático.

Um suicídio democrático e um crime contra nossa soberania, levando em consideração os inacreditáveis tempos geopolíticos que vivemos.

Considerar que o bolsonarismo, uma óbvia aberração antidemocrática, uma clara patologia política, como algo que poderá ser controlado e moderado em ambiente democrático é de uma estupidez política monumental. É repetir, de novo, o patético exemplo das “galinhas cacarejantes” da trágica República de Weimar.

O DNA do totalitarismo é parte integrante da estrutura do bolsonarismo.  E é da natureza do fascismo, qualquer que seja sua forma histórica, tentar abolir a democracia.

É como aquela fábula do escorpião e da rã. Por instinto, por natureza, o escorpião sempre picará a rã que o ajuda a atravessar o rio.

Marcuse, um autor que precisa ser lido ou relido com urgência, que sabia muito bem dos riscos do fascismo e do nazismo e que salvou o hegelianismo da sua deturpação pelos nazistas, dizia que uma das principais características do fascismo é sua profunda irracionalidade.

Não há diálogo racional com fascistas. Fascismo é instinto destruidor. É Thanatos. É ódio.

Por isso, peço, imploro a todos os democratas que restam.

Você não precisa gostar do PT. Você não precisa gostar de Lula. Acredite, você nem precisa ser de esquerda! Você pode, sim, ser conservador! E você é livre para não gostar de político algum.

Mas é preciso ter algum amor pelo Brasil. Algum apreço pela democracia.

Por isso, nas próximas eleições, faça um favor a você mesmo.  Cumpra um dever de cidadão. Saia de casa e vote para salvar o Brasil e sua democracia.

Como eu, você poderá cometer muitos erros na sua vida.

Mas você nunca estará errado se estiver do lado certo da História. E o lado certo da História sempre será, em quaisquer circunstâncias, a democracia.

FOTO: Agência Senado I Reprodução via BdF

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/fascismo-nao-se-controla-se-combate/