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O perde-perde da Globo para Lula

Decisão de permitir perguntas a candidato ausente em debate cria ‘tribunal sem defesa’ e expõe interferência eleitoral a poucos dias da votação.

Trinta e sete anos após a edição do último debate eleitoral de 1989, que terminou com a vitória de Fernando Collor de Mello no enfrentamento com Lula, a Rede Globo parece disposta a se superar. Nem precisará utilizar seus editores. Indo ou não ao debate, o candidato Lula poderá sair como o grande perdedor, pelo menos na visão canhestra da emissora.

Se comparecer nesta quinta-feira (1º) aos estúdios da emissora, no Rio de Janeiro, o presidente ficará engessado pelo modelo do debate. Além de ser o alvo dos três adversários, produzirá falas que poderão ser recortadas e utilizadas à exaustão, com a ajuda de robôs e algoritmos, até o dia da votação.

Se não comparecer, o que é um direito de qualquer cidadão de declinar de um convite para debates e até para entrevistas, Lula também poderá pagar um preço alto.

Segundo o Painel da Folha de S.Paulo, a emissora dos Marinho decidiu que irá punir o candidato que faltar ao debate não apenas com a exibição da cadeira vazia. Pasmem: os outros três candidatos também terão o direito de fazer perguntas ao ausente.

Ou seja, a Globo não apenas registrará a ausência de Lula, mas criará uma dinâmica que permitirá aos três adversários dirigir perguntas a um candidato que não estará presente para respondê-las. Na prática, trata-se de uma regra que pode produzir um efeito político-eleitoral relevante sobre quem decidir não participar do debate.

Mais do que isso, na minha avaliação, a emissora estará utilizando uma concessão pública para impor uma espécie de punição editorial a um candidato que tomou uma decisão contrária aos interesses da emissora. Se essa regra for mantida, estaremos diante de uma interferência editorial com viés político-eleitoral.

A questão é ainda mais grave quando se considera um dos compromissos fundamentais do bom jornalismo: a imparcialidade. E, neste caso, há também um princípio elementar que não deveria ser abandonado: quando alguém é acusado ou criticado publicamente, deve ter assegurado o direito de resposta e de apresentar sua versão dos fatos.

Criar uma situação em que três adversários possam questionar um candidato ausente, sem que ele esteja presente para responder, significa transformar a ausência em uma espécie de tribunal sem direito de defesa. Se isso se confirmar, a Globo não estará apenas organizando um debate: estará estabelecendo uma regra com potencial de interferir na disputa eleitoral a três dias da votação.

É por isso que a questão ultrapassa os limites de uma emissora e de um candidato. Quando uma concessão pública entra na disputa eleitoral como instrumento de punição, o problema deixa de ser apenas jornalístico. Passa a ser uma questão de defesa da nossa democracia.

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-perde-perde-da-globo-para-lula/