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Fertilizantes em crise e El Niño acendem alerta para risco de falta de alimentos no mundo

Alta dos insumos, restrições logísticas no Oriente Médio e possibilidade de um El Niño excepcionalmente intenso aumentam a vulnerabilidade das próximas safras e podem pressionar os preços internacionais

Fertilizantes em crise e El Niño colocam a agricultura mundial diante de um período de maior incerteza. A ameaça não está em uma escassez generalizada de alimentos já instalada, mas na possibilidade de dois fatores decisivos para as lavouras — disponibilidade de nutrientes e condições climáticas — se deteriorarem ao mesmo tempo, reduzindo a margem de segurança da produção global.

O componente climático ganhou relevância em agosto. O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, ligado à NOAA, passou a indicar mais de 90% de probabilidade de o El Niño alcançar intensidade muito forte durante o outono e o inverno de 2026/27 no Hemisfério Norte.

Para o período entre outubro e dezembro, a projeção aponta ainda 69% de possibilidade de o episódio alcançar intensidade superior aos eventos observados desde 1950, de acordo com os critérios utilizados pelo órgão norte-americano. Enquanto o Pacífico aquece, outra pressão cresce longe das lavouras: o mercado internacional de fertilizantes enfrenta custos elevados e dificuldades logísticas relacionadas às tensões no Oriente Médio.

A combinação é preocupante porque reduz a capacidade dos agricultores de reagir a uma eventual quebra climática.

Fertilizantes em crise e El Niño atingem dois pilares da produtividade

Uma lavoura depende de diferentes fatores, mas dois deles têm peso direto sobre seu rendimento: nutrição adequada e condições meteorológicas favoráveis.

Quando fertilizantes encarecem, produtores podem rever doses, trocar produtos, postergar compras ou cortar investimentos. Isso não significa necessariamente uma quebra de safra, mas pode reduzir o potencial produtivo de determinadas culturas.

Se essa situação vier acompanhada de seca, calor intenso, excesso de chuvas ou irregularidade na precipitação, o espaço para compensar perdas diminui.

É justamente essa interação que diferencia o cenário atual de uma simples oscilação de preços dos insumos.

Dados do Banco Mundial mostram que os fertilizantes ficaram 35% mais caros nos cinco primeiros meses de 2026 em comparação com igual período de 2025. A instituição também projetou aumento expressivo para o setor ao longo do ano, especialmente para produtos nitrogenados.

O produtor, portanto, pode chegar ao próximo ciclo agrícola pagando mais para construir o mesmo potencial produtivo.

Estreito de Ormuz amplia tensão sobre os fertilizantes

Parte da preocupação está concentrada no Estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais mais estratégicas do planeta.

A região é relevante não apenas para petróleo e gás, mas também para a circulação de matérias-primas utilizadas pela agricultura.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aproximadamente 1,3 milhão de toneladas de fertilizantes por mês deixaram de atravessar normalmente o corredor marítimo em meio às interrupções recentes.

O impacto envolve insumos como ureia, amônia, fosfatos e enxofre.

A situação chama atenção porque fertilizantes nitrogenados dependem fortemente do gás natural em seu processo de fabricação.

Assim, problemas energéticos no Oriente Médio conseguem alcançar as propriedades rurais por diferentes caminhos: encarecem a produção industrial dos fertilizantes, dificultam o transporte e pressionam os custos logísticos.

A FAO avalia que, caso as restrições persistam, os reflexos sobre culturas alimentares importantes poderão aparecer dentro de seis a nove meses.

Trigo, milho e arroz estão entre os produtos acompanhados com maior atenção.

Fertilizantes em crise e El Niño deixam menos espaço para erros

O risco agrícola não acontece de forma imediata após uma interrupção no comércio de insumos. Existe uma sequência. Primeiro, o fertilizante fica mais caro ou difícil de adquirir. Depois, agricultores precisam decidir quanto aplicar. A consequência dessa escolha aparece apenas quando a cultura se desenvolve e chega à colheita. Por isso, problemas registrados agora podem surgir nas estatísticas agrícolas somente meses depois. É justamente nesse intervalo que o atual El Niño deve ganhar intensidade. Esse encontro temporal preocupa organismos internacionais porque uma eventual redução na adubação poderá coincidir com períodos meteorológicos desfavoráveis em importantes áreas produtoras. Ainda assim, não é possível antecipar uma quebra generalizada. Os efeitos do El Niño variam bastante entre países e culturas.

El Niño pode beneficiar uma região e prejudicar outra

O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam persistentemente mais quentes do que o normal, provocando alterações na circulação atmosférica. Essas mudanças modificam padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Na agricultura, isso significa que o mesmo fenômeno responsável por provocar déficit hídrico em uma região pode aumentar as precipitações em outra. Historicamente, partes do Sul e Sudeste da Ásia, Austrália e África Austral apresentam maior risco de calor e estiagem durante determinados episódios. Já áreas do Sul da América do Sul podem experimentar chuvas mais frequentes. No Brasil, o comportamento também não é uniforme. Enquanto o Sul pode registrar precipitações mais volumosas, outras regiões enfrentam maior possibilidade de calor e redução das chuvas. Mesmo onde chove mais, a consequência não é necessariamente positiva. Água em excesso pode causar erosão, favorecer doenças nas plantas, retirar nutrientes do solo e dificultar operações agrícolas. Por isso, a intensidade do El Niño, sozinha, não permite determinar antecipadamente o tamanho de uma eventual perda agrícola.

Café, cacau e açúcar apresentam vulnerabilidades diferentes

Algumas commodities tropicais são especialmente sensíveis às mudanças no regime de temperatura e precipitação. O cacau está entre os casos mais evidentes. Costa do Marfim e Gana concentram parcela relevante da oferta mundial, deixando o mercado altamente dependente das condições meteorológicas da África Ocidental. A experiência recente mostrou o tamanho dessa vulnerabilidade. Problemas climáticos e fitossanitários reduziram a produção africana e contribuíram para uma escalada histórica das cotações em 2024, quando o cacau ultrapassou US$ 12 mil por tonelada. O café apresenta uma dinâmica diferente. Vietnã e Indonésia têm participação decisiva na produção mundial de robusta e podem sofrer com condições mais quentes e secas associadas ao El Niño. No Brasil, maior produtor mundial de arábica, temperaturas elevadas durante o inverno podem reduzir o risco de geadas. Em contrapartida, calor intenso e falta de água durante fases posteriores do ciclo podem prejudicar floradas e desenvolvimento dos frutos. No açúcar, os efeitos também variam. Uma monção mais fraca pode limitar a produção indiana, enquanto chuvas adicionais sobre áreas brasileiras podem melhorar o desenvolvimento da cana destinada ao ciclo seguinte, embora precipitações excessivas também atrapalhem a colheita em determinados períodos. Essa diferença entre países explica por que não é correto afirmar que o El Niño provocará alta automática em todas as commodities.

Arroz merece atenção pela importância na segurança alimentar

Entre os alimentos básicos, o arroz ocupa posição particularmente sensível. Grande parte da produção e do consumo mundial está concentrada na Ásia, onde alterações nas monções conseguem afetar milhões de hectares. O risco não termina na lavoura. Quando um grande produtor teme falta de produto dentro de seu próprio mercado, uma das respostas possíveis é limitar exportações. A Índia já adotou medidas dessa natureza no passado recente para controlar preços domésticos. Quando isso acontece, uma quebra regional passa a afetar países importadores porque o volume disponível no mercado internacional diminui. É nesse ponto que um evento climático pode se transformar também em um problema comercial e inflacionário.

Brasil sente principalmente o risco dos custos

O Brasil está entre as maiores potências agrícolas do planeta, mas possui uma característica que aumenta sua exposição ao cenário atual: grande parte dos fertilizantes utilizados internamente é importada. Dados oficiais indicam dependência externa próxima de 85%. Isso não significa que o país ficará sem fertilizantes. O mercado brasileiro possui estoques, fornecedores em diferentes países e contratos fechados antecipadamente. O principal ponto de atenção é outro: quanto esses produtos custarão e se chegarão às propriedades no momento adequado. Para culturas altamente responsivas à adubação, redução relevante das doses pode afetar produtividade. Caso isso ocorra simultaneamente com problemas climáticos, produtores terão menor capacidade de compensação. Em uma economia agrícola integrada, esse movimento não fica restrito às fazendas. Aumento dos custos pode alcançar indústrias processadoras, transportadoras e, posteriormente, o consumidor.

Cenário global ainda está longe de uma falta generalizada de alimentos

Embora os riscos tenham aumentado, os números atuais não indicam que o mundo esteja entrando imediatamente em uma crise de abastecimento. A FAO projeta produção mundial de cereais próxima de 2,98 bilhões de toneladas em 2026, resultado inferior ao recorde anterior, mas ainda entre os maiores já registrados. Os preços internacionais também permanecem abaixo dos extremos observados durante a crise de 2022. Em julho de 2026, o Índice de Preços dos Alimentos da FAO alcançou 131,1 pontos, permanecendo aproximadamente 18% abaixo do recorde registrado em março de 2022. Esses números são importantes porque ajudam a separar risco de realidade. O sistema alimentar global ainda dispõe de oferta relevante. O problema é que cada novo choque reduz a proteção contra o próximo. Uma quebra de safra em uma única região pode ser compensada por produção maior em outra. Várias quebras simultâneas, combinadas a fertilizantes caros e restrições comerciais, são muito mais difíceis de absorver.

Fertilizantes em crise e El Niño colocam países pobres sob maior pressão

Os efeitos também serão desiguais entre economias. Países ricos possuem maior capacidade de formar estoques, subsidiar alimentos, financiar produtores ou recorrer às importações quando ocorre uma quebra doméstica. Economias mais pobres geralmente têm menos alternativas. Esse grupo torna-se especialmente vulnerável quando depende ao mesmo tempo de importações de alimentos, combustíveis e fertilizantes. A FAO vem destacando riscos para países da África e da Ásia que possuem menor capacidade financeira de absorver novos choques externos. Nesses mercados, uma elevação internacional relativamente moderada pode provocar consequências sociais muito maiores do que em economias desenvolvidas. É por isso que segurança alimentar não depende apenas da quantidade de comida existente no mundo, mas também da capacidade das populações de comprá-la.

O risco está na soma dos choques

O principal alerta para os próximos meses não é a certeza de falta de alimentos. É a possibilidade de diversos problemas acontecerem simultaneamente. O J.P. Morgan aponta que episódios históricos de El Niño estiveram associados, em média, a queda de 3,5% na produção agrícola de regiões tropicais, embora localidades temperadas tenham apresentado comportamento diferente. Isso não pode ser utilizado como previsão direta para 2026 ou 2027, mas ajuda a mostrar como grandes alterações climáticas redistribuem a produção agrícola mundial. Se regiões importantes perderem produtividade justamente quando agricultores enfrentam fertilizantes mais caros, o mercado internacional poderá ter menos capacidade de compensar essas perdas. Restrições às exportações adotadas por governos para proteger mercados domésticos poderiam aumentar ainda mais a pressão. O cenário, portanto, exige atenção sem alarmismo. Fertilizantes em crise e El Niño não significam que faltarão alimentos no mundo, mas reduzem a margem para que a agricultura absorva novas secas, enchentes, conflitos ou interrupções comerciais. As próximas safras mostrarão se os estoques elevados e a produção de outras regiões serão suficientes para neutralizar esses riscos ou se a combinação começará a aparecer com maior intensidade nas cotações agrícolas e, posteriormente, no supermercado.

FOTO: Imagem gerada por IA.

FONTE: https://www.comprerural.com/fertilizantes-em-crise-e-el-nino-acendem-alerta-para-risco-de-falta-de-alimentos-no-mundo/