Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Irã vence a guerra e Trump não encontra saídas para o problema que ele próprio criou

Após seis meses de conflito, Washington não consegue forçar Teerã a ceder, enquanto Trump enfrenta inflação da gasolina, queda de popularidade e o risco de fazer concessões sobre o Estreito de Ormuz.

247 – Seis meses depois de lançar os Estados Unidos em uma guerra contra o Irã, o presidente Donald Trump enfrenta um dilema que revela os limites de sua estratégia: aceitar um acordo provisório que preserve parte importante do poder iraniano sobre o Estreito de Ormuz, escalar novamente os ataques militares sem garantia de vitória ou manter um conflito prolongado que já produz custos políticos e econômicos dentro dos Estados Unidos. Até agora, Washington não conseguiu obrigar Teerã a ceder.

Segundo a Reuters, Trump está diante de opções cada vez mais difíceis para encerrar uma guerra que ele próprio previa que terminaria em meados de abril. O conflito, porém, avançou por seis meses, enquanto o Irã mantém forte controle sobre uma das principais rotas de transporte de petróleo do planeta e o governo norte-americano sofre pressão crescente devido aos preços elevados da gasolina e à deterioração da aprovação presidencial.

Irã preserva controle sobre o Estreito de Ormuz

O ponto central das negociações é o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio mundial de energia.

Um possível acordo intermediário negociado com participação de Omã poderia formalizar algum grau de controle iraniano sobre a passagem, uma concessão significativa por parte dos Estados Unidos diante dos objetivos estabelecidos no início do conflito.

Washington continua defendendo a liberdade de navegação na região. Na prática, entretanto, o Irã mantém controle quase total sobre o estreito, o que aumenta sua capacidade de pressão nas negociações.

A situação representa uma inversão importante na relação de forças.

Trump entrou no conflito buscando impor condições a Teerã. Seis meses depois, qualquer possibilidade de negociação parece depender de algum reconhecimento do poder iraniano sobre Ormuz.

A reabertura plena da passagem aparece como uma das condições essenciais para a retomada das conversas entre Estados Unidos e Irã. Os detalhes, contudo, ainda estão em negociação.

Trump pode ter de escolher entre concessão e escalada

Uma das alternativas sobre a mesa é um acordo provisório entre Irã, Estados Unidos e Omã.

Essa solução poderia reduzir temporariamente as tensões e permitir uma normalização parcial do fluxo marítimo, mas imporia um custo político a Trump.

Aceitar um papel formal iraniano na administração ou supervisão do Estreito de Ormuz significaria reconhecer que meses de pressão militar não foram suficientes para retirar de Teerã sua capacidade estratégica sobre a região.

A segunda opção seria uma nova escalada militar.

Trump poderia autorizar outra onda de ataques aéreos contra posições iranianas na tentativa de alterar o equilíbrio do conflito.

O problema é que não existe garantia de que novos bombardeios produziriam o resultado político desejado.

Ao contrário, uma escalada poderia prolongar ainda mais a guerra, elevar os riscos para as forças norte-americanas e seus aliados e pressionar novamente os mercados internacionais de energia.

Guerra ameaça Trump nas eleições de novembro

O calendário eleitoral aumenta a pressão sobre a Casa Branca.

As eleições de novembro aproximam-se em um momento de queda da popularidade de Trump e de insatisfação da população norte-americana com os preços da gasolina.

O conflito cria uma vulnerabilidade adicional porque Trump construiu parte de sua trajetória política prometendo evitar guerras prolongadas no exterior e concentrar esforços nos problemas econômicos internos dos Estados Unidos.

Agora, ele enfrenta justamente uma guerra prolongada cuja solução não está sob controle de Washington.

A continuidade das hostilidades pode aprofundar essa contradição.

Quanto mais tempo durar o conflito, maior o risco de a guerra se transformar em um problema eleitoral diretamente associado às decisões do presidente.

Escalada não garante vitória dos Estados Unidos

Uma nova ofensiva aérea poderia oferecer a Trump a aparência de iniciativa militar, mas não necessariamente uma saída estratégica.

Os ataques realizados até agora não obrigaram o Irã a aceitar as condições norte-americanas.

Essa realidade limita as opções da Casa Branca.

Para produzir uma mudança decisiva, uma escalada teria de alcançar objetivos que meses de conflito não conseguiram atingir, enquanto aumentaria simultaneamente os riscos militares, econômicos e políticos.

Analistas citados no contexto da disputa avaliam que o conflito pode se prolongar até as eleições.

Nesse cenário, Trump teria de conviver durante meses com uma guerra sem conclusão clara e com uma adversário que preserva importantes instrumentos de pressão regional.

Manter o conflito também não resolve o problema

Uma terceira possibilidade seria preservar o atual equilíbrio militar.

Os Estados Unidos poderiam manter o bloqueio de portos iranianos e continuar respondendo militarmente a ataques de Teerã sem lançar uma ofensiva de maior escala.

Essa alternativa evitaria os riscos imediatos de uma escalada ampla, mas igualmente não resolveria o conflito.

O resultado seria uma guerra de duração indefinida, exatamente o tipo de cenário que Trump afirmava querer evitar.

Além disso, a manutenção da tensão no Golfo continuaria representando ameaça ao abastecimento energético global e aos preços internacionais do petróleo.

O custo poderia chegar diretamente aos consumidores norte-americanos por meio da gasolina, ampliando uma das principais vulnerabilidades políticas do governo.

Negociações ainda enfrentam forte desconfiança

Mesmo a alternativa diplomática não oferece garantias.

Há ceticismo sobre a possibilidade de um acordo definitivo entre Washington e Teerã.

Um memorando de entendimento firmado em junho não conseguiu produzir uma solução duradoura, alimentando dúvidas sobre a capacidade das partes de transformar negociações provisórias em um arranjo permanente.

Omã permanece como interlocutor relevante para tentar construir uma saída.

No entanto, qualquer entendimento deverá enfrentar a questão fundamental de Ormuz e o grau de poder que o Irã continuará exercendo sobre a passagem.

Para Washington, admitir esse controle representa uma concessão. Para Teerã, preservar sua capacidade de influência sobre o estreito é um instrumento decisivo de segurança e negociação.

Irã mostra limites do poder de Trump

Os seis meses de guerra expõem uma realidade desconfortável para a Casa Branca: a superioridade militar dos Estados Unidos não se traduziu em capacidade de impor uma solução política ao Irã.

Trump lançou-se ao conflito esperando uma resolução rápida, mas chega à reta final antes das eleições de novembro sem uma estratégia capaz de cumprir os objetivos inicialmente estabelecidos.

Teerã, por sua vez, continua controlando uma peça essencial do sistema energético mundial e entra em qualquer eventual negociação com instrumentos importantes de barganha.

Essa é a dimensão estratégica da vantagem iraniana.

O Irã não precisa necessariamente derrotar militarmente os Estados Unidos para frustrar a estratégia de Trump. Basta impedir Washington de alcançar seus objetivos, preservar sua capacidade de resistência e obrigar a Casa Branca a discutir concessões que pareciam impensáveis no início da guerra.

O dilema atual mostra que nenhuma das opções disponíveis é confortável para Trump. Um acordo pode ser interpretado como concessão ao Irã; uma escalada pode aprofundar um conflito sem garantia de vitória; e a manutenção do status quo prolongaria uma guerra que pesa sobre a economia e sobre a campanha eleitoral.

Depois de seis meses, o presidente norte-americano se vê, assim, preso a uma crise que ajudou a criar e diante de um Irã que, longe de capitular, conserva poder suficiente para condicionar os termos de qualquer tentativa de saída.

FOTOS: Pixabay

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/ira-vence-a-guerra-e-trump-nao-encontra-saidas-para-o-problema-que-ele-proprio-criou/#google_vignette