O economista e analista geopolítico aponta que a obsessão de Washington em desmembrar a Rússia, isolar a China e promover trocas de regime no Irã colide com a realidade de um mundo inevitavelmente multipolar.
247 – Em uma contundente análise sobre o estado da geopolítica global, o economista e professor Jeffrey Sachs destacou as contradições e os limites da política externa dos Estados Unidos. Em entrevista concedida nesta segunda-feira (3) ao programa Judging Freedom, apresentado pelo ex-juiz Andrew Napolitano, Sachs detalhou como o establishment de Washington permanece aprisionado a um dogma formulado nos anos 1990: a busca pela primazia incontestável na Eurásia, um projeto que hoje se mostra financeiramente insustentável e militarmente inviável.
Durante a conversa, Sachs alertou que as sucessivas intervenções e o alinhamento cego às investidas bélicas no Oriente Médio custaram aos cofres americanos cerca de US$ 10 trilhões nas últimas décadas, minando a segurança nacional e acelerando a perda de credibilidade das instituições ocidentais no Global South.
O fantasma da “Primazia Americana” e a falha de cálculo sobre a Eurásia
Para compreender o impasse em que Washington se encontra, Sachs recorreu às bases teóricas traçadas logo após o fim da Guerra Fria, em especial a doutrina simbolizada pela obra The Grand Chessboard (O Grande Tabuleiro de Xadrez), de Zbigniew Brzezinski. A premissa de que os EUA poderiam impedir a ascensão de qualquer rival ou bloco concorrente na Eurásia revelou-se uma ilusão histórica.
“A ideia de que os Estados Unidos, representando cerca de 4% da população mundial, podem dominar a Eurásia — onde vivem 60% da humanidade — nunca fez sentido e faz menos sentido ainda hoje”, pontuou o economista.
Sachs ressaltou que a estratégia de enfraquecer e fragmentar a Federação Russa, além de tentar conter a China e estrangular a soberania iraniana, produziu o efeito oposto ao desejado pela diplomacia americana: impulsionou a consolidação de um bloco multipolar coeso e resistente a sanções unísonas.
Escalada e retórica no Oriente Médio: o risco de um choque econômico global
Um dos pontos de maior tensão debatidos por Napolitano e Sachs foi o impasse no Oriente Médio e as movimentações aéreas e navais no Estreito de Ormuz. Sachs classificou a postura da Casa Branca — oscilando entre ameaças de bombardeios massivos e recuos de última hora — como reflexo de uma liderança imersa na “falácia dos custos afundados” (sunk cost fallacy).
Segundo o analista, o Irã construiu uma capacidade real de dissuasão que impede vitórias fáceis sem deflagrar uma catástrofe regional. Caso ocorra uma escalada militar desmedida sobre a infraestrutura do Golfo Persico:
- Petróleo em disparada: Os preços do barril podem facilmente ultrapassar a barreira dos US$ 100, desestabilizando o comércio internacional.
- Inflação mundial: A interrupção ou cobrança de rotas na navegação comercial desencadearia um novo surto inflacionário global.
- Esgotamento interno nos EUA: A população americana demonstra crescente descontentamento com o financiamento de “guerras perpétuas” enquanto a infraestrutura interna e a dívida pública se deterioram.
Para Sachs, a única saída racional para os Estados Unidos seria declarar o encerramento das hostilidades e retirar suas forças ostensivas, permitindo que os próprios atores regionais e os estados litorâneos do Estreito organizem rotas seguras de navegação.
A emergência da ordem multipolar
A entrevista expôs o diagnóstico de que o ciclo unipolar aberto com o fim da União Soviética chegou definitivamente ao fim. As tentativas de aplicar fórmulas rígidas de sanções ou intervenções unilaterais colidem com novas instâncias de cooperação e integração financeira e logística no eixo Sul-Sul e na Eurásia.
Enquanto a diplomacia tradicional de Washington reluta em aceitar a transição de poder, a realidade dos fatos e a interdependência dos mercados impõem a urgência de uma arquitetura internacional pautada pelo direito internacional e pelo pragmatismo multipolar.
FOTO: Wikimedia Commons
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/jeffrey-sachs-expoe-o-esgotamento-do-imperio-americano-no-oriente-medio-e-na-eurasia/#google_vignette