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“O mundo está mudando a nosso favor”: Paulo Nogueira Batista Jr. aponta declínio dos EUA e urgência da soberania nacional

Em entrevista à TUTAMÉIA TV, o economista e ex-diretor do FMI e do Banco do BRICS desfaz o alarmismo da geopolítica ocidental, analisa a perda de hegemonia do dólar e adverte: o Brasil precisa fortalecer sua defesa.

247 – Apesar da escalada de sanções, das intimidações bélicas e da instabilidade semeada pelas potências ocidentais pelo globo, a arquitetura do poder mundial atravessa uma transformação estrutural irreversível que favorece as nações do Sul Global. Esta foi a tese central apresentada pelo economista Paulo Nogueira Batista Jr. em entrevista aos jornalistas Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, no programa TUTAMÉIA TV.

Com a autoridade de quem ocupou cargos de liderança no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, e a vice-presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS), em Xangai, Nogueira Batista traçou um diagnóstico preciso sobre as pressões que o Brasil e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vêm sofrendo por parte da administração dos Estados Unidos.

O declínio do império e a tentativa de ingerência sem tiros

Analisando a recente sequência de declarações hostis e ameaças tarifárias vindas da Casa Branca contra as instituições e a democracia brasileira, Paulo Nogueira apontou que a conduta de Washington reflete um império em franca decadência, desesperado para manter sua hegemonia no Hemisfério Ocidental:

“Os Estados Unidos estão tentando levar a melhor no Brasil sem disparar um tiro. O objetivo é interferir abertamente para enfraquecer qualquer liderança que represente autonomia e instalar no poder um vassalo alinhado aos seus interesses. No entanto, o império americano perdeu o seu ‘soft power’. Ninguém mais os enxerga como sede de valores positivos; o mundo hoje apenas teme o seu poder de estrago.” — Paulo Nogueira Batista Jr.

Comparando o cenário atual com a crise política de 1964, o economista ressaltou que, embora o apetite de ingerência permaneça o mesmo, a posição dos EUA é hoje muito mais fraca, enquanto o Brasil conta com uma liderança política calejada, amplas alianças internacionais e o respaldo das maiores economias emergentes.

A perda de poder do dólar e a soberania financeira

Um dos pontos altos da sabatina foi a análise sobre o processo global de desdolarização. Autor de estudos recentes publicados na Rússia sobre alternativas ao dólar nas transações internacionais, o economista ressaltou que o maior inimigo da moeda americana é a própria postura do governo dos EUA:

  • O uso do sistema financeiro como arma: Ao banir países do sistema Swift e impor sanções extraterritoriais — atingindo inclusive autoridades do Judiciário brasileiro —, os EUA aceleraram a busca global por alternativas.
  • Avanço de sistemas independentes: Plataformas de pagamento transfronteiriço como o CIPS chinês (Cross-Border Interbank Payment System) crescem rapidamente operando em moedas locais.
  • Comércio bilateral Brasil-China: Mecanismos de swap e pagamentos diretos em Reais e Renminbi já cobrem parcela expressiva das trocas entre os dois países, ultrapassando a intermediação em moeda norte-americana.
Dimensão da Soberania Diagnóstico e Desafios apontados por Nogueira Batista
Soberania Financeira Aceleração de sistemas de pagamento e moedas alternativas ao dólar
Soberania Digital Exigência de regras contra abusos de big techs e garantia de autonomia em redes
Defesa Nacional Superação da dependência militar ocidental e criação de poder de dissuasão próprio
Mentalidade das Elites Combate ao “mimetismo cultural” e à submissão ideológica ao Norte global

“A história não pune os maus; pune os fracos”

Aprofundando o debate sobre a inserção estratégica do país no xadrez global, Paulo Nogueira defendeu a urgente necessidade de o Brasil estruturar uma doutrina de Defesa Nacional moderna e desvinculada das diretrizes dos Estados Unidos.

Citando o vasto manancial de recursos naturais do país — como a Amazônia, os minerais críticos, terras raras, urânio, água potável e a maior área agricultável do planeta —, o economista alertou que o Brasil não pode se dar ao luxo da ingenuidade geopolítica:

“A natureza e a história não punem os maus; punem os fracos. O Brasil não precisa de um exército para vencer os EUA numa guerra, mas precisa ter capacidade de dissuasão suficiente para demonstrar a qualquer agressor que o custo de violar a nossa soberania será proibitivo.”

O papel dos BRICS e o novo mundo multipolar

Embora reconheça que o alargamento do BRICS tenha aumentado a heterogeneidade do grupo — citando as oscilações diplomáticas da Índia e as vulnerabilidades de novos membros —, Nogueira Batista reiterou que o bloco permanece como a principal espinha dorsal da multipolaridade.

O avanço da articulação entre China, Rússia e Irã, somado à resistência do Sul Global na América Latina (com destaque para o papel soberano do México e do Brasil), demonstra que a tentativa de reimpor uma ordem unipolar está fadada ao fracasso. O mundo está mudando — e o tempo joga a favor daqueles que têm a coragem de defender a própria soberania.

FOTO: Brasil247

FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/o-mundo-esta-mudando-a-nosso-favor-paulo-nogueira-batista-jr-aponta-declinio-dos-eua-e-urgencia-da-soberania-nacional/