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Lula aponta soberania como linha-vermelha na relação Brasil-EUA

“A única coisa que eu não discuto é a soberania do meu país. Essa é sagrada”, disse o presidente.

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não há temas proibidos na relação entre Brasil e Estados Unidos, desde que a soberania nacional seja respeitada, e defendeu uma conversa “direta e responsável” com Donald Trump, atual presidente dos EUA. As declarações foram dadas em entrevista ao Portal UOL nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, segundo relato publicado pela Agência Gov, via Planalto, ao tratar das prioridades da política externa brasileira, das guerras no Oriente Médio, da integração latino-americana e do desafio de uma transição democrática na Venezuela.

Ao situar a política externa como um campo de interesses múltiplos, Lula enfatizou a centralidade do diálogo e a busca por paz como eixo da atuação internacional brasileira. No mesmo movimento, antecipou que pretende ir aos Estados Unidos no início de março, depois de compromissos internacionais na Índia e na Coreia ainda em fevereiro, com o objetivo de estreitar laços bilaterais e ampliar oportunidades empresariais.

Soberania como linha vermelha na relação Brasil–EUA

No trecho mais contundente da entrevista, Lula apresentou a soberania como limite inegociável nas conversas com Washington, mesmo diante de divergências e disputas geopolíticas. O presidente descreveu a necessidade de construir acordos por meio de uma interlocução franca, sem subordinação, com prioridades definidas pelo interesse nacional brasileiro.

Lula: “Nós temos que sentar em uma mesa, olhar um no olho do outro, ver quais são os problemas que afligem ele, quais são os que me afligem, o que interessa aos Estados Unidos, o que interessa para o Brasil. Vamos trabalhar juntos. E vamos estabelecer acordos em que a gente possa trabalhar juntos”

Em seguida, reforçou o ponto que dá o tom da entrevista e do posicionamento do Planalto: o Brasil pode discutir tudo, menos a sua autonomia decisória.

Lula: “A única coisa que eu não discuto é a soberania do meu país. Essa é sagrada”

A mensagem combina pragmatismo e afirmação política. De um lado, Lula sinaliza disposição para tratar de “problemas” e interesses convergentes com os EUA. De outro, delimita que qualquer negociação só é possível se respeitar o princípio de igualdade soberana, um dos pilares do direito internacional e da tradição diplomática brasileira.

Conselho da Paz, Gaza e a exigência de participação palestina

Ao abordar os conflitos no Oriente Médio, Lula afirmou que o Brasil tem interesse em participar de iniciativas voltadas à promoção da paz, mas impôs uma condição de legitimidade: o processo precisa ser inclusivo, com presença efetiva dos palestinos à mesa. O ponto ganha relevo porque o presidente cita diretamente uma proposta associada a Donald Trump, ao mesmo tempo em que rejeita fórmulas que excluam a parte mais diretamente afetada pela guerra.

Lula: “Eu disse ao presidente Trump que se o Conselho [da Paz, lançado por Donald Trump] for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Falei, inclusive, com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que o Brasil tem interesse, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa, senão, não é uma comissão de paz”

A declaração explicita dois recados simultâneos. O primeiro é a disposição do Brasil de atuar de forma ativa e construtiva em agendas internacionais de paz, inclusive em arranjos impulsionados por potências. O segundo é a defesa de representatividade como critério: sem a participação palestina, qualquer “conselho” corre o risco de se transformar em instrumento de imposição, e não de mediação.

Ao citar Mahmoud Abbas, Lula ancora a posição brasileira em um contato direto com a liderança palestina. E ao insistir que “os palestinos” precisam estar presentes, o presidente reitera uma lógica de negociação que privilegia o reconhecimento político das partes e tenta afastar soluções unilaterais para Gaza.

Integração latino-americana e autonomia: “coragem” para sair do ciclo de dependência

No capítulo dedicado à América Latina, Lula elevou o tom e propôs uma reflexão estratégica sobre o lugar da região no mundo. A tese central é que a fragmentação latino-americana cobra um preço histórico: sem instituições fortes e um bloco articulado, os países ficam mais vulneráveis a choques externos, perdem capacidade de barganha e tendem a repetir ciclos de pobreza e invisibilidade.

Lula: “Ou nós, latino-americanos, criamos coragem e criamos instituições fortes e montamos um bloco para trabalharmos conjuntamente com o resto do mundo, ou estamos fadados a mais um século de pobreza e de esquecimento”

O argumento aponta para uma visão de política externa que ultrapassa a diplomacia tradicional e se conecta ao desenvolvimento. Ao defender “instituições fortes” e “um bloco”, o presidente associa integração regional a soberania econômica, coordenação política e maior poder de negociação em temas como comércio, energia, infraestrutura, tecnologia e financiamento.

A fala também reposiciona a integração como resposta contemporânea à instabilidade global. Em um cenário de tensões entre grandes potências, conflitos prolongados e disputas por cadeias produtivas, a região aparece, na leitura do presidente, como um espaço que precisa se organizar para não ser apenas terreno de disputa alheia.

Venezuela: foco na democracia e na vida do povo, não em disputas pessoais

Sobre a Venezuela, Lula rejeitou a centralidade de brigas políticas ou pessoais e deslocou o debate para um critério de resultado: fortalecer a democracia e melhorar a vida da população. Em vez de simplificações, o presidente propôs uma pergunta orientadora que, segundo ele, deveria conduzir qualquer iniciativa regional.

Lula: “A preocupação principal é a seguinte: há possibilidade de a gente fortalecer o povo da Venezuela? Há condições de fazer com que a democracia seja efetivamente respeitada na Venezuela e o povo possa participar ativamente? Porque o que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não”

A formulação indica uma abordagem centrada em participação popular e efetividade democrática, sugerindo que o objetivo não é alimentar polarizações, mas criar condições para que a sociedade venezuelana possa decidir seu caminho com garantias e respeito. Ao mesmo tempo, ao mencionar “melhorar a vida do povo”, Lula associa democracia a bem-estar, sinalizando que a política externa brasileira, ao tratar do tema, busca evitar soluções que agravem sofrimento social.

América do Sul como região de paz e desenvolvimento

No fechamento, Lula reafirmou a importância de preservar a América do Sul como uma região de paz, destacando a ausência de armas nucleares e a prioridade por crescimento econômico e fortalecimento democrático. A ênfase busca consolidar uma identidade regional voltada à cooperação e ao desenvolvimento, em contraste com áreas do planeta marcadas por corrida armamentista e guerras prolongadas.

Lula: “A gente não tem bomba atômica, a gente não tem armas nucleares. Ou seja, o que a gente quer é crescer economicamente, fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de latino-americanos, porque a América Latina não pode continuar sendo um continente, uma parte do mundo pobre.”

LEGENDA: Kuala Lampur, Malásia – 26/10/2025 – Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático-ASEAN (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

FONTE: https://www.brasil247.com/poder/lula-aponta-soberania-como-linha-vermelha-na-relacao-brasil-eua