Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Lula: ‘no Brasil, o Estado foi aprisionado pela Faria Lima’

Presidente questiona visão de mercado sobre teto de gastos, defende responsabilidade fiscal com investimentos e projeta debate para eventual quarto mandato.

247 – O presidente Lula (PT) criticou duramente a influência do setor financeiro sobre as decisões de políticas públicas e a gestão do orçamento federal no país, afirmando que o Estado brasileiro foi “aprisionado pela Faria Lima”. A declaração foi feita nesta quinta-feira (5) em entrevista concedida ao canal Meteoro Brasil, na qual o chefe do Executivo questionou a lógica imposta pelas regras de limitação de despesas e defendeu uma reavaliação sobre o que deve ser considerado gasto ou investimento estratégico.

Durante a entrevista, o presidente abordou os impactos do teto de gastos e as restrições impostas à capacidade do setor público de promover o desenvolvimento econômico. Para Lula, a mentalidade vigente no mercado financeiro prioriza o corte de recursos e a especulação sobre as metas fiscais em detrimento de debates sobre o crescimento do país. “Quando você cria teto de gastos, você está limitando a capacidade de investimento. No Brasil nem sempre você sabe o que é gasto e o que é investimento. Quando colocamos dinheiro para a educação, é gasto ou investimento? Para a saúde, é gasto ou investimento?”, indagou.

O presidente contrapôs essas alocações sociais ao volume astronômico direcionado ao pagamento de encargos da dívida pública, destacando que “o único gasto que a gente faz de verdade é R$ 1,2 trilhão de juros da dívida”. Diante desse cenário, ele reforçou a urgência de atuar no campo econômico para criar condições favoráveis ao crédito e ao financiamento do setor produtivo. “Precisamos encontrar um jeito de como reduzir essa taxa de juros. O Banco Central é autônomo. Temos que cuidar para que, do ponto de vista econômico, a gente tenha bastante seriedade fiscal, para não gastar aquilo que a gente não tem e, ao mesmo tempo, trabalhar para reduzir a taxa de juros”, ponderou.

Analogia com o setor privado e ampliação do investimento público

Para exemplificar sua visão sobre a necessidade de expansão da infraestrutura e dos serviços essenciais, Lula recorreu ao funcionamento do mercado corporativo, questionando por que o Estado é julgado por critérios diferentes dos aplicados às empresas privadas quando busca financiamento para crescer.

“A outra coisa que vamos ter que definir é o seguinte: eu posso fazer uma dívida para fazer um investimento novo? O que acontece no mundo empresarial? Um banco está tendo mais clientes e está sem dinheiro, ele resolve tomar R$ 500 milhões emprestados. Ele está se endividando. Isso é gasto? Não. Ele está pegando R$ 500 milhões, vai fazer um investimento, ter uma nova sede, vai poder atender mais clientes e vai dar rentabilidade. O Estado é a mesma coisa. Se eu quiser construir alguma obra importante, que signifique trazer benefícios para o país, uma estrada ou uma ferrovia, isso é gasto ou investimento? É investimento. Então se o Estado tiver que fazer uma dívida por isso, pode fazer”, explicou.

A narrativa financeira e os custos da omissão estatal

Na sequência, o chefe do Executivo apontou o contraste entre a pressão constante exercida pela Faria Lima — centro financeiro de São Paulo — e a ausência de discussões sobre o desenvolvimento soberano do Brasil. Segundo Lula, a pauta econômica do país passa o ano dominada por alarmismos do mercado.

“Aqui no Brasil o Estado foi aprisionado pela Faria Lima. Então começa janeiro falando ‘o teto de gastos foi estourado’, ‘a política fiscal não vai cumprir a meta’… Passa o ano inteiro falando isso e ninguém discute o que nós vamos fazer para esse país crescer”, enfatizou.

O presidente prosseguiu chamando a atenção para o prejuízo histórico causado pela inação e pelo atraso em investimentos prioritários nas áreas social e de saúde pública. “No Brasil a gente nunca pergunta quanto custa não fazer as coisas na hora certa. Quanto custou o Brasil não alfabetizar o povo na hora certa? Quanto custou não comprar vacina? Essa pergunta temos que fazer”, pontuou.

Ao projetar os rumos políticos e econômicos do país, Lula afirmou que essa mudança de mentalidade e a priorização do investimento nacional serão eixos centrais de suas discussões futuras. “Essa é a discussão que eu quero fazer no meu quarto mandato. O Brasil tem que dar um salto de qualidade, porque a base já está construída”, concluiu.

FOTO: Ricardo Stuckert / PR

FONTE: https://www.brasil247.com/economia/lula-no-brasil-o-estado-foi-aprisionado-pela-faria-lima/