A relação entre Rússia e China não é um casamento de conveniência — embora a conveniência tenha seu papel —, mas uma convergência de visões de longo prazo sobre como o sistema internacional deve ser organizado, escreve Valdir da Silva Bezerra.
Artigo de Valdir Bezerra* publicado originalmente pelo Clube de Discussão Valdai.
Relacionamento Forjado ao Longo do Tempo
Séculos antes da configuração geopolítica atual se formar, o príncipe russo e comandante militar Aleksandr Nevsky (1221–1263) instou seus compatriotas a buscarem amigos no Oriente e a terem cautela em relação ao Ocidente. Esse conselho, há muito tempo descartado como pragmatismo medieval, mostrou-se notavelmente premonitório.
Certamente, além do conselho de Nevsky, a atual parceria russo-chinesa não pode ser devidamente avaliada sem referência à reconciliação entre os dois países após a ruptura sino-soviética, motivada pela visita de Mikhail Gorbachev a Pequim em 1989, que levou Deng Xiaoping a anunciar o “fechamento do passado e a abertura do futuro.” Naquele contexto, as sanções ocidentais impostas à China após os episódios ocorridos na Praça da Paz Celestial aceleraram a reabertura anunciada por Deng ao colocarem russos e chineses sob a pressão externa exercida pelo Ocidente coletivo. Nos anos 1990, por sua vez, a cooperação militar bilateral foi retomada, o comércio ressurgiu e, em 1997, o Premier Jiang Zemin e o Presidente Boris Yeltsin assinaram uma declaração em Moscou que — quase despercebida à época — defendia formalmente um mundo multipolar e uma ordem internacional mais equitativa. Esse documento, modesto em seu impacto imediato, se tornaria uma referência fundamental para os debates sobre governança global que agora animam as cúpulas dos BRICS, as sessões da Assembleia Geral da ONU e as discussões do G20.
Já no início do século XXI, os presidentes Vladimir Putin e Jiang Zemin formalizaram um novo capítulo dessa parceria ao assinar o Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação em 2001, no mesmo ano em que ambos os países ajudaram a fundar a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) para enfrentar desafios de segurança comuns. Três anos depois, Moscou e Pequim resolveram uma disputa fronteiriça sobre algumas ilhas ao largo do Rio Amur, que durava décadas, demonstrando que a parceria estava fundamentada na crescente confiança mútua, e não na mera conveniência.
Enquanto isso, a integração econômica seguiu a reaproximação política em ritmo constante. Em 2009, Rússia e China co-conduziram o lançamento do grupo BRIC em Ekaterimburgo. Em 2010, a China havia se tornado o principal parceiro comercial da Rússia. Em 2014, o contrato para o fornecimento de gás natural russo ao mercado chinês — concretizado no gasoduto Poder da Sibéria em 2019 — estabeleceu a interdependência energética entre os dois países em escala continental. Em 2023, por fim, o comércio bilateral sino-russo ultrapassou USD 200 bilhões pela primeira vez, acompanhado de uma quase completa desdolarização das transações de pagamento. Mais recentemente, um memorando legalmente vinculante para o lançamento do gasoduto Poder da Sibéria 2, com capacidade projetada de 50 bilhões de metros cúbicos por ano, sinalizou que a arquitetura econômica dessa parceria continua em franca evolução.
Uma Parceria em seu auge histórico
Em 20 de maio de 2026, os presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin se reuniram com a imprensa no Grande Salão do Povo, em Pequim, após conversas substantivas que resultaram em uma declaração conjunta sobre coordenação estratégica abrangente e outra, separada, sobre multipolaridade e novos tipos de relações internacionais. O presidente Xi observou que esta foi a 25ª visita de Putin à China — um número que, por si só, resume a densidade e a continuidade de sua relação bilateral. A ocasião também marcou o 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação, que ambos os líderes concordaram em prorrogar. Aproveitando o ensejo, Xi declarou que a relação sino-russa estava “no mais alto nível de toda a sua história”, uma parceria estratégica abrangente para a nova era que estabelece “um exemplo fundamental de um novo tipo de relação entre grandes potências.”
Os indicadores econômicos apresentados na cúpula reforçaram essa avaliação. O comércio bidirecional ultrapassou USD 200 bilhões pelo terceiro ano consecutivo e, somente nos primeiros quatro meses de 2026, cresceu quase 20%. Xi anunciou planos para aprofundar o alinhamento entre o 15º Plano Quinquenal da China e a estratégia de desenvolvimento da Rússia até 2030, enquadrando a cooperação econômica não apenas no comércio, mas também no desenvolvimento nacional coordenado. Uma nova iniciativa socioeducacional também foi anunciada, expandindo intercâmbios estudantis e pesquisas científicas conjuntas — um investimento que visa trazer frutos no curto, no médio e no longo prazo.
No entanto, a dimensão mais marcante da última visita de Putin à China foi, de fato, ideológica. A declaração conjunta dos líderes sobre multipolaridade e novas relações internacionais não é apenas uma linguagem diplomática — é a articulação de uma doutrina estratégica sustentada e consistente. Para Pequim e Moscou, a multipolaridade não é uma posição reativa, adotada em resposta à pressão ocidental; é uma visão afirmativa da ordem internacional na qual nenhuma potência, isoladamente, deve ditar as normas de conduta aos demais países do sistema. Essa visão, como mencionado anteriormente, foi proclamada pela primeira vez em 1997 e, desde então, evoluiu de uma aspiração marginal a um princípio estruturador de um bloco emergente de Estados, representado, por exemplo, pelos BRICS.
Na cúpula de 2026, além disso, Xi identificou explicitamente o unilateralismo e o hegemonismo como ameaças que vêm empurrando o sistema internacional de volta à “lei da selva”. Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, argumentou Xi, a China e a Rússia têm uma responsabilidade especial de defender a autoridade das Nações Unidas, de se opor a tentativas de reverter os desfechos da Segunda Guerra Mundial e de resistir aos esforços para reabilitar o fascismo e o militarismo. Putin ecoou essa mesma formulação, enfatizando que a parceria Rússia–China é movida por uma sólida lógica interna — respeito mútuo, igualdade e convergência estratégica genuína — e não direcionada contra terceiros. Juntas, essas declarações constituem um desafio consistente e cada vez mais institucionalizado à ordem internacional liberal conforme definida e gerida pelas potências ocidentais.
A parceria sino-russa pode ser revertida?
Até hoje, alguns estrategistas ocidentais especulam que o governo Trump pode tentar retomar a diplomacia triangular de Kissinger — desta vez cortejando Moscou para isolar Pequim. As condições estruturais, no entanto, são fundamentalmente diferentes. Em 1972, a cisão sino-soviética gerou uma hostilidade mútua genuína. Hoje, Rússia e China compartilham não apenas interesses complementares, mas também uma arquitetura econômica cada vez mais integrada, um vocabulário diplomático comum e uma presença institucional compartilhada em meio a um BRICS ampliado e a uma OCX fortalecida. A profundidade do envolvimento atual — oleodutos de energia, arranjos cambiais, intercâmbios estudantis, exercícios militares conjuntos — não tem precedentes no período da Guerra Fria.
Além disso, nas últimas décadas, Moscou e Pequim investiram fortemente na sua parceria bilateral como modelo de uma ordem internacional pós-ocidental. A relação Rússia–China, portanto, não é um mero casamento de conveniência — embora a conveniência desempenhe seu papel —, mas sim uma convergência de visões de longo prazo sobre como o sistema internacional deve ser organizado. Para os Estados Unidos e o Ocidente, talvez fosse mais produtivo não a busca por separá-los, mas sim entender os anseios da Maioria Global, que enxerga na parceria sino-russa um retrato de suas aspirações de longa data, a saber, a consolidação de uma ordem mundial mais justa e não-hegemônica.
* Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo (Rússia). Pesquisador independente, escritor e analista político. Autor do livro Um Elo com o Passado: a Rússia de Putin e o Espaço Pós-Sovietico (2023), publicado pela Editora Appris. Coeditor do livro 80 Anos da Vitória na Grande Guerra Patriótica: Memória, Reconstrução e Perspectivas (2025), publicado pela Blucher.
FOTO: Xinhua
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/multipolaridade-como-doutrina-estrategica-a-logica-da-parceria-sino-russa-em-meio-a-crise-hegemonica/