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Nova fase do colonialismo dos EUA tenta preservar império em declínio, diz Richard Wolff

Economista diz que Washington tenta compensar o declínio global ampliando sua pressão sobre o Hemisfério Ocidental diante da perda de influência mundial e da ascensão da China.

247 – A perda gradual da posição dominante dos Estados Unidos na economia mundial está levando Washington a buscar uma forma mais limitada e regional de preservar sua influência, baseada em maior pressão econômica, política e militar sobre países do Hemisfério Ocidental. A avaliação é do economista norte-americano Richard Wolff.

Em entrevista ao professor Glenn Diesen, publicada no YouTube, Wolff afirmou que a estrutura internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial está se desfazendo e dificilmente poderá ser reconstruída nas mesmas condições.

Para o economista, as iniciativas adotadas pelos Estados Unidos para tentar recuperar sua antiga posição partem de um reconhecimento, ainda que nem sempre admitido publicamente, de que o poder norte-americano entrou em declínio relativo.

“Este é um esforço que tem pouquíssima probabilidade de sucesso. Baseia-se em uma espécie de — eu não hesitaria em usar palavras como — pânico, histeria, medo ou alguma mistura de tudo isso”, afirmou.

Wolff considera que a mudança não depende exclusivamente do presidente Donald Trump e que uma eventual alternância entre republicanos e democratas na Casa Branca não necessariamente produziria uma ruptura na estratégia internacional do país.

“Francamente, neste momento, não acredito nisso. Sim, os democratas, se vencerem, estarão muito motivados a desfazer o que Trump fez, mas, assim como Trump esteve altamente motivado a desfazer Obama, quando você olha de perto, há mais continuidade do que rejeição de Obama em muitos níveis e em muitos programas”, declarou.

A hegemonia construída depois de 1945

A análise de Wolff começa no cenário produzido pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, os Estados Unidos emergiram daquele período em uma posição econômica e militar excepcional, enquanto as antigas potências coloniais europeias haviam sido profundamente enfraquecidas.

Na interpretação apresentada pelo economista, as duas guerras mundiais destruíram ou reduziram drasticamente os impérios britânico, francês, holandês, belga, italiano, espanhol e português, entre outros.

Os Estados Unidos, por outro lado, foram protegidos em grande medida pela distância proporcionada pelos oceanos Atlântico e Pacífico e chegaram ao fim do conflito em condições muito mais favoráveis.

“Quando a poeira baixou em 1945, quando as guerras chegaram ao fim, os Estados Unidos, para encurtar uma história longa e complicada, herdaram os impérios coloniais de todo o restante do mundo”, afirmou.

Segundo Wolff, isso não ocorreu pela reprodução formal do sistema colonial europeu. Washington apoiou processos de independência política enquanto reorganizava as relações comerciais e financeiras internacionais em torno de sua própria economia.

“O que precisava fazer, e o que fez, foi celebrar o fim do colonialismo como um arranjo político, apoiando movimentos de independência da Índia ao Quênia e em todos os outros lugares, ao mesmo tempo em que investia e organizava o comércio mundial para fortalecer os vínculos econômicos das antigas áreas coloniais, não mais com a Grã-Bretanha, a França ou a Alemanha, mas com os Estados Unidos”, disse.

Dólar se tornou base da nova ordem econômica

Wolff destacou que o arranjo estabelecido após a guerra colocou os Estados Unidos no centro do comércio, das finanças e dos fluxos de capital internacionais.

“Criou-se a economia global, a economia do dólar, uma economia na qual os Estados Unidos eram o principal comerciante, o principal exportador, o principal importador, a principal fonte de capital e a principal fonte de empréstimos”, afirmou.

Para o economista, a ascensão do dólar como principal moeda internacional foi uma das expressões mais importantes dessa transformação.

A predominância estadunidense também modificou a posição da Europa. Os antigos centros coloniais passaram, em sua avaliação, à condição de parceiros subordinados dentro de uma ordem liderada por Washington.

China altera o equilíbrio econômico mundial

Na visão de Wolff, uma das transformações que mais contribuíram para desestabilizar esse sistema foi a ascensão econômica chinesa.

O economista atribui parte desse avanço à capacidade da China de combinar empresas privadas, planejamento estatal e controle político sem reproduzir integralmente a disputa ideológica tradicional do Ocidente sobre o tamanho ideal do Estado.

“Eles colocaram o Estado e o setor privado juntos, sem um compromisso religioso e irracional com um ou com o outro. De forma muito prática, muito pragmática: vamos ver do que precisamos para o desenvolvimento econômico da China e depois fazer o que for necessário”, afirmou.

Wolff acredita que a velocidade da transformação chinesa deverá ocupar lugar central nos estudos econômicos e históricos sobre o período atual.

“Como conseguiram fazer isso? Como conseguiram, em 40 ou 50 anos, sair da situação em que a China estava para aquilo que se tornou?”, questionou.

Pequim prioriza economia e tecnologia

Segundo Wolff, a estratégia chinesa diante dos conflitos internacionais seria evitar o envolvimento direto sempre que possível e concentrar o máximo de recursos no desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial.

Ele afirma que Pequim procura apoiar parceiros por meio de comércio, financiamento e cooperação militar, mas sem necessariamente transformar essas relações em grandes confrontos políticos públicos.

“Enquanto isso, você coloca 150% de seu esforço e de seus recursos em fazer avançar o desenvolvimento econômico. Produza cada vez mais alta tecnologia. Supere os Estados Unidos em inteligência artificial ou em alguma aplicação da inteligência artificial”, declarou.

Para o economista, essa estratégia permite que a China dispute influência internacional por meio da expansão de sua capacidade produtiva e tecnológica.

A “nova fase” do colonialismo dos EUA

É nesse cenário de perda relativa de poder que Wolff apresenta sua principal tese.

“Creio que estamos assistindo ao surgimento de outro esforço e eu o chamaria, por falta de um termo melhor, de uma nova fase do colonialismo norte-americano”, afirmou.

Segundo ele, Washington estaria começando a substituir a tentativa de manter uma hegemonia verdadeiramente global por uma estratégia mais concentrada no Hemisfério Ocidental.

Wolff relacionou essa interpretação às pressões norte-americanas envolvendo Canadá, Groenlândia, Panamá, Venezuela e Cuba.

“Eles estão começando a recuar para uma espécie de império colonial fortificado no Hemisfério Ocidental. Não que estejam limitados ao Hemisfério Ocidental, mas aqui suas ameaças militares são suficientes”, disse.

Para o economista, os Estados Unidos tentariam recriar, em escala regional, parte das vantagens econômicas e estratégicas que anteriormente desfrutavam em escala mundial.

“Você vai compensar as empresas norte-americanas e a mentalidade norte-americana fazendo o Hemisfério Ocidental desempenhar, nos próximos 50 anos, o papel que o mundo inteiro desempenhou nos últimos 50”, afirmou.

Canadá entra no centro da estratégia, diz Wolff

Entre os países citados por Wolff, o Canadá aparece como um dos principais exemplos da política que ele identifica.

O economista considera que Washington busca ampliar sua influência econômica sobre o país e reduzir a margem para decisões canadenses independentes dos interesses dos Estados Unidos.

“Eles estão determinados a transformar o Canadá, por exemplo, em um Estado tributário. Ficariam felizes em integrá-lo aos Estados Unidos, transformá-lo no 51º estado ou dividi-lo em três ou quatro estados. Isso não importa, tudo isso pode ser resolvido. Mas querem que ele sirva à predominância dos Estados Unidos”, afirmou.

Wolff disse ainda que a postura adotada em relação ao Canadá seria parte de uma mudança mais abrangente na forma como Washington encara seus próprios aliados.

Groenlândia e o uso do poder econômico

A Groenlândia também ocupa papel central na interpretação do economista.

Wolff avalia que os Estados Unidos podem combinar pressão militar, investimentos e estímulos econômicos para aumentar sua influência política sobre o território.

“Será uma mistura de ameaças militares e dinheiro”, resumiu.

Segundo ele, empresas e lideranças locais poderiam ser atraídas por propostas de investimentos, geração de empregos e expansão de atividades econômicas associadas ao capital estadunidense.

A estratégia, em sua avaliação, não dependeria exclusivamente de negociações formais entre governos, mas poderia envolver a construção de alianças econômicas e políticas dentro da própria sociedade groenlandesa.

Trump inverte narrativa sobre hegemonia

Outro elemento destacado por Wolff é a maneira como Trump apresenta a política externa dos Estados Unidos ao público dos EUA.

Na interpretação do economista, o presidente transforma a antiga condição hegemônica do país em uma narrativa segundo a qual os Estados Unidos teriam sido vítimas de parceiros internacionais que se aproveitaram de sua generosidade.

“O que Trump fez foi construir a ideia de que nós, os Estados Unidos, a potência hegemônica dos últimos 75 anos, fomos sistematicamente abusados nesse papel. Fomos roubados. O sistema estava armado contra nós. Tiraram vantagem de nós”, afirmou.

Para Wolff, essa construção discursiva permite apresentar ações agressivas como uma reação defensiva a supostos abusos cometidos contra os Estados Unidos.

“Ele vira a situação de cabeça para baixo. Torna-se o porta-voz da revolta de uma América que não aparece como uma potência hegemônica tomando os outros, mas como um país que diz: não vamos mais ser roubados”, declarou.

Democratas e republicanos teriam mais continuidade que ruptura

O economista também rejeitou a interpretação de que essa estratégia seja exclusivamente trumpista.

Para Wolff, democratas e republicanos possuem diferenças relevantes, mas compartilham o objetivo de preservar o máximo possível da posição internacional construída pelos Estados Unidos no século XX.

Ele citou como exemplo a maneira pela qual sucessivos governos norte-americanos procuraram desfazer políticas de seus antecessores sem, no entanto, alterar completamente os fundamentos da atuação internacional do país.

A disputa partidária, nessa leitura, ocorreria mais frequentemente em torno dos métodos empregados do que do objetivo estratégico de conservar a liderança dos Estados Unidos.

Europa permanece dependente dos EUA

Wolff dedicou parte da entrevista à situação da Europa, que, segundo ele, continua enfrentando dificuldades para desenvolver uma política econômica e geopolítica verdadeiramente independente de Washington.

Ele afirmou que os países europeus reconstruíram suas economias depois da Segunda Guerra Mundial e avançaram na integração continental, mas permaneceram vinculados à estrutura militar e política liderada pelos Estados Unidos.

O economista considera que a fragmentação política do continente reduz sua capacidade de negociar em condições de igualdade com grandes potências.

“A ideia de que eles acreditam que podem deter o projeto imperial e colonial dos Estados Unidos é simplesmente risível”, declarou.

Segundo Wolff, o principal dilema europeu continua sendo a dificuldade de criar mecanismos próprios capazes de substituir a dependência econômica, militar e estratégica em relação a Washington.

“Eles não sabem como romper sua dependência dos Estados Unidos”, afirmou.

China pode transformar desenvolvimento em influência

Na avaliação de Wolff, a China poderá ampliar sua influência internacional não apenas por meio da diplomacia, mas também pela demonstração concreta dos resultados de seu desenvolvimento econômico.

O economista citou avanços chineses em infraestrutura, tecnologia e propriedade imobiliária e afirmou que boa parte da população estadunidense ainda desconhece a dimensão das transformações ocorridas no país asiático.

“Eles terão de fazer um trabalho muito melhor divulgando aquilo que conquistaram. E, acreditem em mim, quando os norte-americanos entenderem isso, supondo que entendam, haverá um impacto enorme aqui, porque isso vai abalar a autoconfiança dos Estados Unidos”, afirmou.

Para ele, a disputa entre Washington e Pequim envolve, portanto, não apenas poder econômico e militar, mas também a capacidade de apresentar ao restante do mundo um modelo de desenvolvimento considerado bem-sucedido.

Uma ordem mundial em transformação

A análise apresentada por Richard Wolff descreve uma transição internacional na qual os Estados Unidos continuam dispondo de enorme capacidade militar, econômica e financeira, mas enfrentam dificuldades crescentes para exercer esses instrumentos da mesma forma que nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial.

Para o economista, a reação dos EUA consiste em tentar preservar parte de sua antiga posição por meio de uma esfera de influência geograficamente mais concentrada.

Nesse cenário, o Hemisfério Ocidental passaria a assumir importância ainda maior na estratégia de Washington, enquanto a China continuaria apostando prioritariamente no fortalecimento econômico e tecnológico.

“Vamos cuidar de garantir a sobrevivência de nosso império na medida em que pudermos fazer isso. E isso significa, principalmente, o Hemisfério Ocidental, enquanto funcionar”, declarou Wolff.

FOTO: Reprodução Youtube

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/nova-fase-do-colonialismo-dos-eua-tenta-preservar-imperio-em-declinio-diz-richard-wolff/