Leonel Brizola denunciou com veemência o poder político da Rede Globo e sua insidiosa interferência no debate público. Várias décadas depois, o método não mudou. Apenas se sofisticou.
Nesta semana, seguindo o pernicioso estilo lavajatista, o ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro após atuar como seu devoto ministro da Justiça, resolveu operar com uma presteza calculada ao levantar o sigilo das investigações da PF que contém mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, alvo predileto da ira bolsonarista por ter sido relator da Ação Penal 2668, que culminou na condenação do ex-presidente. As investidas de Mendonça passam longe de ser um repentino e desinteressado surto de transparência, atitude que não teve em relação a si mesmo. Vale destacar que Mendonça também esteve com Vorcaro, compartilhando um diálogo privado por cerca de duas horas em março de 2025, no seu Instituto Iter, conforme apuração exclusiva da newsletter Noites Húngaras, do jornalista investigativo Paulo Motoryn. Os movimentos indevidos de Mendonça ao longo dessa semana indicam mais de 50 tons de conveniência político-eleitoral para tumultuar a corrida presidencial, além de não restar dúvida sobre a gravidade de sua postura como julgador e investigador ao mesmo tempo. Curiosamente, a mesma mão vigorosa do ministro que expõe de forma cirúrgica os bastidores de alguns personagens e autoriza buscas e apreensões contra outros alvos envolvidos no Caso Master não levanta o sigilo do Caso Dark Horse, capítulo obscuro da mesma trama que ameaça desvelar o destino da soma cada vez mais vultosa fornecida a Flávio Bolsonaro pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Nesse horizonte, o impacto da referida suspensão de sigilo tomou conta tanto da mídia corporativa quanto da mídia independente. É inquestionável a diferença abissal na cobertura e nos comentários realizados pelos jornalistas das duas. A mídia patrocinada chega a ditar peremptoriamente o que o Presidente do Supremo Tribunal Federal deve fazer diante da grave crise instalada por Mendonça no STF, enquanto os veículos da mídia independente, sobretudo os consagrados pela seriedade, confiabilidade e responsabilidade social, estão analisando os fatos com ética, isenção e postura analítica, levando em conta todas as variáveis dos fatos, sem impor direcionamentos à instituição sob os holofotes.
Considerando essas posturas tão distintas e diante do limiar complexo que definirá os destinos do país, torna-se essencial compreender o movimento das peças desse jogo, distribuídas por interesses de toda ordem, tanto no plano interno quanto no externo, movimento que se intensifica quando falta pouco para os brasileiros irem às urnas decidir quem representará suas expectativas na Presidência da República, no Congresso Nacional e nos poderes Executivo e Legislativo de cada unidade da Federação. Em uma democracia, essa escolha deveria resultar do confronto mais amplo e honesto possível entre projetos de país. A democracia não se resume ao momento em que o eleitor deposita o voto. Antes disso, trava-se uma batalha decisiva pelo direito de informar, de interpretar os acontecimentos e, sobretudo, de definir o que será visto, o que será escondido e a maneira como cada fato chegará ao cidadão.
Em um polo, milhares de brasileiros de diferentes realidades socioeconômicas, entre estes, a maioria que acorda cedo, que pega mais de um transporte lotado, que cumpre jornadas exaustivas e, ao retornar para casa, assume outra jornada de trabalho doméstico e de cuidado com a família, decidirão quem ocupará a Presidência da República, o Congresso, os governos e os legislativos estaduais. São milhões cuja vida é diretamente afetada pelas decisões tomadas nesses poderes. Em outro polo, persistem os interesses de uma minoria minúscula de 1% que, desde a colonização, concentra riqueza, privilégios e capacidade de interferir nos rumos do Estado. A desigualdade de poder não se manifesta apenas na distribuição da renda, manifesta-se também na capacidade de produzir e difundir ideias. É nesse terreno que a mídia corporativa ocupa lugar estratégico. Concentrada nas mãos de poucos grupos empresariais, ela detém um farto monopólio sobre a formação da opinião pública. Não se trata apenas de noticiar. Trata-se de selecionar temas, definir quais personagens ocuparão o centro do debate, escolher o tom, insinuar com falta de imparcialidade, decidir o que será tratado como escândalo, o que será relativizado e, não raramente, o que sequer chegará ao conhecimento do público, ao defender os políticos que vão ao encontro de seus interesses, que estão longe de ser os da maioria do povo que acorda cedo para o árduo trabalho diário. O seu poder concreto de influenciar a agenda, estimular percepções e estabelecer os limites dentro dos quais o debate político será travado tem sido a prática sistemática dessa imprensa não isenta.
Essa influência se torna particularmente corrosiva quando os interesses econômicos dos grandes conglomerados coincidem com determinadas concepções ideológicas de Estado e de sociedade. A prática é antiga e previsível. Governos e projetos progressistas são submetidos a uma cobertura marcada pela suspeição permanente. Qualquer dado positivo vem acompanhado de um “mas”; avanços sociais concretizados são rotulados de populismo. Qualquer crítica à desigualdade é tratada como discurso interesseiro. Já os representantes da direita e até da extrema-direita frequentemente recebem tratamento diferenciado, na medida em que falhas são relativizadas, escândalos minimizados, declarações absurdas normalizadas. A escolha das palavras, das imagens, das manchetes e do tempo destinado a cada assunto também é uma forma de fazer política, ainda que apresentada sob a aparência de neutralidade jornalística. Há inúmeros exemplos eloquentes sobre as práticas da grande mídia. Em 2018, o Estadão chegou a sustentar editorialmente que a escolha entre Fernando Haddad, professor universitário, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, e Jair Bolsonaro seria uma “decisão difícil”. De um lado, um político de trajetória pública conhecida; de outro, um candidato já marcado por declarações fascistas, ataques às instituições democráticas e manifestações em defesa da ditadura e da tortura. A falsa equivalência, repetida à exaustão por boa parte da grande imprensa, ajudou a pavimentar o caminho para um governo que deixou rastro de destruição institucional.
É sistemática a insistência em galvanizar determinados candidatos da direita cujos projetos respondam aos interesses liberais que defendem, assinalando-os como a terceira via necessária para governar o país, enquanto os candidatos progressistas de esquerda são submetidos a uma permanente operação de desqualificação. O candidato desta vez, já que perderam aquele que consideravam ideal para os interesses do mercado, o bolsonarista Tarcísio de Freitas, é o lunático de ideias surreais, escritor de autoajuda barata Augusto Cury (Avante), que, segundo a pesquisa Quaest de 2 de setembro, já alcança 10% das intenções de voto. O outro possível integrante dessa categoria, Ronaldo Caiado (PSD), caiu ladeira abaixo. Mas o dado que melhor revela o sentido político desse crescimento de Cury aparece quando a pesquisa projeta o comportamento de seus eleitores no segundo turno. Segundo o diretor do instituto, Felipe Nunes, 57% dos votos atribuídos a Augusto Cury migrariam para o senador Flávio Bolsonaro (PL), enquanto apenas 15% iriam para o presidente Lula (PT). Ou seja, por trás da suposta “terceira via”, apresenta-se um eleitorado majoritariamente alinhado à direita e, no segundo turno, muito mais próximo do bolsonarismo. Apesar dessa movimentação, Lula continua liderando nos cenários de primeiro e segundo turnos.
É nesse ambiente que se evidencia o papel político da mídia corporativa. A gravidade aumenta porque esse poder se exerce também pelo silêncio, pela relativização e pela transformação de vazamentos ilícitos e insinuações precipitadas, revestidas de jornalismo investigativo. Alguns profissionais bem remunerados e bem posicionados encarnam o papel de investigadores enquanto funcionam, na prática, como prepostos privilegiados de seus patrões. Transformam fofoca em denúncia, informação obtida de maneira obscura em furo e a defesa de interesses privados em interesse público. O problema não é investigar o poder, o que seria uma das funções mais nobres da imprensa. O problema começa quando a investigação deixa de buscar a verdade e passa a servir a interesses políticos ou econômicos previamente definidos.
Nessa perspectiva deletéria para a democracia, foi Leonel Brizola quem, ainda no século passado, denunciou com veemência o poder político da Rede Globo e sua insidiosa interferência no debate público. A trajetória do governador sintetiza o conflito entre um projeto que desafiava elites econômicas e um poderoso conglomerado com enorme capacidade de influência. Décadas depois, o método não mudou. Apenas se sofisticou. Não é preciso imaginar uma conspiração permanente, nem atribuir a todos os jornalistas a mesma conduta. Há profissionais sérios, independentes e comprometidos com o interesse público. A questão é estrutural, empresas privadas de comunicação possuem proprietários, interesses econômicos, relações empresariais e determinadas visões de mundo. Quando esses interesses se cruzam com a disputa pelo poder político, a suposta neutralidade se transforma em conveniências úteis. Às vésperas de mais uma eleição, discutir o papel da mídia não é atacar a liberdade de imprensa. É defender o direito da sociedade a uma imprensa efetivamente livre, plural e responsável. Liberdade de imprensa não pode ser confundida com liberdade empresarial para monopolizar a informação, selecionar versões da realidade e influenciar escolhas políticas sem jamais prestar contas sobre seus próprios interesses. A democracia exige ética e transparência da mídia. Ninguém escolhe livremente aquilo que conhece apenas parcialmente.
A trajetória da Rede Globo não é a de uma emissora imparcial que, de vez em quando, erra. É a biografia de um império midiático construído sobre a espinha dorsal do poder oligárquico brasileiro, sempre disposto a trocar apoio político por vantagens regulatórias, concessões e silêncio seletivo. Desde 1964, quando Roberto Marinho colocou seus veículos a serviço do golpe que derrubou João Goulart sob o pretexto da ameaça comunista, a Globo nunca foi espectadora, foi cúmplice ativa. A ditadura recompensou o favor com o ambiente de expansão que transformou um canal do Rio na maior máquina de fabricação de consenso do país. Só em 2013, pressionado pelas ruas, o jornal O Globo admitiu que aquele apoio foi um erro. O reconhecimento tardio não apaga o lucro acumulado nem o padrão que se repetiria nas décadas seguintes. Sua imparcialidade sempre foi uma farsa. Em 1982, no Caso Proconsult, enquanto a apuração oficial e a da própria Globo apontavam vantagem do candidato governista Moreira Franco, a contagem paralela do Jornal do Brasil e da Rádio JB revelava a vitória de Leonel Brizola. A empresa de informática ligada a militares da reserva desviava votos nulos e em branco. A emissora nega ter contratado a Proconsult, mas o episódio ficou registrado como tentativa de fraude desbaratada por concorrentes. Sete anos depois, na primeira eleição direta para presidente, a edição do debate Collor-Lula exibida no Jornal Nacional na véspera do segundo turno, favorecendo Collor representou mais um golpe. A própria Globo, décadas depois, reconheceu o desequilíbrio. O dano, porém, já estava feito.
Entre 2002 e 2018, o método se sofisticou. Em 2002, o “risco Lula” e a disparada do dólar ocuparam o noticiário com tom de apocalipse econômico. Em 2006, às vésperas do primeiro turno, a dramatização das pilhas de dinheiro do “escândalo dos aloprados”, fotos vazadas e exploradas com intensidade cinematográfica, ajudou a impedir a vitória de Lula já no primeiro turno. Durante a Lava Jato, a emissora transformou denúncias em espetáculo visual por meio dos dutos de propina apresentados no JN e do descalabro do PowerPoint de Deltan Dallagnol que colocava Lula no centro de uma teia criminosa (peça que a própria Justiça e a opinião pública depois desmontaram) além dos vazamentos seletivos contra a esquerda. Em 2018, enquanto a facada em Bolsonaro gerava cobertura humanizadora e emotiva, trechos da delação mentirosa de Palocci eram liberados e amplificados na véspera da votação para a presidência. Nas sabatinas deste ano no Jornal Nacional, a bancada tradicional deu lugar a um cenário de interrogatório ao estilo de inquirição policial em relação a Lula, seguindo o velho padrão. Com Flávio Bolsonaro, entretanto, a disposição para apertar o cerco desapareceu. O contraste político não poderia ser mais nítido. Contudo, Lula entrou na sabatina para ser cobrado como governante e saiu dela falando como estadista, apresentou resultados, defendeu seu legado e expôs um projeto de continuidade de transformação social, enquanto Flávio Bolsonaro entrou como candidato e terminou a entrevista afirmando seu caráter mitômano.
Acerca da grave crise no STF, o Jornal Nacional dedicou vários minutos às denúncias contra Alexandre de Moraes. Vale lembrar, que a Globo e a extrema direita o associam a Lula pelo fato dos dois fazerem frente ao bolsonarismo. Já o encontro secreto de Mendonça com Vorcaro recebeu uma cobertura infinitamente menor. Estadão e Folha de S. Paulo foram enfáticos ao sugerir que Moraes não reúne condições para permanecer na Corte. O Globo, por sua vez, afirmou que o STF deve cobrar dele explicações urgentes. Todavia, não há manchetes pedindo o afastamento de Mendonça com base em sua relação com Vorcaro, nem sobre suas incongruências jurídicas apontadas por Moraes na petição que encaminhou ao presidente da Corte, solicitando que André Mendonça seja investigado. Também não enfatizaram em seus editoriais, o escândalo revelado pela Revista Fórum, tradicional revista da mídia independente, envolvendo o Instituto Iter fundado por Mendonça, que descobriu a fórmula mágica do mercado público ao abocanhar R$ 10,8 milhões em 55 contratos com a máquina estatal, sendo 54 sem licitação.
Os dois pesos e duas medidas ficam evidentes no contraste. Enquanto a imprensa corporativa transforma suspeitas contra uns em vereditos de afastamento de acordo com os interesses que representam, trata o atalho dos R$ 10,8 milhões sem licitação do instituto de Mendonça sem o devido destaque. É a covardia editorial em estado puro. A mesma mídia que exige a cabeça de Moraes, não realça os fatos comprometedores, denunciados pelo jornalismo independente, acerca de André Mendonça. O que a história da Globo e dos demais veículos da grande mídia demonstram não é parcialidade ocasional. É a coerência de um projeto de poder, de alinhar-se, em cada conjuntura decisiva, aos interesses das forças econômicas poderosas que garantem sua hegemonia. Quando o vento muda, trocam o discurso, nunca o método. A diferença, em 2026, é que boa parte do público já não engole a ficção da isenção com a mesma facilidade de antes. Diante de tamanha seletividade, a velha máxima de Leonel Brizola ecoa com indubitável precisão: “Se a Globo é a favor, somos contra; se for contra, somos a favor”. Afinal, quando o viés corporativo escolhe quem proteger e quem crucificar, a bússola da verdade passa, obrigatoriamente, bem longe dos seus editoriais.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/se-a-rede-globo-for-a-favor-somos-contra-se-for-contra-somos-a-favor/