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“O Brasil é um gigante de pés de barro”, diz Paulo Nogueira Batista

Economista avalia avanços do governo Lula, mas aponta entraves estruturais que impedem o país de se consolidar como potência econômica.

247 – “O Brasil é um gigante de pés de barro”, afirmou o economista Paulo Nogueira Batista Jr. ao analisar os desafios que ainda impedem o país de se firmar como uma potência econômica global. Segundo ele, apesar de avanços recentes, limitações estruturais e decisões de política econômica continuam restringindo o desenvolvimento nacional.

A declaração foi feita em entrevista ao programa 20 Minutos, conduzido pelo jornalista Breno Altman. Ao longo da conversa, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco dos BRICS fez um balanço do terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e discutiu os rumos da economia brasileira diante de um cenário internacional instável.

Paulo Nogueira Batista Jr. avaliou que o desempenho econômico do país nos últimos anos pode ser considerado positivo em alguns aspectos. Ele destacou o crescimento econômico moderado, a queda do desemprego e a elevação, ainda que limitada, dos salários reais, além de medidas voltadas à melhoria da distribuição de renda.

“O desempenho é razoável, em certo sentido bom”, afirmou. Ele ressaltou também mudanças tributárias que buscaram aumentar a arrecadação sobre os mais ricos, o que, segundo ele, representa um avanço em relação a políticas anteriores.

Juros elevados e limitações fiscais

Apesar dos resultados, o economista apontou contradições na condução da política econômica. Para ele, o nível elevado da taxa de juros compromete os efeitos positivos de medidas fiscais e redistributivas.

“Você pega esse recurso tributário e coloca para financiar pagamento de juros com uma política que é meio suicida”, declarou. Segundo Batista Jr., o gasto com juros da dívida pública, que gira em torno de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), acaba beneficiando principalmente os setores mais ricos da população.

Ele também avaliou o novo arcabouço fiscal como uma melhora em relação ao antigo teto de gastos, mas ainda insuficiente. Na sua visão, as metas fiscais estabelecidas são rígidas e acabam pressionando investimentos públicos e gastos sociais, limitando a capacidade de crescimento da economia.

Reindustrialização enfrenta obstáculos

Sobre a política industrial, Batista Jr. afirmou que ainda não há sinais claros de reindustrialização no país. Segundo ele, há uma incompatibilidade entre o discurso do governo e as condições econômicas vigentes.

“Como é que você vai dizer para os empresários investir se a taxa de juro oferece uma rentabilidade segura?”, questionou. Ele também criticou acordos comerciais que, na sua avaliação, podem expor a indústria brasileira a uma concorrência externa desvantajosa.

O economista defendeu que a industrialização historicamente exige algum grau de proteção econômica, citando exemplos de países desenvolvidos que adotaram políticas protecionistas em suas fases de crescimento.

Dependência externa e cenário global

A entrevista também abordou o posicionamento do Brasil no cenário internacional. Batista Jr. afirmou que o país ainda apresenta elevada dependência externa, agravada por decisões tomadas em governos anteriores, como a privatização de ativos estratégicos no setor energético.

Ele destacou que a relação com a China, embora relevante, também reproduz um padrão de exportação de commodities e importação de bens industrializados. Ainda assim, avaliou que o diálogo com os chineses tende a ser mais pragmático do que com países ocidentais.

No contexto global, o economista mencionou a importância dos BRICS e o debate sobre alternativas ao sistema financeiro dominado pelo dólar, especialmente diante das tensões geopolíticas recentes.

Potencial e entraves internos

Para Paulo Nogueira Batista Jr., o Brasil possui características que o colocam entre os países com maior potencial econômico do mundo, como grande território, população numerosa e abundância de recursos naturais.

“O Brasil é um gigante”, afirmou. No entanto, ele ressaltou que o país não consegue transformar esse potencial em desenvolvimento consistente devido a limitações políticas e institucionais.

Segundo o economista, fatores como a fragmentação política, a falta de uma base de apoio sólida no Congresso e a ausência de uma estratégia de longo prazo dificultam a implementação de políticas mais ousadas.

Ele defendeu que, para avançar, o país precisaria adotar uma política econômica mais flexível, reduzir a dependência de juros elevados e fortalecer a indústria nacional.

A entrevista conclui que, embora o Brasil tenha condições objetivas para se tornar uma potência econômica, a concretização desse cenário depende de mudanças estruturais e de decisões políticas capazes de superar os entraves atuais.

Foto: Reprodução Youtube

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/o-brasil-e-um-gigante-de-pes-de-barro-diz-paulo-nogueira-batista