Ao proclamar que a dominância dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, o governo Trump transforma a Doutrina Donroe em política explícita de poder sobre a América Latina, sobretudo em relação ao Brasil.
Em pouco mais de cinco minutos, o Departamento de Estado dos Estados Unidos deu seu aviso mais contundente em décadas: o continente é nosso. A mensagem está num vídeo oficial divulgado nesta terça-feira (11), narrado por Kevin Cabrera, embaixador dos Estados Unidos no Panamá.
Ao reconstruir a história da Doutrina Monroe e chegar à intervenção militar na Venezuela que sequestrou Nicolás Maduro, o governo norte-americano não recorre a eufemismos diplomáticos.
A ação é apresentada como uma “manobra calculada” destinada a “dar um sinal no hemisfério”. E a conclusão é ainda mais explícita: a dominância americana sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, diz no vídeo preparado pelo Departamento de Estado o próprio Trump.
O vídeo mostra como uma doutrina originalmente apresentada no século XIX como advertência às potências europeias transformou-se, ao longo da história, num instrumento de domínio regional.
Não se trata mais apenas de uma interpretação dos críticos de Donald Trump. É o próprio governo dos Estados Unidos contando a história dessa transformação.
A Doutrina Donroe
A política já ganhou um nome revelador: Doutrina Donroe.
É a fusão de Donald Trump com James Monroe, presidente norte-americano que, em 1823, formulou a doutrina segundo a qual as potências europeias deveriam manter-se afastadas das Américas.
Dois séculos depois, o adversário mudou. Não é mais a Europa. É principalmente a China. E a Doutrina Donroe deixou de ser apenas uma expressão utilizada por jornalistas e analistas internacionais.
Em julho, durante encontro realizado em Cusco, no Peru, Elbridge Colby, principal autoridade de política do Pentágono, empregou publicamente a expressão ao apresentar a países latino-americanos uma versão renovada da Doutrina Monroe.
Colby relacionou essa estratégia à intervenção na Venezuela, ao combate ao narcotráfico e à necessidade de impedir que potências externas ampliem sua presença estratégica no continente.
Agora o Departamento de Estado dá um passo além. Transforma a doutrina em narrativa oficial.
Este é o nosso hemisfério
A primeira demonstração extrema dessa política ocorreu no Caribe. Em 3 de janeiro, forças norte-americanas intervieram militarmente na Venezuela, capturaram Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, e os transportaram para os Estados Unidos. Continuam presos em Nova York sete meses depois.
Donald Trump deixou claro naquele momento que a operação ultrapassava a Venezuela. Era um recado. “Este é o nosso hemisfério.” A frase publicada pelo Departamento de Estado depois da operação sintetizava a nova concepção de Washington.
O vídeo divulgado nesta segunda-feira, 11, completa a mensagem. A ação contra Maduro é apresentada como demonstração de força destinada a produzir efeitos muito além das fronteiras venezuelanas. A Venezuela era o alvo. O hemisfério era o destinatário.
A China no centro do tabuleiro
A agressividade da Doutrina Donroe não surge no vazio. Durante as últimas duas décadas, a China construiu uma presença econômica extraordinária na América Latina.
Tornou-se principal parceira comercial de importantes economias sul-americanas, financiou infraestrutura, ampliou investimentos em energia, mineração e tecnologia e estabeleceu relações estratégicas com governos de diferentes orientações políticas.
Para Washington, essa expansão deixou de ser apenas uma questão comercial. Tornou-se questão de segurança nacional.
Análises internacionais sobre a Doutrina Donroe convergem precisamente nesse ponto: um de seus objetivos centrais é conter a presença chinesa no Hemisfério Ocidental. Mas existe um problema.
A China já está aqui.
E não será simples separar economias latino-americanas de um parceiro que se tornou fundamental para suas exportações, investimentos e cadeias produtivas.
E o Brasil?
É aqui que a Doutrina Donroe deixa de ser uma discussão distante sobre Venezuela, Cuba ou Caribe. O Brasil está no centro do tabuleiro. É o maior país da América Latina, possui dimensões continentais, gigantescas reservas de petróleo, minerais críticos, terras raras, água, biodiversidade e uma das maiores economias do mundo.
E tem na China seu principal parceiro comercial.
Há ainda outra coincidência reveladoramente importante. Na segunda-feira (10), a China pediu formalmente para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio contra as tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos.
No dia seguinte, Washington divulgou o vídeo proclamando novamente sua dominância sobre o hemisfério. Não há elementos para afirmar que uma iniciativa tenha sido resposta à outra. Mas a sequência ajuda a iluminar a dimensão da disputa.
Brasil e China aparecem juntos recorrendo às regras multilaterais contra medidas unilaterais norte-americanas exatamente quando o governo Trump recupera uma doutrina historicamente associada à primazia dos Estados Unidos sobre a América Latina.
A eleição entra no palco
A relação entre Brasília e Washington já vinha acumulando tensões. Tarifas. Sanções. Pressões sobre autoridades brasileiras. Conflitos em torno das Big Techs. Divergências sobre China e BRICS. E, agora, a eleição presidencial brasileira de 4 de outubro.
Nos últimos meses, a administração Trump aproximou-se ainda mais do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro se aproximou mais ainda dos Estados Unidos, encontrou-se com Donald Trump, estreitou os laços com Marco Rubio e reuniu-se em Brasília com representantes diplomáticos estrangeiros para levantar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Flávio já reacendeu a velha, surrada e desmoralizada narrativa da fraude nas urnas levantada por Donald Trump, quando perdeu a eleição para Joe Biden, em 2020, e ocorreu o 6 de janeiro de 2021 — invasão do Capitólio, em Washington —, e por Jair Bolsonaro, na derrota para Lula, em 2022, quando houve a invasão da sede dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
O Brasil deixou de ser apenas uma economia importante da região. Tornou-se peça central de uma disputa geopolítica. De um lado, os Estados Unidos tentam reafirmar sua primazia sobre o Hemisfério Ocidental. Do outro, a China consolidou-se como principal parceiro comercial brasileiro e defende uma ordem internacional multipolar. No meio está o Brasil. E a eleição presidencial de outubro.
A disputa passa pelas urnas
É impossível separar completamente essa nova doutrina da eleição brasileira de 2026. Faltam menos de dois meses para o primeiro turno.
Luiz Inácio Lula da Silva transformou a defesa da soberania nacional num dos eixos de sua atuação política e diplomática. Aproximou-se ainda mais da China. Conversou longamente com Xi Jinping. Reforçou os BRICS. E passou a responder publicamente às pressões norte-americanas com uma frase que se tornou recorrente:
“Quem manda no Brasil é o povo brasileiro”.
Do outro lado está uma extrema-direita profundamente vinculada politicamente à administração Trump. Essa divisão transforma a eleição brasileira em algo maior do que uma disputa entre candidatos. Ela também passa a integrar a disputa sobre qual será a posição do Brasil num mundo reorganizado pela competição entre Estados Unidos e China.
O aviso de Washington
Certamente por isso o vídeo divulgado, nesta segunda-feira, 11 de agosto, pelo Departamento de Estado seja tão importante. Ele não anuncia uma intervenção específica no Brasil. Não diz que Washington pretende determinar diretamente o futuro político de cada país latino-americano.
Mas anuncia uma concepção de mundo.
O Hemisfério Ocidental volta a ser apresentado como espaço de primazia estratégica dos Estados Unidos. A Venezuela mostrou até onde Washington está disposto a ir.
A nova pressão sobre Cuba mostra que o cerco não terminou em Caracas. E a disputa com a China mostra que o objetivo é muito maior. A ordem internacional erguida depois da Segunda Guerra Mundial está submetida a uma transformação profunda.
E há uma ironia histórica nisso.
A potência que desempenhou papel decisivo na construção das instituições multilaterais do pós-guerra é hoje uma das forças que mais tensionam seus limites quando eles colidem com seus interesses estratégicos.
O continente é de quem?
Há mais de duzentos anos, a Doutrina Monroe ficou conhecida pela fórmula:
“A América para os americanos”.
A história mostrou que “americanos”, naquele contexto, significava sobretudo os Estados Unidos. Agora não precisamos mais interpretar. O próprio governo norte-americano proclama que sua dominância sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”.
É uma declaração extraordinária no século XXI. Porque a América Latina não é propriedade de nenhuma potência. Nem dos Estados Unidos. Nem da China. Nem da Rússia. É dos povos que nela vivem. E talvez seja exatamente essa a pergunta que o vídeo de cinco minutos divulgado por Washington coloca diante do Brasil e de todo o continente:
A América Latina, sobretudo o Brasil, aceitará novamente ser tratada como quintal de uma grande potência ou pretende finalmente decidir seu próprio lugar no mundo?
FOTO: Gustavo Tapioca/Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-cerco-a-america-latina-pela-doutrina-donroe/