A Índia virou o segundo maior comprador do petróleo brasileiro e, em julho, teve embarques de diesel ao Brasil estimados em 2,8 milhões de barris. No centro desse fluxo está Gujarat, onde Mukesh Ambani opera o maior complexo de refino do mundo.
A Rússia despachou ao Brasil em julho o menor volume de diesel em quase quatro anos. No mesmo mês, os embarques de Gujarat ao Brasil foram estimados pela Kpler em 2,8 milhões de barris, maior volume em 11 meses. As cargas estavam programadas a partir de Jamnagar, o maior complexo de refino do planeta, e Vadinar.
O tráfego na direção contrária também engrossou. A fatia da América Latina nas importações indianas de petróleo chegou a 12,7% entre abril e julho de 2026, ante 3,5% no mesmo período de 2025, puxada por Brasil e Venezuela, e a Índia, sétima compradora do cru brasileiro na média de 2025, fechou janeiro em segundo lugar, atrás apenas da China.
Mukesh Ambani aparece nas duas pontas do trajeto. A Reliance Industries, comandada por ele, saiu de cerca de um quinto do petróleo brasileiro comprado pela Índia em 2025 para quase metade dos volumes visíveis entre janeiro e abril de 2026, segundo levantamento publicado pela OilPrice, e parte dos embarques de diesel de julho deixou o complexo em Jamnagar.

O desenho industrial está nos dados da ANP: em junho, o país produziu 4,475 milhões de barris de petróleo por dia e tem capacidade efetiva de refino de 2,3 milhões de barris diários. Em 2025, importou 17,3 bilhões de litros de diesel A, equivalentes a cerca de 25% das vendas de diesel B, mesmo com a produção de petróleo em nível recorde.
Cada barril de cru embarcado pelo Brasil teve valor médio de cerca de US$ 64 em 2025; cada barril de diesel importado custou aproximadamente US$ 85 no primeiro semestre daquele ano. A diferença, de pouco mais de US$ 20, não é margem de refino: mostra apenas que o derivado importado teve valor unitário médio maior que o cru exportado.
O complexo que troca de barril
São duas refinarias no mesmo sítio, com 1,4 milhão de barris por dia de capacidade e índice de complexidade 21,1, o maior do mundo. Uma atende o mercado indiano; a outra, numa zona econômica especial voltada às exportações, ficou isenta dos tributos extraordinários sobre diesel e combustível de aviação reintroduzidos em março. O complexo processa ampla variedade de petróleos.
As sanções contra a Rosneft ajudaram a abrir espaço para fornecedores. A Reliance tinha contrato de dez anos para receber quase 500 mil barris por dia, estimado em US$ 13 bilhões anuais. Após outubro de 2025, tirou o cru russo da unidade exportadora. Tupi e Búzios são óleos médios, de baixo enxofre, adequados à produção de destilados médios.
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã restringiu fluxos pelo Golfo enquanto drones ucranianos reduziram o refino russo. Em 8 de julho, Moscou proibiu exportações de diesel; no dia 30, estendeu as restrições até 31 de janeiro de 2027. Na Europa, o crack atingiu recorde de US$ 74,66 por barril; na Ásia, US$ 77, máxima em quatro meses.
Na apresentação do trimestre encerrado em junho, a Reliance mostrou o benchmark de crack do gasóleo em cerca de US$ 63 por barril, contra aproximadamente US$ 16 um ano antes. Isso não é margem realizada pela empresa. O segmento Oil-to-Chemicals registrou receita de 2 trilhões de rúpias, alta de 30,4%, e Ebitda de 170,1 bilhões, avanço de 17,2%.
Um coadjuvante com sócio russo
No abastecimento brasileiro, porém, o diesel indiano ainda pesa pouco. Quando o produto russo minguou, em julho, quem ganhou espaço foram os Estados Unidos, com 78% das cargas agendadas para o mês; a Índia apareceu com 5%, segundo a Abicom. Em 2025, o país foi o terceiro fornecedor externo do Brasil, atrás de Rússia e Estados Unidos.

E parte do que chega da Índia carrega sócio russo. Vadinar, uma das origens das cargas de julho, pertence à Nayara Energy, empresa da qual a Rosneft detém 49,13%. Sancionada diretamente pela União Europeia em julho de 2025, a refinaria passou a processar apenas petróleo russo depois que outros fornecedores recuaram e redirecionou exportações para Brasil, Turquia, Taiwan e Oriente Médio.
Quanto dos 2,8 milhões de barris previstos para julho saiu de Jamnagar e quanto saiu de Vadinar não foi discriminado nos dados da Kpler divulgados pela Reuters. A consultoria identificou as duas refinarias como pontos de carregamento, mas a divisão do volume entre elas não foi publicada, por isso não dá para atribuir uma fatia específica a cada planta.
“Poderiam instalar refinarias no Brasil”
Exportar o óleo e comprar o derivado, defende parte do setor, é decisão de preço, não falha de projeto. Nenhuma nova refinaria privada de grande porte saiu do papel no país nas últimas décadas. A Acelen, controlada pela Mubadala Capital e dona da segunda maior refinaria brasileira, importa cerca de 40% do petróleo que processa em Mataripe.
“O petróleo brasileiro vendido para nós não é tão competitivo assim”, disse o CEO Luiz de Mendonça à InvestNews. A Petrobras prevê elevar em 307 mil barris diários a capacidade de produção de diesel S-10 até 2030: 134 mil de volume adicional e 173 mil pela substituição do S-500, com Trem 2 e Refino Boaventura entre os projetos.
“Somos autossuficientes na produção de petróleo bruto, mas não somos autossuficientes em refinado”, disse o embaixador Kenneth da Nóbrega em entrevista ao StratNews Global, acrescentando que a Índia “também poderia instalar refinarias no Brasil”. Em janeiro, a Petrobras ampliou o teto do contrato com a BPCL de 6 milhões para 18 milhões de barris, com validade até março de 2027.
Nóbrega também disse que os embarques de petróleo brasileiro à Índia poderiam subir de cerca de 20 milhões para 60 milhões de barris em um ano. Os contratos renovados pela Petrobras com BPCL, IOC e HPCL, válidos até março de 2027, somam potencial de até 60 milhões de barris e mais de US$ 3,1 bilhões.
A conclusão do Trem 2 da Abreu e Lima está prevista para 2029, com entrega parcial da unidade de destilação atmosférica prevista para 2027. No PDE 2035, a EPE projeta importação líquida de diesel de 37 mil metros cúbicos por dia em 2030 e 52 mil em 2035. O volume projetado para 2035 supera em mais de 30% os 39 mil m³/d registrados em 2021, máxima histórica até então.
FOTO: Bernard Gagnon
FONTE: https://revistabastidoresdopoder.com.br/materia/o-petroleo-vai-o-diesel-volta