A sobreposição de conflitos globais e os limites da hegemonia norte-americana.
O cenário geopolítico global de 2026 reflete a sobreposição crítica de três teatros operacionais interdependentes: a conflagração direta entre os Estados Unidos e o Irã, as operações de alta intensidade de Israel contra o Líbano (e o eixo de resistência regional) e a guerra de atrito entre a Federação Russa e a Ucrânia no Leste Europeu. A dinâmica da guerra contemporânea não se caracteriza por episódios isolados, mas por um sistema articulado de desgaste mútuo em que as decisões estratégicas em uma frente impõem restrições logísticas, econômicas e políticas imediatas nas demais. Os EUA estão pagando um alto preço por ignorar, ou subestimar, esse fato.
No Irã há um novo ciclo de escalada do conflito: em 30 de agosto, forças americanas bombardearam lançadores e infraestruturas da Guarda Revolucionária Islâmica na Ilha de Larak; Teerã respondeu no dia seguinte com salvas de mísseis balísticos contra as bases aéreas de King Hussein e Muwaffaq Salti, na Jordânia (bases aéreas da Jordânia que hospedam forças dos EUA sob acordos bilaterais), e instalações estratégicas nos Emirados Árabes Unidos; no momento seguinte, em 1º de setembro, os EUA conduziram bombardeios maciços, seguidos de novas retaliações iranianas nos dias subsequentes. Na Europa, a guerra entre a Federação Russa e a Ucrânia atinge a marca de 1.657 dias de combates contínuos, concentrando o núcleo operacional dos recursos terrestres na batalha final pela Região de Donbas, coração industrial do país.
A evolução do posicionamento operacional de Teerã revela uma transição estrutural: a doutrina militar iraniana abandonou o padrão histórico de retaliação proporcional reativa para assumir uma postura de iniciativa ofensiva. No teatro jordaniano, a Base Aérea Muwaffaq Salti, principal polo de desdobramento e apoio tático da Força Aérea dos Estados Unidos na região, tornou-se alvo continuado de centenas de ataques saturantes por drones e mísseis guiados. Na barragem ofensiva executada entre 1º e 2 de setembro, as defesas aéreas jordanianas e ocidentais interceptaram 10 de um total de 13 mísseis balísticos lançados, ou seja, o ataque foi tão volumoso e rápido que sobrecarregou as defesas aéreas. Por isso, 3 mísseis conseguiram furar o sistema de defesa.
No Estreito de Ormuz, a campanha assimétrica iraniana comprometeu severamente a navegação comercial. Em 16 de abril de 2026, o fluxo comercial havia despencado para apenas 2 petroleiros em trânsito diário, mantendo-se em patamares residuais, como o registro de apenas 4 navios mercantes em 4 de setembro de 2026. A campanha intensiva de 39 dias de bombardeios sustentados contra alvos iranianos consumiu parcelas desproporcionais de armamentos de precisão dos EUA. Levantamentos técnicos indicam que serão necessários no mínimo 3 anos de produção fabril ininterrupta para recompor os estoques de mísseis de cruzeiro Tomahawk (TLAM), interceptores Patriot (PAC-3) e munições guiadas de longo alcance. A cadência industrial americana de Tomahawk permanece em aproximadamente 60 mísseis anuais, tornando irrealista a meta declarada pelo Pentágono de elevar a capacidade de aquisição para mais de 1.000 unidades ao ano no curto prazo. Nesta guerra com o Irã, mais do que nunca, o que o governo norte-americano diz e escreve não merece crédito.
O impacto dessas limitações materiais já ressoa na arquitetura da Aliança Atlântica. Chancelarias europeias debatem abertamente o risco iminente de incapacidade industrial e logística dos Estados Unidos de fornecerem garantias de reabastecimento militar aos países-membros da OTAN. Em contraste com as deficiências ocidentais de suprimento, o complexo militar-industrial russo expandiu significativamente sua produção: a Federação Russa triplicou a cadência mensal de lançamentos de mísseis balísticos no teatro ucraniano entre abril e julho de 2026 e cumpriu a meta anual de produção dos sistemas hipersônicos Zirkon e mísseis Onyx já em agosto de 2026.
Noutra frente, o Estado de Israel opera sob um duplo vetor de pressão: a instabilidade política interna e a condução de campanhas militares simultâneas no front norte. A marcação das eleições legislativas nacionais para 27 de outubro de 2026 constitui o primeiro escrutínio popular desde os ataques de 7 de outubro de 2023, configurando um plebiscito direto sobre a permanência política e o legado de Benjamin Netanyahu. Pesquisas eleitorais consolidadas no início de setembro apontam um empate técnico entre governo e oposição. Em caso de derrota, um dos riscos que corre Netanyahu é o de prisão, já que o seu julgamento por acusações de corrupção só não avançou até a sentença porque ele é primeiro-ministro. A guerra é usada, inclusive, como pretexto para não julgar o primeiro-ministro.
No Líbano, as Forças de Defesa de Israel (FDI) intensificaram bombardeios sobre Beirute em ciclos sucessivos ao longo de março, maio e junho de 2026, atingindo bairros densamente povoados e áreas centrais antes tidas como zonas de exclusão tática. As operações geraram atritos públicos com a administração Trump, que demandou expressamente a suspensão de incursões aéreas diretas à capital libanesa para evitar uma deflagração regional incontrolável que atraísse forças norte-americanas de modo definitivo. Esse comportamento reforça a interpretação de que os ataques a Beirute são manobras de provocação calculada pelo gabinete israelense para forçar o engajamento pleno do poder aéreo dos EUA no conflito.
Subjacente à instabilidade convencional, permanece o fator da dissuasão atômica. Estimativas independentes atribuem a Israel um arsenal não declarado de aproximadamente 90 ogivas nucleares operacionais. O país mantém-se à margem do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o acordo de 1968 que obriga os signatários não nucleares a abrir suas instalações a salvaguardas internacionais. É uma doutrina formal de ambiguidade deliberada. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) só tem jurisdição de inspeção sobre países que assinaram o TNP, e Israel é o único país do Oriente Médio fora do tratado. A existência dessa capacidade estratégica exclusiva no Oriente Médio subsidia as avaliações de analistas internacionais quanto ao risco de recurso a medidas de coação extrema caso a liderança israelense enfrente o colapso simultâneo de suas frentes convencionais de defesa e de sua coalizão doméstica. É chocante que um dos pretextos dos EUA para o criminoso ataque ao Irã tenha sido a existência de enriquecimento atômico no país. Mas é compreensível: a hipocrisia não é um acidente de percurso na guerra imperialista, e sim sua condição estrutural.
Na Ucrânia, o centro de gravidade da campanha militar russa convergiu quase integralmente para o controle dos centros industriais e logísticos de Kramatorsk e Sloviansk, os dois últimos grandes centros urbanos sob domínio ucraniano em Donetsk. Estimativas de inteligência de fontes abertas indicam que mais de 50% de todas as forças de manobra ativas da Federação Russa em território ucraniano estão empenhadas na manobra de cerco a essas cidades. Apesar da concentração maciça de poder de fogo, o ritmo operacional russo permanece marcado pelo desgaste lento de atrito, estimando-se que a conclusão do cerco sobre Kramatorsk e Sloviansk demandará prazos dilatados. Em resposta às dinâmicas diplomáticas de bastidores, a liderança ucraniana estabeleceu um cessar-fogo tático de três dias com vigência a partir de 5 de setembro de 2026, coincidindo com a chegada de emissários diplomáticos dos Estados Unidos a Moscou para sondagens preliminares.
O atual impasse retoma o histórico frustrado de iniciativas negociadoras. As conversações diretas iniciadas em Istambul em 29 de março de 2022 chegaram a produzir um documento preliminar contemplando a neutralidade geopolítica de Kiev, o compromisso formal de não adesão à OTAN e garantias mútuas de segurança multilateral com cessar-fogo, mas foram posteriormente abortadas diante da pressão de potências ocidentais e de divergências intransponíveis sobre integridade territorial. De forma similar, os Acordos de Minsk de 2014 e 2015 apenas congelaram a intensidade dos combates na bacia do Donbas sem solucionar as causas estruturais da disputa de segurança europeia, servindo de prelúdio para a conflagração generalizada.
O esforço de sustentar múltiplos compromissos militares externos intensificou as distorções estruturais da economia norte-americana. O orçamento de defesa dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2026 (que termina em 30 de setembro) atingiu US$ 1,05 trilhão, montante sem precedentes. No plano internacional, os gastos militares globais alcançaram o recorde histórico de US$ 2,887 trilhões em 2025, marcando o 11º ano consecutivo de expansão. Somente o orçamento dos EUA responde por 36,37% do total de gastos militares globais. É um orçamento surreal, considerando que os EUA estão perdendo em todas as frentes. A Rússia, que está vencendo a guerra na Europa contra a OTAN, tem um orçamento militar de US$ 190 bilhões, apenas cerca de 6,6% do total global. O Irã, que também está ganhando a guerra, tem um orçamento militar equivalente a menos de 2,5% do orçamento do seu agressor. O bloco composto por Estados Unidos, China e Rússia respondeu por 51% dos gastos militares globais em 2025, somando US$ 1,480 trilhão.
Recentemente, o periódico Jerusalem Post defendeu que a guerra com o Irã não poderia ser decidida exclusivamente por bombardeios aéreos, apontando a necessidade de grandes contingentes terrestres e sugerindo a concessão de perdão integral de dívidas a jovens norte-americanos como atrativo para o alistamento. Esse tipo de proposta surge em um momento no qual, segundo o próprio artigo citado, o americano médio entre 18 e 34 anos carrega mais de US$ 40 mil em dívidas não hipotecárias (estudantil + cartão + auto + pessoal). É essa fatia da população que a proposta de “perdão de dívidas em troca de alistamento” miraria. Pela proposta, o alistamento do jovem quitaria saldos devedores de empréstimos educacionais, faturas de cartão de crédito e financiamentos veiculares em troca do serviço militar em zonas de combate ativo.
A agressão ao Irã, um país que nunca atacou um vizinho e vem suportando um bloqueio de 47 anos, talvez tenha sido o maior erro geopolítico dos EUA — que já cometeram muitos. A agressão ao país acelerou a integração logística, energética e financeira entre Teerã, Pequim e Moscou, neutralizando a eficácia de regimes de sanções secundárias impostos pelo Tesouro dos EUA. No plano de cooperação material e bélica, relatórios de inteligência confirmam que empresas e entidades estatais russas e chinesas fornecem assistência direta à indústria de defesa iraniana. Esse fluxo compreende componentes de sensoriamento, microeletrônica, guiagem de mísseis balísticos e suporte de imagens de satélite táticas em tempo real, viabilizando a continuidade da produção militar de Teerã apesar do bloqueio naval ocidental.
Um dos maiores trunfos do Irã na guerra, que está no centro da estratégia do governo persa, é a capacidade de pressão sobre a economia internacional. A combinação entre interrupções na navegação do Estreito de Ormuz e os gastos militares exponenciais transmitiu choques severos para a economia produtiva internacional. O Fundo Monetário Internacional (FMI) rebaixou as projeções para o Produto Interno Bruto global em 2026, alertando formalmente que a persistência do conflito regional e o encarecimento dos transportes marítimos podem desencadear a quinta recessão global generalizada desde o ano de 1980.
Foto: @TheWhiteHouse
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/os-eua-cometem-seu-mais-grave-erro-geopolitico-e-nao-devem-ser-interrompidos/