Levantamento do BTG mostra presidente estável no primeiro e no segundo turno, melhora do saldo de aprovação desde março e consolidação de Flávio Bolsonaro como principal nome da oposição.
Depois de uma certa tensão provocada pela pesquisa Quaest divulgada na semana passada, a nova rodada da Nexus/BTG traz um quadro de estabilidade para a campanha do presidente Lula. Na Quaest, Lula oscilou um ponto para baixo no primeiro turno, de 39% para 38%, enquanto Flávio Bolsonaro passou de 30% para 31%, movimentos abaixo da margem de erro, mas que reduziram a distância entre os dois de nove para sete pontos e produziram um efeito psicológico inevitável sobre a disputa.
No segundo turno da Quaest, o movimento havia sido semelhante: Lula passou de 44% para 43%, enquanto Flávio foi de 39% para 40%. A diferença caiu de cinco para três pontos, ainda dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, reforçando a percepção de estreitamento da disputa às vésperas do início oficial da campanha.

O voto espontâneo, em que o entrevistado responde sem ver a lista de candidatos, aponta na mesma direção. Lula passou de 36% para 38% e Flávio permaneceu em 29%, de modo que a diferença entre os dois subiu de sete para nove pontos em relação à rodada da segunda-feira passada.

A estabilidade também aparece no segundo turno. Lula marca 47% contra 44% de Flávio, uma vantagem pequena e dentro da margem de erro, mas o presidente está numericamente à frente em todas as rodadas da Nexus desde maio e tem hoje um ponto a mais do que registrava em março, quando havia empate de 46% a 46%.

O terceiro indicador importante para o governo é a aprovação presidencial. A Nexus registra 47% de aprovação e 48% de desaprovação ao trabalho de Lula, praticamente um empate e uma melhora em relação ao começo da série, quando o placar era de 45% a 51%.
Em outras palavras, o saldo entre aprovação e desaprovação passou de seis pontos negativos em março para apenas um ponto negativo em agosto. Não é um quadro de folga para o governo, mas tampouco sustenta a ideia de que Lula esteja atravessando um processo linear de deterioração eleitoral e política.

A pesquisa mostra, ao mesmo tempo, que Flávio Bolsonaro está se consolidando como o candidato central da oposição. Depois de cair a 33% no fim de julho, o senador recuperou parte do terreno e voltou a 36%, enquanto os demais candidatos permanecem confinados a um dígito.
Ronaldo Caiado aparece com 5%, Renan Santos com 4% e Romeu Zema com 4% no cenário principal de primeiro turno. A chamada terceira via continua existindo como uma disposição abstrata de uma parcela do eleitorado, mas não encontrou até agora um candidato capaz de transformar esse espaço político em intenção de voto nacional.
Esse é um dos aspectos mais interessantes da rodada. A eleição vai assumindo cada vez mais a forma de uma disputa Lula versus Bolsonaro, agora com Flávio ocupando o lugar eleitoral do pai e absorvendo progressivamente o voto oposicionista.
A transferência é particularmente visível quando se observa o voto de 2022. Numa simulação de segundo turno, 90% dos eleitores que votaram em Lula contra Jair Bolsonaro dizem que votariam novamente em Lula, enquanto 93% dos que escolheram Bolsonaro em 2022 afirmam que votariam agora em Flávio.
A cristalização também aparece na certeza do voto. Entre os entrevistados que já escolheram candidato, 78% dizem que não pretendem mudar de decisão; entre os eleitores de Lula, essa certeza chega a 86%, e entre os de Flávio, a 82%.
A divisão política do país, portanto, está muito avançada antes mesmo de a campanha entrar plenamente em funcionamento. Os dois candidatos começam com bases grandes e altamente fidelizadas, o que torna mais difícil produzir deslocamentos expressivos apenas com a disputa cotidiana de campanha.
A tipologia ideológica criada pela Nexus reforça esse diagnóstico. Os chamados “lulistas convictos” representam 25% do eleitorado, contra 21% em março, enquanto os “bolsonaristas convictos” passaram de 27% para 29%; no mesmo período, os “não polarizados” recuaram de 23% para 20%.
É um movimento significativo: os dois polos mais identificados politicamente cresceram, enquanto o espaço não polarizado encolheu. Ainda assim, esse eleitorado menos engajado na polarização permanece decisivo e apresenta uma característica importante para Lula.
Entre os não polarizados, Flávio tem 32% e Lula 31% no primeiro turno. No segundo turno, porém, Lula aparece numericamente à frente por 42% a 41%, com 15% declarando branco ou nulo e 2% sem resposta.
O dado mostra que Lula continua competitivo mesmo fora de seu núcleo ideológico. Entre os eleitores classificados pela Nexus como simultaneamente anti-Lula e anti-Bolsonaro, Lula tem 33% no primeiro turno, contra 27% de Flávio e 14% de Renan Santos; no segundo turno, Lula e Flávio ficam empatados em 37%, com 24% de votos brancos ou nulos.
Renan Santos encontra nesse segmento um de seus poucos nichos de desempenho acima da média nacional. Seu problema é que essa presença entre setores específicos, inclusive parcelas mais jovens do eleitorado, ainda não se transformou em tração nacional: na pesquisa geral, ele permanece em 4%.
A geografia e a composição social do voto continuam muito marcadas. Lula chega a 57% no Nordeste, contra 25% de Flávio, e registra 53% entre os eleitores com renda de até um salário mínimo, diante de 30% do adversário; na faixa de um a dois salários, o placar é de 52% a 27%.
O voto feminino é outro dos principais pilares do presidente. No primeiro turno, Lula marca 46% entre as mulheres contra 32% de Flávio; no segundo, a vantagem cresce para 53% a 38%, enquanto entre os homens Flávio lidera por 51% a 41%.
Entre os evangélicos, o quadro se inverte e continua representando uma vulnerabilidade importante para Lula. Flávio chega a 49% nesse segmento, contra 30% do presidente, mostrando que a disputa religiosa permanece como uma das grandes fronteiras eleitorais da campanha.
O recorte do Bolsa Família é ainda mais contundente. Num eventual segundo turno, Lula alcança 71% entre beneficiários ou pessoas que moram com beneficiários do programa, contra apenas 20% de Flávio; entre os não beneficiários, Flávio aparece numericamente à frente, por 48% a 43%.
A nova Nexus, portanto, oferece algum alívio ao Palácio do Planalto justamente porque interrompe, ao menos nesta fotografia, a percepção de uma queda contínua. Lula mantém o patamar do primeiro turno, preserva sua pequena vantagem no segundo, melhora o saldo de aprovação em relação a março e conserva forte fidelidade entre seus eleitores.
Isso não significa que a eleição esteja confortável para o presidente. O segundo turno está apertado, a desaprovação continua elevada e Flávio Bolsonaro demonstra capacidade de reunir quase integralmente o eleitorado que votou no pai em 2022.
Mas o cenário que emerge da Nexus é menos o de um Lula em declínio do que o de uma eleição progressivamente cristalizada. O desafio central da campanha presidencial passa a ser, de um lado, a capacidade de Lula ampliar sua vantagem entre os 20% não polarizados e, de outro, saber se Flávio conseguirá ultrapassar os limites do eleitorado bolsonarista que já herdou.
Há ainda uma razão metodológica para não atribuir os números desta rodada aos atos de lançamento das candidaturas realizados no domingo. A Nexus ouviu 2.003 eleitores entre 14 e 16 de agosto, de modo que o levantamento funciona sobretudo como uma fotografia da largada; eventuais efeitos políticos dos eventos de campanha deverão aparecer com mais clareza nas próximas pesquisas.
Fonte: Nexus/BTG Pactual, Rodada 10, campo de 14 a 16 de agosto de 2026, 2.003 entrevistas, margem de erro de 2 pontos percentuais, registro TSE BR-03317/2026. Quaest: pesquisa divulgada em 14 de agosto de 2026, 2.004 entrevistas presenciais entre 10 e 13 de agosto, margem de erro de 2 pontos.
FOTO: Ricardo Stuckert
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/pesquisa-nexus-traz-estabilidade-e-alivio-a-campanha-de-lula/