Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 16 anos lutando pelos jornalistas

POBRE EUROPA, POBRE OTAN

A Rússia continuará a ter prevalência no campo de batalha.

A Europa é lenta. Tarda em entender os cenários cambiantes.

Demorou a entender o fenômeno Trump.

Só agora começa a entender que o “America First” é, na realidade, o “American Only”.

Trump não tem aliados verdadeiros. Vê as relações internacionais como um jogo de soma zero. Para que ele ganhe alguma coisa, alguém tem de perder.

Todos os países têm de perder alguma coisa para que os EUA ganhem. Isso se aplica tanto a antigos aliados quanto a adversários ou supostos adversários.

Trump também possui imenso desprezo por instituições plurilaterais e multilaterais de um modo geral. As enxerga como escolhos para uma atuação mais livre dos EUA no cenário planetário e também como sorvedouros inúteis de dinheiro e recursos de Washington.

Para ele, as regras internacionais previamente acordadas e o direito internacional público não possuem valor algum. Simplesmente não se aplicam aos EUA, ao American Only.

Por isso, a sua estratégia é a de “bilateralizar” as relações internacionais dos EUA, buscando sempre, em relações assimétricas, impor seus interesses. Vivemos, com Trump, o auge de relações mundiais hobbesianas, baseadas exclusivamente na força (financeira, militar, geopolítica etc.).

Trump, que sempre detestou a Otan, não voltará atrás em sua decisão de não apoiar a Ucrânia, de forma substantiva. Sabe que isso é inútil. Ainda mais agora, em que sua prioridade é conseguir sair do Irã sem reconhecer sua derrota.

A Ucrânia não tem condições demográficas, econômicas e militares de ganhar a guerra contra a Rússia. Kiev controla, hoje, apenas cerca de 28 milhões de habitantes, e trata-se de uma população bastante envelhecida, já que as taxas de natalidade das mulheres ucranianas estão, há décadas, entre as menores do mundo. Daí o desespero para recrutar mercenários.

Também há a questão econômica desastrosa da Ucrânia.

A economia da Ucrânia permanece cerca de 20% menor do que seu nível pré-guerra. Após contrações iniciais massivas, o PIB cresceu 1,8% em 2025, mas o PIB real encolheu 0,5% no primeiro trimestre de 2026 devido aos extensos ataques russos à infraestrutura energética.

As perdas econômicas totais desde a invasão de 2022 ultrapassam US$ 1,7 trilhão.

O Banco Nacional da Ucrânia revisou para baixo sua previsão de crescimento do PIB para 2026, para 1,3%, abaixo das estimativas anteriores, devido à contínua escassez de energia.

Apenas cerca de 60% da demanda por energia da Ucrânia é atendida, inclusive na capital, Kiev.

Evidentemente, um país, nessas condições, não tem condições de crescer economicamente e, muito menos, de sustentar uma guerra de atrito, mesmo recebendo auxílio de países europeus.

Esse auxílio europeu, com base em drones, permite à Ucrânia, no máximo, atrasar o avanço da Rússia no leste do país e até mesmo provocar alguns ataques em solo russo. Mas isso está longe de fazer a guerra pender para o lado ucraniano.

A Rússia tem muito mais homens, força aérea, artilharia e mísseis balísticos hipersônicos do que a Ucrânia, armas capazes de destruir esse país, se quisesse.

Mas a Rússia não quer destruir a Ucrânia. Nem ocupá-la. São países estreitamente vinculados por traços culturais e históricos. Isso é delírio europeu.

A pretensão da Rússia sempre foi a de proteger a população russófona da Ucrânia e a de assegurar a neutralidade do seu território.

Outro delírio europeu é a ideia de que a Ucrânia é apenas um primeiro passo para que Putin possa “invadir” países do Leste Europeu, de modo a recriar a antiga glória do Império Russo. Isso não tem qualquer base fática.

Na realidade, no início deste século, Putin manifestou o desejo de ingressar na Otan e de se integrar à Europa. Foi rejeitado.

E, em 2008, a Otan tomou a fatídica decisão de incorporar, em um momento futuro, a Ucrânia em suas hostes, pavimentando, assim, a guerra futura, pois todos sabiam que a Ucrânia na Otan é uma questão existencial para todas as forças políticas russas, não apenas para Putin.

O fato é que a Europa e a Otan não obterão, nessa reunião na Turquia, mísseis Patriot americanos para combater os mísseis russos. Trump quer os seus Patriots para voltar a usá-los no Irã, se necessário.

A Rússia continuará a ter prevalência no campo de batalha.

A única coisa que a Europa e a Otan estão conseguindo com essa teimosia estratégica é aproximar o mundo de uma terceira guerra mundial.

É cegueira estratégica somada ao desperdício de recursos. Recursos cada vez mais escassos.

Mas a Europa, repetimos, é lenta, percebe os fatos tarde demais. Não entende mais o mundo. Vive de mitos arcaicos.

A Otan europeia está condenada ao fracasso.

FOTO: Mustafa Kaya/Divulgação via Xinhua

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/pobre-europa-pobre-otan/